STM recebe pedido de perda de patente de Bolsonaro e oficiais

 STM recebe pedido de perda de patente de Bolsonaro e oficiais

© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

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O Superior Tribunal Militar (STM) tornou-se o epicentro de uma decisão de alto impacto com o recebimento do pedido formal do Ministério Público Militar (MPM) para a perda do oficialato do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros quatro militares de alta patente. A solicitação, protocolada nesta terça-feira, 3 de abril, visa à expulsão definitiva desses indivíduos das Forças Armadas. A medida surge em decorrência das condenações proferidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na ação penal referente à trama golpista, que já transitaram em julgado. Este movimento representa um desdobramento crucial no cenário jurídico-militar brasileiro, colocando em xeque as carreiras e os benefícios de militares envolvidos em eventos de grande repercussão política e institucional. A perda de patente de Bolsonaro e dos demais oficiais tem sido um tema de intenso debate público.

O pedido do Ministério Público Militar e suas bases legais

O Ministério Público Militar ingressou com ações de perda do oficialato contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, que possui a patente de capitão da reserva do Exército, e contra outros proeminentes militares da reserva: os generais do Exército Augusto Heleno Ribeiro Pereira, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira e Walter Souza Braga Netto, além do almirante de esquadra da Marinha Almir Garnier Santos. O cerne da argumentação do MPM baseia-se nas condenações definitivas impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da ação penal que investigou o núcleo central da denominada “trama golpista”.

A legislação brasileira, notadamente a Constituição Federal, estabelece critérios claros para a expulsão de um oficial das Forças Armadas. De acordo com o texto constitucional, um militar pode ser compulsoriamente desligado da instituição em caso de condenação criminal que resulte em pena superior a dois anos de prisão. No contexto específico do processo da trama golpista, as sentenças aplicadas a Bolsonaro e aos demais acusados superam largamente esse limite, variando entre 19 e 27 anos de reclusão. A declaração do trânsito em julgado das condenações pelo STF no ano passado, que significa o esgotamento de todas as possibilidades de recurso, foi o catalisador para a ação do MPM, habilitando o tribunal militar a deliberar sobre a perda das patentes. A relevância desta etapa processual é imensa, pois o resultado afetará diretamente a condição jurídica e o status militar desses indivíduos.

A controvérsia da “morte ficta”

Um dos aspectos mais discutidos e, por vezes, controversos deste processo é a implicação financeira da possível perda das patentes. Se o Superior Tribunal Militar decretar a perda do oficialato para Bolsonaro e os demais militares, o salário que atualmente recebem será convertido em pensão e repassado às suas esposas ou filhas. Este benefício é popularmente conhecido como “morte ficta”.

A “morte ficta” é uma previsão legal inserida na legislação das Forças Armadas desde 1960. Ela estabelece que, em determinadas situações, como a exclusão de um militar por condenação criminal, para fins previdenciários, é como se o militar tivesse falecido. Embora a medida possa parecer paradoxal para aqueles que foram expulsos por condutas graves, a intenção original da lei era garantir um amparo financeiro às famílias dos militares, independentemente das circunstâncias que levaram à perda da patente. No entanto, sua aplicação em casos de condenações por crimes graves, especialmente aqueles que afetam a segurança nacional, levanta debates sobre a adequação e a justiça de se manter um benefício a familiares de indivíduos que foram declarados culpados por atos que atentam contra a democracia e o Estado de Direito. A discussão em torno da “morte ficta” adiciona uma camada de complexidade e polêmica a um caso já carregado de significado político e institucional.

A composição e o rito processual do STM

O Superior Tribunal Militar, a corte máxima da Justiça Militar no Brasil, desempenha um papel central neste processo. Sua composição é singular: 15 ministros, dos quais cinco são civis e dez são militares. As vagas militares são distribuídas especificamente, sendo quatro destinadas ao Exército, três à Marinha e três à Aeronáutica. Essa estrutura mista busca equilibrar a expertise jurídica civil com o conhecimento prático da vida militar na aplicação da justiça.

