O Governo federal apresenta proposta para regulamentar trabalho por aplicativo
© Paulo Pinto/Agência Brasil
A busca por condições de trabalho mais justas para milhões de brasileiros que atuam como entregadores e motoristas por aplicativo ganhou um novo capítulo significativo. O governo federal divulgou uma proposta robusta para a regulamentação do trabalho por aplicativo, visando aprimorar a remuneração, aumentar a transparência e garantir maior segurança social aos profissionais do setor. Anunciada nesta terça-feira pelo Grupo Técnico de Trabalho Interministerial dos Entregadores por Aplicativos, após intensos diálogos com representantes da categoria, a iniciativa propõe um piso mínimo de R$ 10 por corrida, além de um reajuste no valor por quilômetro rodado. O texto, que será encaminhado para apreciação e debate no Congresso Nacional, delineia um futuro com mais equilíbrio entre as plataformas digitais e seus colaboradores, abordando desde o cálculo das tarifas até a infraestrutura de apoio.
Remuneração e transparência: os pilares da nova regulamentação
Reajustes substanciais no valor da corrida e por quilômetro
A principal bandeira da proposta governamental reside na valorização financeira dos profissionais. Atualmente, o valor mínimo por corrida se estabelece em R$ 7,50, uma quantia frequentemente criticada por não cobrir os custos operacionais e não oferecer uma remuneração digna. A nova medida eleva esse piso para R$ 10,00 por entrega, representando um aumento de cerca de 33%. Essa alteração é fundamental para garantir que o tempo e o esforço dedicados a cada entrega sejam devidamente compensados, refletindo um reconhecimento do trabalho essencial desempenhado por esses profissionais.
Além do piso mínimo, a quilometragem percorrida também será remunerada de forma mais justa. A partir do quarto quilômetro rodado, o valor adicional passa de R$ 1,50 para R$ 2,50, um incremento de 66%. Essa modificação visa compensar o desgaste dos veículos, o custo de combustível, a manutenção e o tempo despendido em percursos mais longos, que são uma parte intrínseca e muitas vezes onerosa da rotina de entregadores e motoristas. A expectativa é que esses reajustes diretos na estrutura de pagamentos proporcionem uma melhora imediata e perceptível na renda diária desses trabalhadores, que muitas vezes dependem exclusivamente dessa atividade para seu sustento e o de suas famílias, enfrentando desafios financeiros diários em um cenário de custos crescentes.
Combate à retenção excessiva e maior visibilidade dos custos
Um dos pontos mais sensíveis e amplamente debatidos na relação entre plataformas e trabalhadores é a falta de transparência nos algoritmos de precificação e na divisão dos valores das corridas. Para endereçar essa lacuna, uma portaria do Ministério da Justiça foi instituída, estabelecendo um prazo de 30 dias para que as plataformas digitais informem detalhadamente ao consumidor, ao motorista ou entregador e ao restaurante qual a parcela destinada a cada uma das partes. Essa medida é crucial para desmistificar o cálculo das taxas e para que o profissional saiba exatamente quanto está sendo retido pela empresa a cada serviço realizado.
O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, destacou a urgência dessa transparência, afirmando que a balança de poder está desequilibrada. “O motorista de Uber, o carro é dele, o risco é dele se tiver um acidente, a gasolina é dele, se o pneu furar é problema dele, e a Uber chega a ficar com 40%, 50% de cada viagem. Essa balança está desequilibrada”, pontuou Boulos, ressaltando que essa realidade se aplica a todas as plataformas, não se limitando a uma única empresa. A proposta do governo visa, portanto, “botar um limite nessa taxa de retenção”, buscando uma distribuição mais equitativa da receita gerada. Além disso, o objetivo é garantir a proteção social para o profissional, como um seguro acidente, que atualmente muitas vezes não é fornecido ou é inadequado, deixando os trabalhadores vulneráveis diante de imprevistos inerentes à atividade.
Segurança, apoio e diálogo contínuo para os entregadores
Pontos de apoio e registro formal de acidentes
Além das questões financeiras, a proposta governamental se debruça sobre a qualidade de vida e a segurança dos entregadores e motoristas. O plano prevê a instalação de 100 pontos de apoio em cidades com grande volume de entregas. Esses espaços serão equipados com infraestrutura básica essencial, como banheiros, acesso a água potável, vestiários e conexão à internet, oferecendo um local digno para descanso e necessidades básicas. Essa iniciativa responde a uma demanda antiga da categoria, que muitas vezes não tem onde realizar suas necessidades fisiológicas ou recarregar seus equipamentos durante as longas jornadas de trabalho, comprometendo sua dignidade e bem-estar.
