Audiência pública debate projeto de reparação histórica em São Paulo

 Audiência pública debate projeto de reparação histórica em São Paulo

Agência Brasil

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Uma significativa audiência pública ocorreu recentemente na área externa da Ocupação 9 de Julho, em São Paulo, para debater o Projeto de Lei 27/2024, popularmente conhecido como “PEC da Reparação”. A proposta, de autoria do deputado Damião Feliciano (União/PB), visa instituir um novo capítulo na Constituição Federal dedicado à promoção da igualdade racial e criar um fundo específico para financiar políticas públicas de reparação histórica. Cerca de duzentos participantes, muitos deles representantes de instituições ligadas ao movimento negro, como a Coalizão Negra por Direitos e a Unegro, reuniram-se para ouvir parlamentares favoráveis à medida e discutir o andamento do projeto. A iniciativa reflete a crescente demanda por ações concretas que enfrentem o racismo estrutural e promovam a inclusão social e econômica da população preta e parda no Brasil.

O Projeto de Lei 27/2024: A PEC da Reparação

O Projeto de Lei 27/2024 representa um marco potencial na legislação brasileira ao propor a inserção de um novo capítulo na Constituição Federal, o Capítulo IX, integralmente dedicado à promoção da igualdade racial. A iniciativa vai além da mera declaração de princípios, buscando estabelecer mecanismos efetivos para corrigir as desigualdades históricas e estruturais que afetam a população negra no país. O cerne da proposta reside na criação de um Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial (FNREPIR), um instrumento financeiro concebido para impulsionar políticas públicas e privadas voltadas para a inclusão e a garantia de oportunidades.

Estrutura e objetivos do FNREPIR

O Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial (FNREPIR) é o pilar central da “PEC da Reparação”. Sua concepção prevê um robusto aporte financeiro de R$ 20 bilhões do orçamento federal, distribuídos em R$ 1 bilhão por ano, com o objetivo de garantir a sustentabilidade das ações a longo prazo. Além dos recursos orçamentários, o fundo será alimentado por indenizações de empresas que tenham se beneficiado direta ou indiretamente da escravidão, estabelecendo um precedente para a responsabilização corporativa histórica. O professor José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares e um dos presentes na audiência, enfatizou a potência desses recursos. “É para a operação de políticas públicas e privadas. A operação de uma vida numa sociedade econômica capitalista só se faz com os recursos econômicos indispensáveis para operar essas medidas”, explicou. Ele destacou que o FNREPIR permitirá melhorias e transformações “lá na ponta do território e lá na ponta do indivíduo”, especialmente na garantia da vida e integridade física dos jovens negros. A expectativa é que o fundo fortaleça instituições que já propõem e podem realizar essas políticas, consolidando uma opinião pública forte e dando voz à comunidade negra. O FNREPIR visa não apenas a reparação, mas a criação de um ambiente de igualdade de oportunidades e de desenvolvimento para todos os brasileiros.

A mobilização e o caminho legislativo

A audiência pública na Ocupação 9 de Julho não foi apenas um palco para a discussão parlamentar, mas também um espaço vibrante de mobilização social. Os cerca de duzentos participantes, muitos deles integrantes de movimentos sociais e instituições-chave da luta antirracista, demonstraram a força e a organização da comunidade negra em torno da pauta da reparação. Instituições como a Coalizão Negra por Direitos e a Unegro marcaram presença, reiterando seu compromisso com a aprovação do Projeto de Lei 27/2024. A atmosfera do evento refletiu uma mistura de esperança e realismo sobre os desafios inerentes à tramitação de uma proposta tão transformadora.

Desafios e o papel da sociedade civil

A aprovação de uma Emenda à Constituição é um processo legislativo complexo, exigindo o voto de dois terços dos parlamentares em dois turnos, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal. Esse quórum qualificado torna a mobilização de aliados crucial. O professor José Vicente, em sua fala, ressaltou a importância da pressão social e da sensibilização. “Precisamos da mobilização das pessoas, das instituições, mas sobretudo precisamos também de sensibilização dos nossos aliados, os nossos parceiros, porque como sabemos são 513 deputados, dos quais os negros são 100, 120, número insuficiente para aprovar uma medida dessa natureza”, alertou. Ele convocou a opinião pública a utilizar as redes sociais, um “espaço democrático”, para exigir o apoio dos parlamentares.

