São Paulo: protesto pede fim da escala 6×1 e combate ao feminicídio

 São Paulo: protesto pede fim da escala 6×1 e combate ao feminicídio

© Letycia Treitero Kawada/Agência Brasil

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Nesta última sexta-feira, uma expressiva manifestação tomou a Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, ecoando demandas cruciais para a sociedade brasileira. Centrais sindicais e diversos movimentos sociais uniram-se em um ato que convergiu a luta por melhores condições de trabalho com a urgência do enfrentamento à violência de gênero. O principal foco do protesto foi a reivindicação pelo fim da escala 6×1 no Congresso Nacional e a implementação de medidas eficazes contra o feminicídio, pautas que ressoam a necessidade de maior dignidade e segurança para a população. Camisetas e cartazes exibiam críticas contundentes à atuação parlamentar, reforçando a pressão popular por mudanças legislativas significativas e por uma sociedade mais justa.

A luta pelo fim da escala 6×1 e contra a precarização do trabalho

A jornada de trabalho em regime de escala 6×1, onde os trabalhadores folgam apenas um dia após seis dias de expediente, tem sido um ponto central de discórdia e insatisfação para milhões de brasileiros. A manifestação em São Paulo sublinhou a necessidade premente de aprovação de projetos de lei que visem à sua extinção, buscando proporcionar mais tempo para descanso, convívio familiar e atividades de lazer. A pauta reflete um desejo generalizado por um equilíbrio mais saudável entre a vida profissional e pessoal, impactando diretamente a qualidade de vida e o bem-estar dos trabalhadores.

Os desafios da pejotização e a defesa da CLT

Além da questão da escala 6×1, os manifestantes expressaram forte repúdio à crescente “pejotização”, modalidade de contratação onde funcionários são formalizados como Pessoa Jurídica (PJ) ou Microempreendedor Individual (MEI) em vez de terem um vínculo empregatício sob a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). O professor da rede pública, Marco Antônio Ferreira, um dos participantes do ato, enfatizou a dificuldade de conscientizar as novas gerações sobre a importância da CLT em um cenário onde a pejotização ganha terreno. Segundo Ferreira, muitos jovens, iludidos pela falsa autonomia, acabam perdendo direitos fundamentais.

Nesse modelo de contratação, trabalhadores podem perder benefícios essenciais como férias remuneradas, 13º salário, FGTS e a garantia de salário em caso de doença. A ausência desses direitos representa uma precarização das relações de trabalho, deixando o profissional vulnerável e sem a devida proteção social. Ferreira ressaltou que a pejotização não só afeta a segurança financeira, mas também impede o engajamento cívico. “Militar, defender seus direitos, correr atrás já é difícil para quem não trabalha em escala 6×1. Nessa escala, é desumano, a pessoa mal consegue cuidar da própria vida. Então, realmente, é uma forma de desorganizar e mesmo de desumanizar”, observou o educador, destacando como a precarização das condições laborais limita a participação em lutas coletivas por direitos e contra as desigualdades sociais.

O debate sobre a redução da jornada de trabalho e a proteção dos direitos laborais ganha força com o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que defende a valorização do tempo livre e a revisão das atuais cargas horárias. Enquanto isso, parte do empresariado e setores da economia se opõem a essas mudanças, argumentando sobre possíveis impactos na produtividade e nos custos. Em resposta a essa discussão, o governo federal enviou ao Congresso, em meados de abril, um projeto de lei com urgência que propõe um regime de 40 horas semanais, proibindo cortes salariais resultantes da redução de jornada.

Pesquisas recentes corroboram a preferência dos trabalhadores pela segurança da CLT. Um levantamento encomendado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), Fundação Perseu Abramo e outras entidades sindicais, intitulado “O Trabalho no Brasil”, revelou que mais da metade (56%) dos trabalhadores do setor privado sem carteira assinada já teve experiência anterior no regime CLT. Desse grupo, quase dois terços (59,1%) afirmaram que, sem dúvidas, voltariam a ter registro em carteira. A pesquisa da Vox Populi, que ouviu pessoas fora do mercado de trabalho (como mulheres em atividades de cuidado não remunerado e estudantes), apontou que 52,2% gostariam de retornar ao mercado e 57,1% preferiam fazê-lo com carteira assinada. Um dado preocupante do estudo é a confusão entre “empreendedor” e “trabalho autônomo”, com muitos se declarando empreendedores quando, na realidade, eram PJs atingidos pela precarização.