Rodrigo Lopes, presidente do Sindicato do Trabalhadores Autônomos de Moto e Bicicleta por Aplicativo de Pernambuco, elogiou a medida, apontando a vulnerabilidade dos trabalhadores, especialmente das mulheres, que enfrentam desafios adicionais em espaços públicos. “O motorista por aplicativo precisa de um lugar para esquentar sua comida, recarregar o celular, ir ao banheiro. E isso não tem”, declarou Lopes, ilustrando a precariedade da infraestrutura atual. No campo da segurança, os acidentes de trabalho envolvendo profissionais de plataformas digitais passarão a ser registrados formalmente no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), que integra o Sistema Único de Saúde (SUS). Essa formalização é um passo fundamental para a coleta de dados precisos sobre a frequência e as causas desses acidentes, o que, segundo Lopes, “vai ter subsídios, a gente vai ter ferramentas para poder a gente brigar com as empresas” por melhores condições e compensações. A medida permitirá uma análise mais aprofundada da realidade do trabalho, embasando futuras políticas públicas e ações de fiscalização.
Garantia de remuneração em entregas múltiplas e comitê de monitoramento
Outro aspecto crucial abordado no relatório diz respeito às chamadas “entregas múltiplas”, uma prática comum em que o entregador realiza mais de uma entrega na mesma rota. Frequentemente, a remuneração por essas entregas adicionais é desproporcionalmente menor ou não reflete o esforço e o tempo despendidos para completar cada uma delas, o que acaba por diluir a lucratividade do profissional. A proposta recomenda o pagamento integral por cada uma dessas entregas, visando evitar a redução da remuneração e assegurar que o profissional seja justamente compensado por cada serviço prestado, mesmo quando otimiza seu percurso ao combinar várias entregas. Essa medida busca reconhecer o valor de cada tarefa individual, impedindo que a otimização logística das plataformas se traduza em menor ganho para o trabalhador.
Para garantir a efetividade e a correta implementação de todas as medidas propostas, um comitê permanente será estabelecido. Composto por representantes de cinco ministérios distintos, esse comitê terá a responsabilidade de monitorar a execução das ações e de manter um canal de diálogo aberto e contínuo com os motoristas e entregadores de todo o país. Essa estrutura de acompanhamento reflete o compromisso do governo em não apenas propor mudanças, mas em assegurar que elas se concretizem, sejam adequadamente avaliadas e se adaptem às realidades e necessidades dos trabalhadores ao longo do tempo. O ministro Guilherme Boulos enfatizou que o documento servirá de base sólida para a tramitação do projeto de lei na Câmara dos Deputados, indicando um caminho claro e articulado para a transformação da realidade dos trabalhadores por aplicativo no Brasil.
Conclusão
A proposta do governo federal para a regulamentação do trabalho por aplicativo representa um marco fundamental na busca por maior dignidade e justiça para milhões de profissionais que são a espinha dorsal de um setor em constante expansão no país. Ao abordar questões essenciais como a remuneração mínima, a transparência algorítmica, a segurança no trabalho e o suporte infraestrutural, a iniciativa sinaliza uma mudança de paradigma na forma como as plataformas digitais interagem com seus colaboradores. Com o texto agora a caminho do Congresso Nacional, a expectativa é de um debate aprofundado que consolide essas melhorias, pavimentando o caminho para um modelo de trabalho mais equilibrado, seguro e equitativo para os entregadores e motoristas em todo o território nacional, contribuindo para uma economia digital mais inclusiva e socialmente responsável.
Perguntas frequentes (FAQ)
Quais são as principais mudanças financeiras propostas para os entregadores?
A proposta eleva o piso mínimo por corrida de R$ 7,50 para R$ 10,00, um aumento de 33%. Além disso, o valor adicional por quilômetro rodado após o quarto quilômetro subirá de R$ 1,50 para R$ 2,50, buscando uma remuneração mais justa para percursos mais longos e um reconhecimento dos custos operacionais.
Como a proposta visa aumentar a transparência e reduzir a retenção das plataformas?
Uma portaria do Ministério da Justiça exigirá que as plataformas informem, em até 30 dias, a divisão detalhada dos valores da corrida entre consumidor, profissional e restaurante. O objetivo é limitar as taxas de retenção excessivas das plataformas, que, segundo o governo, podem chegar a 40% ou 50% do valor da viagem, buscando uma distribuição mais equitativa e clara da receita.
Que medidas de segurança e apoio são previstas para os profissionais?
O plano inclui a instalação de 100 pontos de apoio com banheiros, água, vestiário e internet nas cidades de maior fluxo, oferecendo infraestrutura básica. Além disso, acidentes com profissionais de plataformas digitais passarão a ser registrados formalmente no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), permitindo o monitoramento e a formulação de políticas de segurança mais eficazes e embasadas.
Mantenha-se informado sobre os próximos passos desta importante regulamentação e seu impacto no futuro do trabalho por aplicativo no Brasil.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br