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Ativistas denunciam ‘blackface de cabelo’ em fantasias de carnaval
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
O período carnavalesco, vibrante e repleto de celebrações, anualmente reascende importantes debates sobre respeito e representatividade. Entre as discussões mais prementes, ativistas e coletivos antirracistas têm intensificado a denúncia do “blackface de cabelo”, uma prática considerada ofensiva e racista que consiste no uso de perucas ou penteados afro por pessoas brancas como adereço de fantasia. Essa apropriação cultural é equiparada a outras formas de blackface, como a fantasia de “nega maluca” ou “indígena”, que historicamente ridicularizam identidades raciais. O movimento questiona a normalização de estereótipos e a superficialidade com que características identitárias de pessoas negras são tratadas, evidenciando a necessidade de um carnaval mais consciente e inclusivo para todos os foliões.
A questão do “blackface de cabelo”
A expressão “blackface de cabelo”, cunhada por coletivos antirracistas, visa questionar o uso de perucas ou penteados afro por pessoas brancas durante o carnaval. Essa prática, segundo observadores e ativistas que há quase uma década se dedicam a debater o tema sob a ótica de pessoas negras, é percebida como inadequada e racista. Assim como fantasias de “nega maluca” e de “indígena”, que ridicularizam identidades raciais, transformar cabelos crespos em um adereço de folia por parte de indivíduos brancos é considerado uma forma de agressão e desrespeito. O debate busca, com linguagem crítica e satírica, expor o racismo subjacente ao processo de branqueamento da festa momesca.
Entre os principais sintomas desse processo, aponta-se a escolha de mulheres brancas como passistas, mesmo em situações onde sua habilidade com o samba é questionável, em detrimento de mulheres negras com profundo domínio da dança. Em alguns casos, essa escolha é ainda acompanhada da simulação de cabelos cacheados ou crespos. A prática do blackface, originalmente, remonta aos Estados Unidos, onde atores brancos utilizavam maquiagem escura, graxa e outros artifícios para representar pessoas negras de forma estereotipada e degradante no palco. O “blackface de cabelo”, portanto, é visto como uma repetição dessa agressão, transformando a estética capilar negra em uma imitação depreciativa.
Raízes históricas e contemporâneas do racismo na folia
Por muitos anos, o cabelo afro foi estigmatizado como “cabelo ruim” ou “feio” na sociedade brasileira. Mulheres negras foram humilhadas e preteridas em diversas esferas, incluindo oportunidades de emprego, devido à sua estética capilar natural. Contudo, com a chegada do carnaval, muitas pessoas que não se engajam na luta antirracista ou na valorização da estética negra durante o ano decidem “se fantasiar” de “mulher preta”. Para ativistas, o blackface de cabelo é uma continuidade direta da fantasia de “nega maluca”, evidenciando uma apropriação superficial e temporária de uma identidade que é alvo de preconceito no cotidiano.
A reflexão apresentada por críticos da prática destaca a incoerência: “Durante o ano inteiro, mulheres defendem a estética branca, usam cabelo liso, extremamente alinhado, considerado ‘bonito’, ‘adequado’, representativo do que elas são – o que está tudo bem – mas, quando chega o carnaval, querem se fantasiar de mulher negra? Isso é caricato”. Essa apropriação é ainda mais grave quando se contrasta com a realidade de mulheres negras que são frequentemente discriminadas, demitidas ou impedidas de trabalhar por usarem seus cabelos crespos naturais ou tranças. A ironia se intensifica ao notar que, após o último dia de folia, essas fantasias são descartadas, e as pessoas brancas retornam à sua estética habitual. “Enquanto mulheres negras lutam pela nossa vida real, outras fazem da nossa estética fantasia”, ressaltam ativistas, frisando a disparidade e o desrespeito inerentes à prática.
O embranquecimento do carnaval e o apagamento da cultura negra
Ao analisar o embranquecimento do carnaval, especialmente através da participação de mulheres brancas em papéis de destaque, o protagonismo das passistas das comunidades é, muitas vezes, diminuído. Essa dinâmica é denunciada como parte do que o professor de jornalismo e diretor da FAAC da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Juarez Tadeu de Paula Xavier, descreve como “aniquilamento social e cultural” da população negra. O professor, que pesquisa as origens do racismo e suas consequências atuais, incluindo manifestações no carnaval, aponta para uma estratégia mais ampla de apagamento.