Apesar dos desafios, há otimismo entre os parlamentares presentes. O deputado Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, sinalizou no colégio de líderes que o PL caminha para votação em maio, um passo importante no processo. O relator da proposta, deputado Orlando Silva (PC do B/SP), enfatizou a dimensão universal da luta contra o racismo: “Do mesmo modo que a luta contra o racismo não é uma luta apenas de pretos, não negros devem somar essa luta. Essa luta é da sociedade brasileira.” Silva destacou que o combate ao racismo transcende divisões políticas, sendo uma causa de “todo mundo que defende dignidade humana e que compreende que somos todos iguais, mas que há um racismo estrutural no Brasil, o qual precisa ser superado”.

Após a aprovação no Congresso Nacional, o projeto será encaminhado à Presidência da República para sanção, tornando-se lei. Em seguida, suas estruturas de funcionamento, como o conselho que gerirá o FNREPIR, serão constituídas. Orlando Silva complementou que, embora existam “boas políticas públicas de promoção de igualdade de redução no Brasil”, elas têm “baixo impacto porque pouco recurso você diminui o impacto, o alcance”. A expectativa é que a “PEC da Reparação” e o FNREPIR ampliem significativamente o alcance dessas políticas.

Perspectivas futuras e o apelo à sociedade

A “PEC da Reparação” representa uma oportunidade histórica para o Brasil avançar na construção de uma sociedade genuinamente igualitária e justa. Ao propor a reparação de séculos de injustiças decorrentes da escravidão e do racismo estrutural, o Projeto de Lei 27/2024 não busca apenas compensar o passado, mas sim pavimentar um futuro onde as oportunidades sejam equitativas para todos os cidadãos. A audiência pública em São Paulo demonstrou a força do movimento negro e a capacidade de articulação em torno dessa pauta vital. A aprovação da proposta exigirá um esforço conjunto da sociedade civil, de parlamentares de diversas bancadas e do engajamento de cada cidadão. O Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial, com seus recursos substanciais e seu propósito claro, tem o potencial de catalisar transformações profundas, impactando diretamente a vida de milhões de brasileiros pretos e pardos e contribuindo para a superação definitiva das barreiras impostas pelo preconceito e pela discriminação. É um chamado para que a dignidade humana e a igualdade se tornem a base inquestionável da nação brasileira.

Perguntas frequentes sobre a PEC da Reparação

O que é a PEC da Reparação (PL 27/2024)?
A PEC da Reparação, ou Projeto de Lei 27/2024, é uma proposta legislativa que visa adicionar um novo capítulo à Constituição Federal brasileira, o Capítulo IX, dedicado à promoção da igualdade racial. Além disso, propõe a criação do Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial (FNREPIR), com o objetivo de financiar políticas públicas e privadas que combatam o racismo estrutural e promovam a inclusão social e econômica de brasileiros pretos e pardos.

Como será composto e utilizado o Fundo Nacional de Reparação (FNREPIR)?
O FNREPIR será composto por R$ 20 bilhões do orçamento federal, a serem aplicados à razão de R$ 1 bilhão por ano, e por indenizações provenientes de empresas que comprovadamente se beneficiaram da escravidão. Os recursos do fundo serão destinados à operação de políticas públicas e privadas focadas na promoção da igualdade de oportunidades, inclusão social e proteção da vida e integridade física de jovens negros, buscando mitigar os impactos do racismo estrutural.

Quais são os próximos passos para a aprovação do projeto?
O Projeto de Lei 27/2024, após sinalização do presidente da Câmara, deputado Hugo Motta, no colégio de líderes, está caminhando para votação em maio. Para ser aprovado, por se tratar de uma Emenda à Constituição, necessitará do voto favorável de dois terços dos parlamentares, em dois turnos de votação, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal. Após aprovação em ambas as casas, será encaminhado à Presidência da República para sanção e, então, suas estruturas de funcionamento, como o conselho gestor do FNREPIR, serão estabelecidas.

Para acompanhar os desdobramentos desse importante projeto e se engajar na construção de uma sociedade mais justa, mantenha-se informado e participe do debate público.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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