Santarém: povos indígenas intensificam protesto contra desestatização de hidrovias

 Santarém: povos indígenas intensificam protesto contra desestatização de hidrovias

© Coletivo Apoena Audiovisual/Divulgação

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A mobilização indígena no Pará atingiu um novo patamar com a ocupação do escritório da multinacional Cargill no Porto de Santarém. Na madrugada deste sábado (21), comunidades protestaram veementemente contra o Decreto nº 12.600, de agosto de 2025, que prevê a inclusão das hidrovias dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND). Este ato, liderado pelo Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), marca a intensificação de uma série de manifestações que se estendem por mais de um mês, demonstrando a profunda preocupação dos povos originários com a proposta de desestatização de hidrovias estratégicas, consideradas vitais para seus territórios e modos de vida. A ação no Pará foi acompanhada por um protesto simultâneo em São Paulo, diante da sede da mesma empresa.

Ocupação e confrontos em Santarém e São Paulo

Ação no porto paraense
O epicentro da mais recente escalada de protestos foi o terminal operado pela Cargill no Porto de Santarém, no Pará. Dezenas de representantes de comunidades indígenas paraenses e mato-grossenses, ligadas ao Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), ocuparam as instalações do escritório da multinacional nas primeiras horas deste sábado. Este ato seguiu-se a mais de um mês de mobilização e bloqueio do acesso de caminhões ao terminal portuário, uma situação que, segundo a Cargill, já havia sido objeto de uma determinação judicial para desocupação da área. A empresa reportou que, diante da iminente ocupação do terminal paraense, funcionários em serviço buscaram refúgio em um local seguro, de onde foram posteriormente retirados. Até o momento, não há registros de feridos entre trabalhadores ou manifestantes, e a multinacional está verificando a integridade de máquinas e equipamentos. Em nota, a Cargill classificou as ações como “violentas” e reforçou que mantém contato com as autoridades para que as providências de desocupação sejam tomadas de forma ordeira e segura, amparada por uma ordem judicial favorável.

Manifestação em São Paulo e resposta da Cargill
Simultaneamente à ocupação em Santarém, a cerca de 3,2 mil quilômetros de distância, na capital paulista, ambientalistas e integrantes de entidades sociais também se manifestaram. Eles protestaram diante do escritório central da Cargill, na Avenida Chucri Zaidan, na Vila São Francisco, zona sul de São Paulo, bloqueando duas faixas da via. A multinacional, através de sua assessoria, reiterou sua posição, afirmando que as manifestações, tanto em Santarém quanto em São Paulo, impactam suas operações e a segurança de seus colaboradores. A empresa tem enfatizado a necessidade de resolução dos conflitos por meios legais e pacíficos, sem prejuízo às operações logísticas, que são consideradas essenciais para o escoamento da produção agrícola.

A indignação indígena e as reivindicações do Cita

Razões do protesto e ameaças percebidas
A ocupação do escritório da Cargill, após mais de 30 dias de acampamento diante do terminal paraense, foi motivada por uma profunda indignação dos povos indígenas. Conforme comunicado pelo Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita) nas redes sociais, a principal reivindicação é a revogação integral do Decreto nº 12.600. Para as comunidades, os efeitos da inclusão das hidrovias dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND) representam uma séria ameaça à “qualidade da água, à pesca, à soberania alimentar e à integridade da floresta”. O Cita enfatiza que a luta transcende questões de segurança pública, sendo uma questão de “justiça socioambiental, responsabilidade constitucional e direitos humanos”. “Estamos aqui porque defendemos o direito de existir”, declarou a entidade, sublinhando que as comunidades buscam proteger seu modo de vida e seus territórios ancestrais.

Exigências e compromisso de luta
Durante o período de ocupação do pátio do terminal, o Cita afirma ter liberado, de forma pacífica e organizada, as vias de acesso e os espaços necessários à operação de carga e descarga, demonstrando uma estratégia de protesto que busca minimizar impactos diretos, enquanto mantém a pressão sobre o governo e as empresas. As exigências do conselho incluem explicações claras das autoridades federais sobre os critérios que fundamentaram a “privatização dos rios da região”. Além disso, demandam a realização de estudos aprofundados para avaliar os impactos sociais, ambientais e culturais decorrentes de tais empreendimentos. O Cita reforçou seu compromisso de permanência nas mobilizações “até que haja compromisso concreto com a revogação do Decreto nº 12.600 e com a garantia de consulta prévia, livre, informada e de boa-fé antes de decidirem sobre qualquer empreendimento que avance sobre nossos corpos e nossos territórios”.

