Lula propõe união do Sul Global para redefinir economia mundial

 Lula propõe união do Sul Global para redefinir economia mundial

© Ricardo Stuckert/PR

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O presidente da República defendeu a união dos países em desenvolvimento, especialmente os que compõem o chamado Sul Global, como um imperativo para reformular a lógica econômica vigente no cenário mundial. A declaração foi proferida em uma coletiva de imprensa na Índia, momentos antes de o chefe de Estado brasileiro seguir para a Coreia do Sul, concluindo sua agenda diplomática no país asiático. O presidente enfatizou a necessidade de nações com economias emergentes e em desenvolvimento se articularem para fortalecer sua posição em negociações com potências globais. Ele sublinhou que a colaboração entre países do Sul Global é crucial para assegurar acordos mais equitativos e promover um desenvolvimento mais autônomo, afastando-se de dependências históricas.

A visão do Sul Global e o novo paradigma econômico

A redefinição das dinâmicas econômicas globais passa, na visão do presidente, pela união estratégica de países em desenvolvimento. Ele reiterou a importância de nações como Índia, Brasil e Austrália, entre outras do Sul Global, formarem um bloco coeso para negociar em condições de maior paridade com superpotências. Historicamente, conforme pontuado, países menos desenvolvidos enfrentam desvantagens significativas em negociações diretas, resultando muitas vezes em perdas e na perpetuação de um ciclo de dependência.

A força da união e a experiência histórica

A estratégia de unificação proposta pelo presidente baseia-se na convicção de que o potencial coletivo dos países em desenvolvimento pode, de fato, alterar a estrutura econômica global. Essa perspectiva é fundamentada em séculos de experiência colonial, que, segundo ele, ainda se manifesta em termos de colonização tecnológica e econômica. Para superar essa realidade, a construção de parcerias com nações que possuem similaridades e objetivos comuns é vista como um caminho para somar potenciais e alcançar maior força e autonomia. A mensagem central é de que, ao se unirem, essas nações podem reivindicar um lugar mais justo e influente na economia global.

O papel do BRICS na reconfiguração global

Na avaliação do presidente, o bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), ao qual se juntaram recentemente outros países, tem desempenhado um papel fundamental na materialização dessa nova lógica econômica global. O agrupamento, antes marginalizado, tem ganhado robustez e visibilidade no cenário internacional.

Consolidação e aspirações do bloco

A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) pelo BRICS é um exemplo concreto da institucionalização e da capacidade de ação do grupo. O presidente reconhece a inquietação de potências como os Estados Unidos, especialmente em relação à China, mas fez questão de negar qualquer intenção de fomentar uma nova Guerra Fria. O objetivo do bloco, conforme ressaltado, é fortalecer seus membros e, eventualmente, integrar-se ao G20 ou, quem sabe, evoluir para algo equivalente a um G30, ampliando sua influência e representatividade global.

Comércio em moedas locais e a autonomia econômica

Um ponto crucial defendido pelo presidente é o comércio bilateral e multilateral utilizando moedas próprias dos países-membros, em vez de uma moeda comum do BRICS. Essa abordagem visa reduzir a dependência de moedas fortes e diminuir custos de transação, conferindo maior autonomia econômica aos participantes. Ele admitiu que tal medida pode gerar resistência inicial de países como os EUA, mas defendeu que o debate sobre essa prática é necessário e inevitável no caminho para uma maior soberania econômica.

Multilateralismo, ONU e a gestão de crises globais

O presidente brasileiro reafirmou o compromisso com o multilateralismo e a urgente necessidade de fortalecer a Organização das Nações Unidas (ONU). Para ele, a entidade precisa recuperar sua legitimidade e eficácia para cumprir suas funções primordiais de manutenção da paz e da harmonia mundial.

A necessidade de representatividade e eficácia da ONU

Ele mencionou contatos recentes com diversos chefes de Estado, propondo uma resposta unificada e eficaz a crises internacionais, citando situações na Venezuela, em Gaza e na Ucrânia. A crítica central é que nenhuma nação, por mais poderosa que seja, deve ter o direito de interferir unilateralmente na vida de outros países. A ONU, nesse contexto, é a instituição primordial para mediar e resolver esses conflitos, mas para isso, ela precisa de maior representatividade em sua estrutura, refletindo a pluralidade do mundo contemporâneo.

Relações bilaterais e desafios transnacionais

A política externa brasileira, conforme as declarações do presidente, também se volta para o estabelecimento de parcerias estratégicas em áreas críticas, como o combate ao crime organizado transnacional, e para a redefinição de relações com grandes potências.

Parceria Brasil-EUA no combate ao crime organizado

Sobre a relação entre Brasil e Estados Unidos, o presidente indicou que parcerias frutíferas podem surgir se houver um genuíno interesse norte-americano em combater organizações criminosas transnacionais, como o narcotráfico. O crime organizado, atualmente, opera como uma empresa multinacional, exigindo uma resposta conjunta e coordenada entre forças policiais de diferentes países. Ele expressou o desejo de que a Polícia Federal brasileira construa alianças com todas as nações dispostas a enfrentar esse desafio, incluindo os EUA, e reivindicou a extradição de criminosos brasileiros que se encontram em solo americano.