A urgência do combate ao feminicídio e a defesa dos direitos das mulheres

Paralelamente às reivindicações trabalhistas, a manifestação deste sábado (1º) deu voz à luta contra o feminicídio e a violência de gênero, que assola o país com uma onda crescente de casos. Os direitos das mulheres emergiram como uma agenda crucial e inadiável, pontuando a indignação e a necessidade de ações concretas por parte do poder público.

Misoginia, colonialismo e a necessidade de políticas mais amplas

A pedagoga Silvana Santana, uma das vozes presentes no protesto, conectou a misoginia agravada no Brasil às profundas raízes do projeto colonialista europeu, cujas consequências, segundo ela, ainda reverberam na sociedade atual. Santana reconheceu o valor das medidas protetivas que estão sendo implementadas pelo poder público, mas as considerou tardias e de alcance limitado, especialmente no que tange à urgência de tratar mulheres negras como sujeitos de direito plenos.

Para a pedagoga, a violência contra a mulher transcende o aspecto físico, englobando também a violência patrimonial, intelectual e das subjetividades, além da negação da própria existência e valor desses “corpos-mulheres”. Ela defendeu a necessidade de um projeto social e político “mais ousado”, focado na emancipação dos afrodescendentes no país. A pauta feminina na manifestação reforça o clamor por uma abordagem sistêmica que desconstrua as bases da desigualdade de gênero e raça, garantindo não apenas a proteção, mas a plena autonomia e dignidade para todas as mulheres.

Perspectivas futuras e a consolidação de direitos

A manifestação em São Paulo, ao unir a luta por direitos trabalhistas e a urgência do combate ao feminicídio, reflete uma articulação social robusta em busca de uma sociedade mais justa e equitativa. As demandas por uma jornada de trabalho mais humana e pelo fim da precarização laboral convergem com a exigência de um país seguro e respeitoso para as mulheres, livre da violência de gênero. A pressão popular por mudanças legislativas, como o projeto de lei para a redução da jornada de trabalho e medidas mais eficazes contra o feminicídio, demonstra a vitalidade da democracia e a necessidade contínua de mobilização. É um chamado para que o Congresso Nacional e o governo federal respondam com celeridade e profundidade às necessidades expressas nas ruas, construindo um futuro onde a dignidade humana e a igualdade de direitos sejam pilares inegociáveis.

Perguntas frequentes (FAQ)

O que foi o protesto em São Paulo e quais suas principais reivindicações?
O protesto ocorreu na Praça Roosevelt, em São Paulo, e foi organizado por centrais sindicais e movimentos sociais. As principais reivindicações foram a aprovação do fim da escala de trabalho 6×1 e a implementação de medidas eficazes para o enfrentamento ao feminicídio no país.

Qual a importância do fim da escala 6×1 para os trabalhadores?
O fim da escala 6×1 é considerado crucial para proporcionar aos trabalhadores mais tempo para descanso, lazer e convívio familiar, melhorando a qualidade de vida e combatendo a exaustão. A proposta visa a um equilíbrio mais saudável entre vida profissional e pessoal.

Como a “pejotização” afeta os direitos dos trabalhadores no Brasil?
A “pejotização” é a contratação de trabalhadores como Pessoa Jurídica (PJ) ou Microempreendedor Individual (MEI) em vez de sob a CLT. Isso resulta na perda de direitos essenciais como férias remuneradas, 13º salário, FGTS e licença médica remunerada, precarizando as relações de trabalho e tornando os profissionais mais vulneráveis.

Por que a luta contra o feminicídio foi um ponto central na manifestação?
Em meio à crescente onda de violência de gênero no país, a luta contra o feminicídio e pela proteção dos direitos das mulheres foi incorporada como uma pauta urgente e fundamental. A manifestação destacou a necessidade de políticas públicas mais abrangentes e eficazes para combater a misoginia e garantir a segurança e emancipação das mulheres.

Quais são as propostas legislativas em discussão relacionadas à jornada de trabalho?
O governo federal enviou ao Congresso um projeto de lei com urgência que propõe um regime de 40 horas semanais, com a garantia de que não haverá corte de salários como resultado da redução da jornada.

Mantenha-se informado sobre essas importantes discussões e participe do debate para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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