A postura do governo federal e os compromissos assumidos

Suspensão da dragagem e consulta prévia
Diante da intensa mobilização dos povos indígenas do Pará e do Mato Grosso, o governo federal tem acompanhado de perto a situação. A Secretaria-Geral da Presidência da República reconhece e defende o direito a manifestações pacíficas e reiterou seu compromisso de, em conjunto com outros órgãos federais, consultar previamente as comunidades que vivem sob a área de influência dos empreendimentos sobre os eventuais impactos socioambientais. Como um “gesto de negociação” e em resposta aos protestos, o governo federal anunciou, no último dia 6, a suspensão do processo de seleção e contratação de uma empresa para realizar a dragagem do Rio Tapajós, no Pará. Embora a dragagem seja descrita como uma ação de rotina, sem relação direta com o projeto de conceder a hidrovia à exploração comercial privada, sua suspensão sinalizou uma abertura para o diálogo.

Histórico de diálogo e a Convenção 169 da OIT
O governo federal assumiu outros compromissos importantes. Dentre eles, a instituição de um grupo de trabalho interministerial, com a participação de órgãos e entidades da administração pública federal e de representantes indicados pelos povos indígenas da região. Este grupo terá a missão de discutir, sistematizar e orientar os processos de consulta prévia às comunidades afetadas, além de apresentar um cronograma para a realização dessas consultas, definido em comum acordo com as entidades representativas. As condições técnicas para a instalação desse grupo de trabalho já estão garantidas, aguardando o aval das lideranças indígenas. Em novembro do ano passado, durante a 30ª Conferência das Nações Unidas Sobre Mudanças Climáticas (COP30), o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, já havia se comprometido a realizar uma consulta livre, prévia e informada com os povos do Rio Tapajós antes de qualquer projeto ser implementado. Na mesma época, a Casa Civil assegurou que não faria intervenções nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins sem o devido licenciamento ambiental e estudos de impacto, garantindo a consulta prévia, livre e informada a comunidades locais, indígenas, quilombolas e ribeirinhas, em conformidade com a Convenção 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário. O propósito de transferir para a iniciativa privada a responsabilidade pela manutenção da navegabilidade das hidrovias é justificado pelo governo como uma forma de garantir um escoamento “mais seguro e ambientalmente protegido”.

Resumo dos desdobramentos e perspectivas futuras

A tensão em torno da desestatização das hidrovias do Norte do Brasil reflete um embate complexo entre interesses econômicos, desenvolvimento de infraestrutura e a proteção dos direitos e territórios dos povos indígenas. A ocupação do terminal da Cargill em Santarém e os protestos simultâneos em São Paulo são um sinal claro da determinação das comunidades em defender seus recursos naturais e modos de vida contra projetos que percebem como ameaçadores. Enquanto o governo federal busca um equilíbrio entre a implementação de políticas de desenvolvimento e o respeito aos direitos constitucionais dos povos originários, a exigência de consulta prévia, livre e informada, conforme a Convenção 169 da OIT, permanece central na agenda. A suspensão da dragagem do Rio Tapajós e a proposta de um grupo de trabalho interministerial representam passos no diálogo, mas a revogação do Decreto nº 12.600 continua sendo a principal demanda indígena. O futuro dessas hidrovias e a maneira como esses conflitos serão resolvidos terão implicações profundas para a região amazônica e para a relação do Estado brasileiro com seus povos tradicionais.

Perguntas frequentes

Quais rios estão sendo incluídos no Programa Nacional de Desestatização (PND)?
Os rios Madeira, Tocantins e Tapajós são as hidrovias que o Decreto nº 12.600, de agosto de 2025, prevê incluir no Programa Nacional de Desestatização (PND), visando à concessão para a exploração comercial privada.

Por que os povos indígenas estão protestando contra a desestatização das hidrovias?
Os povos indígenas, representados pelo Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), protestam por entenderem que a privatização dessas hidrovias ameaça a qualidade da água, a pesca, a soberania alimentar e a integridade da floresta, além de desconsiderar seus direitos territoriais e a necessidade de consulta prévia.

Qual é a posição do governo federal em relação aos protestos e ao decreto?
O governo federal reconhece o direito a manifestações pacíficas e reiterou o compromisso de realizar consultas prévias, livres e informadas com as comunidades afetadas. Instituiu um grupo de trabalho interministerial para discutir o tema e suspendeu a dragagem do Rio Tapajós como um gesto de negociação, embora mantenha a política de desestatização como um objetivo de infraestrutura.

O que é a consulta prévia, livre e informada (CPLI) e por que ela é importante neste contexto?
A consulta prévia, livre e informada (CPLI) é um direito dos povos indígenas e tribais, garantido pela Convenção 169 da OIT, da qual o Brasil é signatário. Ela exige que governos consultem essas comunidades de boa-fé antes de tomar decisões que afetem seus territórios ou modos de vida, assegurando que a consulta seja transparente, informada e que os povos tenham a liberdade de aceitar ou rejeitar a proposta. É crucial neste contexto para garantir que os interesses e direitos indígenas sejam respeitados na tomada de decisões sobre as hidrovias.

Para aprofundar seu entendimento sobre os complexos desafios que os povos indígenas enfrentam e as políticas de desenvolvimento na Amazônia, siga as atualizações e análises sobre este tema.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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