A postura dos EUA na América do Sul e o diálogo com Trump

O presidente defendeu uma relação respeitosa entre a superpotência e os países da América do Sul e Caribe. Ele descreveu a região como pacífica, desarmada nuclearmente, e focada em crescimento econômico, geração de empregos e melhoria da qualidade de vida de sua população. Essa temática deve ser abordada em um futuro encontro com o ex-presidente Donald Trump, onde pretende discutir o papel dos EUA na América do Sul: se é de ajuda ou de ameaça, citando o caso do Irã. O foco global, para o líder brasileiro, deve ser a tranquilidade, o combate à fome e à violência contra as mulheres, em um momento de escalada de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial. Sobre a taxação imposta pelos EUA a outros países, recentemente derrubada pela suprema corte estadunidense, o presidente declarou que não cabe ao Brasil julgar decisões de cortes estrangeiras.

Fortalecimento da parceria Brasil-Índia e potencial econômico

Durante sua visita à Índia, o presidente realizou encontros significativos com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, focados no aprofundamento das relações bilaterais.

Aprofundamento do comércio e investimentos mútuos

As conversas abordaram, principalmente, a relação comercial entre Brasil e Índia, sem aprofundar em geopolítica internacional. O objetivo comum, segundo ele, é fortalecer as economias dos dois países para que se tornem altamente desenvolvidas. O comércio bilateral, que atualmente totaliza US$ 15,5 bilhões, teve uma meta ambiciosa estabelecida com Modi: alcançar US$ 30 bilhões até 2030. As interações com empresários indianos foram igualmente positivas, com muitos expressando otimismo em relação ao Brasil e a intenção de expandir seus investimentos.

Agregação de valor em minerais críticos e terras raras

O presidente reiterated a abertura do Brasil para que outros países explorem seus minerais críticos e terras raras, porém, com uma condição fundamental: a agregação de valor deve ocorrer em território brasileiro. A intenção é evitar a repetição de um cenário histórico onde o Brasil apenas exportava matérias-primas, como minério de ferro, para depois importar produtos manufaturados. O processo de transformação, afirmou, precisa ser realizado no país, garantindo maior benefício econômico e tecnológico.

Agenda asiática do Brasil e a parceria com a Coreia do Sul

A viagem do presidente à Ásia, que incluiu Índia e Coreia do Sul, faz parte de uma estratégia mais ampla para fortalecer o comércio e as parcerias estratégicas com nações do continente.

Missões diplomáticas e perspectivas futuras

A visita a Nova Delhi, capital da Índia, foi um gesto de retribuição à visita do primeiro-ministro indiano ao Brasil em 2025, durante a Cúpula do BRICS. Esta foi a quarta visita do presidente à Índia e a segunda de seu mandato atual. De lá, a comitiva presidencial seguiu para Seul, na Coreia do Sul, a convite do presidente Lee Jae Myung. Esta, a terceira visita do líder brasileiro ao país asiático e a primeira de Estado, visa elevar o nível do relacionamento bilateral para uma parceria estratégica, com a adoção do Plano de Ação Trienal 2026-2029.

Reflexões sobre a política externa brasileira

A política externa brasileira, sob a atual gestão, demonstra um engajamento ativo na construção de um cenário internacional mais multipolar e equitativo. A defesa da união do Sul Global, o fortalecimento de blocos como o BRICS e o chamado por uma ONU mais representativa são pilares dessa abordagem. O Brasil busca não apenas o crescimento econômico próprio, mas também a promoção de uma ordem global que valorize a soberania, o multilateralismo e a cooperação para enfrentar desafios comuns, desde crises geopolíticas até o crime organizado e a sustentabilidade econômica, sempre com foco em parcerias que agreguem valor e desenvolvam as capacidades nacionais.

FAQ

O que é o Sul Global e por que o presidente defende sua união?
O Sul Global refere-se a um grupo de países em desenvolvimento, principalmente no hemisfério sul, que busca maior autonomia econômica e política. O presidente defende sua união para que esses países ganhem poder de barganha em negociações com potências globais, superando dependências históricas e promovendo um desenvolvimento mais equitativo.

Qual o papel do BRICS na visão do presidente para a economia mundial?
O presidente vê o BRICS como um bloco fundamental para redefinir a lógica econômica mundial. Ele destaca a criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e a meta de fortalecer o grupo para que possa, futuramente, integrar-se ao G20 ou formar um G30, promovendo um comércio mais autônomo através do uso de moedas locais.

Por que a ONU precisa de mais representatividade, segundo o presidente?
A ONU, conforme a visão apresentada, precisa recuperar sua legitimidade e eficácia para cumprir sua função de manter a paz e a harmonia global. Para isso, sua estrutura deve refletir a pluralidade do mundo atual, evitando que qualquer nação interfira unilateralmente em outros países, e permitindo uma resposta mais eficaz a crises internacionais.

Qual a meta comercial estabelecida entre Brasil e Índia até 2030?
Durante os encontros com o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, foi estabelecida a meta ambiciosa de elevar o volume comercial entre Brasil e Índia de US$ 15,5 bilhões para US$ 30 bilhões até o ano de 2030.

Para se aprofundar na agenda diplomática brasileira e entender o impacto dessas iniciativas na economia global, acompanhe as notícias e análises sobre o papel do Brasil nas relações internacionais.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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