Superaquecimento em reator da USP atrasa pesquisas e produção de radioisótopos

 Superaquecimento em reator da USP atrasa pesquisas e produção de radioisótopos

© Acervo IPEN/CNEN

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O superaquecimento de componentes dos painéis de controle do reator de pesquisa IEA-R1, localizado na Universidade de São Paulo (USP) e gerido pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), resultou na evacuação do prédio e na interrupção das atividades. O incidente, ocorrido na tarde de segunda-feira, 23 de outubro, causou danos em painéis e fumaça, mas autoridades garantem que não houve comprometimento da segurança nuclear ou vazamento de radiação. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) confirmou que o ocorrido impactará a retomada das atividades de pesquisa, incluindo a crucial produção de radioisótopos para uso médico e agrícola. A investigação para determinar as causas do superaquecimento está em andamento, enquanto equipes especializadas trabalham na avaliação e reparo dos danos, reforçando a natureza localizada do incêndio e a ausência de risco radiológico.

Detalhes do incidente e as averiguações iniciais

A cronologia dos eventos e as equipes de resposta

Na tarde de segunda-feira, 23 de outubro, o reator de pesquisa IEA-R1, uma instalação vital localizada no campus Butantã da USP, experimentou um superaquecimento em componentes de seus painéis de controle. O incidente gerou fumaça e levou à evacuação imediata do prédio onde o reator está instalado. Rapidamente, equipes de resposta a emergências foram acionadas para avaliar a situação e garantir a segurança do local.

A brigada de incêndio mantida pela própria instituição foi a primeira a agir, seguida pelo Corpo de Bombeiros, pelas equipes do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP) e pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). A presença conjunta dessas instituições ressaltou a seriedade do evento e a necessidade de uma resposta coordenada. As vistorias iniciais, confirmadas pelas autoridades, estabeleceram que, apesar da fumaça e dos danos aos painéis, não houve risco de comprometimento da segurança nuclear do reator nem qualquer vazamento de radiação, tranquilizando a comunidade e a população.

A busca pelas causas e os primeiros laudos

Após o incidente, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) informou que o diagnóstico das causas do superaquecimento ainda não foi concluído. Dois painéis de controle foram comprometidos durante o evento. A Cetesb foi imediatamente acionada para monitorar a qualidade do ar nas instalações e realizou trabalhos internos, inclusive emprestando uma bomba especializada para auxiliar na remoção total do ar no local afetado.

A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) também conduziu inspeções detalhadas no prédio nos dias 24 e 25 de outubro. Seus inspetores confirmaram que o incidente teve uma natureza localizada, atingindo um conjunto de racks, o cabeamento associado, parte do teto e uma cadeira na sala de controle. Os peritos da ANSN atestaram a ausência de qualquer risco radiológico ligado ao ocorrido. Vale ressaltar que, no momento do superaquecimento, o reator IEA-R1 estava desligado. Contudo, foi destacado que, mesmo sem estar em operação, alguns sistemas de segurança, como os de refrigeração dos circuitos primário e secundário e o sistema de aquisição de dados operacionais, permanecem energizados para assegurar condições operacionais adequadas e evitar riscos. Uma empresa já foi contratada para elaborar um laudo técnico completo e um orçamento detalhado para a instalação dos novos painéis necessários.

Impacto nas pesquisas e na produção estratégica

Atraso na produção de radioisótopos médicos

O incidente no reator IEA-R1 terá um impacto direto na retomada das atividades de pesquisa e, de forma mais crítica, na produção de radioisótopos de uso médico. O IEA-R1 é um centro pioneiro na produção nacional desses elementos, essenciais para uma vasta gama de diagnósticos e terapias em medicina nuclear, além de aplicações na agricultura. A interrupção prolongada da operação do reator significa que a produção desses insumos estratégicos será atrasada, podendo afetar a disponibilidade de exames e tratamentos que dependem deles.

A dependência desses radioisótopos para o sistema de saúde brasileiro é significativa, e qualquer atraso na sua produção pode gerar desafios logísticos e operacionais. A complexidade do processo de reparo e a necessidade de aprovação da ANSN para a reinstalação dos novos painéis indicam que a retomada plena das atividades pode levar algum tempo, gerando preocupação entre pesquisadores e profissionais da saúde que contam com a infraestrutura do Ipen.

Contexto operacional e paralisações prévias do IEA-R1

O reator IEA-R1, com seus 68 anos de operação, é uma estrutura robusta que opera com um núcleo de urânio e conta com 12 estações de pesquisa. Suas atividades são diversificadas, abrangendo desde a produção de elementos radioativos para uso médico e agrícola até o apoio a pesquisas científicas avançadas e a formação de pessoal especializado.

É importante notar que o reator já se encontrava paralisado desde o começo de novembro de 2025 (data informada pelo órgão responsável, embora futura em relação ao evento). Esta paralisação anterior foi motivada por readequações, após a identificação de alterações em elementos refletores de grafite durante medições realizadas em um duto de irradiação. A interrupção anterior, assim como o superaquecimento recente, reflete o rigoroso protocolo de segurança adotado. A ANSN esclareceu que, “embora o evento não tenha representado comprometimento da segurança nuclear, a equipe responsável pela operação optou pela suspensão imediata das atividades como medida prudencial, a fim de evitar a progressão de danos a componentes do núcleo”. Esses episódios reforçam a constante vigilância e a priorização da segurança operacional na gestão de instalações nucleares.