Após o Ministério Público Militar protocolar as ações de perda do oficialato, o tribunal procedeu à definição eletrônica dos relatores responsáveis por cada processo. A designação dos relatores é um passo fundamental, pois são eles que conduzirão a instrução do processo, analisarão as provas e emitirão um parecer inicial antes de o caso ser levado a julgamento pelo plenário. Os relatores designados são:
A ação contra o ex-presidente Jair Bolsonaro será relatada pelo Ministro Carlos Vyuk Aquino, oriundo da Aeronáutica.
O processo contra o almirante Almir Garnier Santos ficará sob a responsabilidade da Ministra Veronica Sterman, de cadeira civil.
O general Paulo Sergio Nogueira de Oliveira terá como relator o Ministro Barroso Filho, também de cadeira civil.
A ação que envolve o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira será relatada pelo Ministro Celso Luiz Nazareth, da Marinha.
O processo referente ao general Walter Souza Braga Netto foi atribuído ao Ministro Flavio Marcus Lancia, oriundo do Exército.
Essa distribuição busca garantir a imparcialidade e a adequação de cada caso ao conhecimento específico dos ministros e às diferentes áreas das Forças Armadas.

Ausência de prazos e o papel da presidência

Em coletiva de imprensa, a presidente do Superior Tribunal Militar (STM), Ministra Maria Elisabeth Rocha, esclareceu que o tribunal não possui um prazo legal definido para julgar as ações de perda do oficialato. A ausência de um cronograma estrito significa que o tempo de tramitação dos processos pode variar, dependendo da complexidade de cada caso e da agenda da corte.

Apesar da inexistência de um prazo formal, a presidente Maria Elisabeth Rocha enfatizou seu compromisso em dar celeridade aos julgamentos. Ela afirmou que pautará os processos para julgamento imediatamente após os relatores liberarem os casos. A expectativa é que, uma vez concluída a fase de instrução pelos relatores, os processos sejam incluídos na agenda de sessões do tribunal sem demora desnecessária. A Ministra também detalhou as regras internas do STM aplicáveis a esse tipo de ação: a presidente da corte só tem direito a voto em caso de empate entre os demais ministros. Além disso, e de forma notável, nesses específicos processos de perda do oficialato, em caso de empate, o voto da presidente é sempre proferido a favor do réu. Essa regra busca proteger o oficialato, que é um dos bens mais caros da carreira militar. Em sua declaração, a presidente do STM reforçou a importância da questão: “Não pretendo procrastinar o julgamento de questões tão relevantes que são submetidas à apreciação dessa Corte”, assegurando a seriedade e o tratamento prioritário que o tribunal dedicará a esses casos de grande relevância nacional.

O desfecho de um processo sem precedentes

A chegada dos pedidos de perda do oficialato ao Superior Tribunal Militar representa um marco significativo na história jurídica e militar do Brasil. O julgamento desses processos, que envolvem um ex-presidente da República e outros oficiais de alta patente das Forças Armadas, tem o potencial de estabelecer precedentes importantes para a disciplina e a hierarquia militares, além de reforçar o princípio da accountability de todos perante a lei, independentemente de seus cargos anteriores. A análise minuciosa por parte dos ministros do STM será crucial para a manutenção da credibilidade das instituições e para a reafirmação dos valores democráticos. O desfecho dessas ações não afetará apenas as vidas dos envolvidos, mas também a percepção pública sobre a integridade das Forças Armadas e a robustez do sistema de justiça brasileiro. A expectativa é que o tribunal atue com a imparcialidade e a técnica necessárias para lidar com a complexidade do caso e suas amplas implicações.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que é o processo de perda do oficialato?
É uma ação judicial militar que visa à expulsão de um oficial das Forças Armadas. Ela é movida quando o militar é condenado criminalmente por uma pena superior a dois anos de prisão, conforme previsto na Constituição Federal. A perda do oficialato resulta na cassação da patente e de todos os direitos e prerrogativas decorrentes da carreira militar.

Quais são as penas que levaram ao pedido de perda das patentes?
Os militares envolvidos foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na ação penal da trama golpista. As penas impostas a Jair Bolsonaro e aos demais variam entre 19 e 27 anos de prisão, superando o limite constitucional de dois anos para a abertura do processo de perda do oficialato.

Quem são os ministros relatores dos processos no STM?
Os relatores foram designados eletronicamente. O Ministro Carlos Vyuk Aquino (Aeronáutica) relatará o caso de Bolsonaro; a Ministra Veronica Sterman (Civil) o de Almirante Garnier; o Ministro Barroso Filho (Civil) o de General Paulo Sergio Nogueira; o Ministro Celso Luiz Nazareth (Marinha) o de General Heleno; e o Ministro Flavio Marcus Lancia (Exército) o de General Braga Netto.

O que acontece com o salário dos oficiais caso percam suas patentes?
Se a perda das patentes for decretada pelo STM, o salário que os militares recebiam será transformado em pensão e repassado às suas esposas ou filhas. Esse benefício é conhecido como “morte ficta” e está previsto na legislação das Forças Armadas desde 1960.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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