“Existe um aniquilamento que é físico, os dados da letalidade de jovens negros mostram isso, e existe esse apagamento dos negros dos espaços de visibilidade”, afirma Xavier. A negação da beleza e o aniquilamento da cultura negra são elementos centrais desse processo, que remonta ao pós-abolição, com a tentativa de negar a presença e a contribuição negra na construção do país. O professor enfatiza que os negros fundaram as bases do Estado brasileiro em uma situação extremamente adversa.
Desafios e o papel das campanhas de conscientização
Apesar de o carnaval contemporâneo ter se transformado em um produto midiático, com uma estética e plástica voltadas para a televisão e a comercialização, suas digitais negras são inegáveis. As escolas de samba, em particular, foram construídas e mantidas por pretos e pardos como uma forma vital de sobrevivência coletiva no período pós-escravidão, que gerou exclusão produtiva e falta de acesso à renda e ao trabalho para essa população. Para o professor Xavier, reverter esse processo exige uma estratégia abrangente de combate ao racismo e à misoginia.
Nesse contexto, destaca-se a campanha “Sem Racismo, o Carnaval Brilha Mais”, do Ministério da Igualdade Racial (MIR), lançada em meados de fevereiro. A iniciativa governamental busca dar visibilidade a uma ação política contra o racismo em espaços propícios a essas manifestações. A campanha pretende distribuir, durante as principais festas de carnaval no país, material educativo que alerta para práticas como injúria racial, fantasias ofensivas, violências simbólicas e discriminação. O material será disseminado inclusive nos municípios que aderiram ao Plano Juventude Negra Viva.
Na visão do secretário de Combate ao Racismo do MIR, Tiago Santana, embora o carnaval já tenha superado muitas fantasias estereotipadas, ainda há quem insista nessas práticas. “Não cabem mais fantasias depreciativas sobre a cultura negra, religiões afro, personagens negras, muito menos mulheres negras. Isso não dá mais. Não é esse tipo de cultura de carnaval que o brasileiro quer”, pontua Santana. A campanha do ministério visa enfrentar as agressões diretas e as injúrias, mas também coibir que temas e a estética negra sirvam de “peça de chacota”.
Com a campanha, o ministério também incentiva as vítimas a registrarem as denúncias por meio do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), e da Ouvidoria do Ministério da Igualdade Racial, disponível pelo e-mail ouvidoria@igualdaderacial.gov.br. Ambos os órgãos oferecem suporte e auxiliam na denúncia de casos junto às autoridades oficiais. Além disso, o professor da Unesp recomenda que vítimas também registrem um boletim de ocorrência na delegacia de polícia mais próxima. “É necessário tipificar, processar, para que as pessoas respondam pela sua ação”, enfatiza Xavier, reforçando a importância da formalização das denúncias.
Por um carnaval mais respeitoso e diverso
O debate sobre o “blackface de cabelo” e o embranquecimento do carnaval ressalta a urgência de uma festa mais consciente e inclusiva. A luta por um carnaval que celebre a diversidade e a riqueza cultural brasileira, sem reproduzir estereótipos ou discriminação, é contínua e fundamental. O engajamento de ativistas, a conscientização da sociedade e o apoio de campanhas governamentais são passos cruciais para que a folia seja um espaço de verdadeira alegria e respeito para todas as identidades.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é “blackface de cabelo”?
É uma expressão cunhada por ativistas para descrever a prática de pessoas brancas utilizarem perucas ou penteados afro como adereço de fantasia no carnaval, sendo considerada uma forma de apropriação cultural e racismo.
Por que a apropriação de cabelos afro em fantasias é considerada racista?
Historicamente, o cabelo afro foi estigmatizado e associado a preconceito. Quando pessoas brancas o utilizam como fantasia, descontextualizam e banalizam uma característica identitária que, no dia a dia, é motivo de discriminação para pessoas negras, transformando-a em algo caricato e superficial.
Como denunciar casos de racismo no carnaval?
Casos de racismo podem ser denunciados pelo Disque 100 (Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania), pela Ouvidoria do Ministério da Igualdade Racial (ouvidoria@igualdaderacial.gov.br) ou registrando um boletim de ocorrência na delegacia de polícia mais próxima.
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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br