O panorama da energia nuclear no Brasil

A rede de reatores de pesquisa e suas funções

O Brasil possui atualmente quatro reatores nucleares de pesquisa, todos vinculados à Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). O IEA-R1, com uma potência licenciada de 5 MW, é o maior e mais antigo deles, desempenhando um papel crucial no cenário científico e tecnológico nacional.

Esses reatores de pesquisa são pilares para o avanço do conhecimento e para aplicações práticas. Eles são responsáveis pela produção de radioisótopos essenciais para a medicina nuclear, que auxiliam no diagnóstico de doenças como o câncer e em terapias. Além disso, fornecem fontes radioativas para diversas aplicações industriais, apoiam o desenvolvimento de pesquisas científicas em áreas como materiais, biologia e física nuclear, e são fundamentais para a formação e o treinamento de pessoal licenciado em tecnologia nuclear, garantindo a continuidade e a excelência do setor no país.

O futuro promissor: o novo reator de Iperó

Olhando para o futuro, o Brasil avança na construção de um reator de pesquisa mais moderno e potente. Localizado na cidade de Iperó, também no estado de São Paulo, este novo reator está em fase de construção com previsão de entrega até 2029 e terá uma capacidade significativamente maior, de 30 MW.

De acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), este empreendimento é estratégico e garantirá a autossuficiência do Brasil na produção do radioisótopo Molibdênio-99. Este elemento é crucial, pois é o precursor do Tecnécio-99m, o radioisótopo mais utilizado mundialmente em diagnósticos médicos. A nacionalização dessa produção não apenas reduzirá a dependência de importações, mas também fortalecerá a soberania tecnológica do país na área da saúde. O reator de Iperó também possibilitará a produção de outros radioisótopos para diagnóstico e terapia, e será um componente vital no ciclo de desenvolvimento de combustíveis nucleares, materiais para centrais nucleares brasileiras e novas tecnologias, como os pequenos reatores modulares.

Recuperação e a resiliência da pesquisa nuclear

O incidente de superaquecimento no reator de pesquisa IEA-R1 da USP, embora tenha gerado preocupação e interrupções, reforça a robustez dos protocolos de segurança nuclear brasileiros. A rápida resposta das equipes de emergência e a atuação coordenada de órgãos como Cnen, Ipen, ANSN, Bombeiros e Cetesb garantiram que a situação fosse contida sem riscos radiológicos ou comprometimento da segurança do complexo. A ocorrência, que provocou danos localizados nos painéis de controle, sublinha a vigilância constante necessária em instalações nucleares e a prioridade dada à prevenção de acidentes.

Apesar do atraso inevitável nas atividades de pesquisa e na produção de radioisótopos cruciais para a medicina e a agricultura, o compromisso com a pronta recuperação do IEA-R1 permanece firme. Este episódio serve como um lembrete da importância vital desses centros para a autonomia científica e tecnológica do Brasil. Com as investigações em curso e os planos de reparo já em andamento, espera-se que o reator retome suas operações, garantindo a continuidade de suas contribuições essenciais. Simultaneamente, o país avança em projetos estratégicos como o novo reator de Iperó, solidificando a posição do Brasil no cenário global da tecnologia nuclear para fins pacíficos e evidenciando uma resiliência notável frente aos desafios.

Perguntas frequentes sobre o incidente no IEA-R1

O que causou o superaquecimento no reator da USP?
Até o momento, as causas exatas do superaquecimento dos painéis de controle do reator IEA-R1 ainda estão sob investigação. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) informou que uma empresa já foi contratada para elaborar um laudo técnico e um orçamento para a instalação de novos painéis, que deve esclarecer as origens do problema.

Houve risco de vazamento de radiação ou comprometimento da segurança nuclear?
Não. Todas as autoridades envolvidas, incluindo a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), o Corpo de Bombeiros e a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), confirmaram que não houve risco de vazamento de radiação nem comprometimento da segurança nuclear. O incêndio foi de natureza localizada, atingindo componentes elétricos dos painéis de controle, e o reator estava desligado no momento do ocorrido.

Qual a importância do reator de pesquisa IEA-R1 para o Brasil?
O reator IEA-R1 é uma instalação estratégica e pioneira no Brasil, fundamental para a produção de radioisótopos utilizados na medicina nuclear (diagnóstico e terapia) e na agricultura. Além disso, ele serve como plataforma para pesquisas científicas avançadas, o fornecimento de fontes radioativas para aplicações industriais e a formação e treinamento de pessoal especializado em tecnologia nuclear. Sua operação é vital para a autonomia tecnológica e científica do país.

Para se manter atualizado sobre os avanços e desafios da pesquisa nuclear no Brasil e seus impactos na saúde e tecnologia, continue acompanhando as notícias dos órgãos de ciência e tecnologia.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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