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Sete em cada dez mulheres relatam assédio em estudo abrangente
© Rede Nossa São Paulo/Divulgação
Uma nova pesquisa revelou um cenário preocupante sobre a segurança e o bem-estar das mulheres nas principais cidades brasileiras: sete em cada dez mulheres afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio, seja ele moral ou sexual. Este dado alarmante destaca a persistência e a abrangência da violência de gênero, que se manifesta predominantemente em ruas e espaços públicos. O levantamento, conduzido com 3,5 mil pessoas em dez grandes centros urbanos – Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo – em dezembro de 2025, expõe a fragilidade da segurança feminina e a urgência de intervenções eficazes. A pesquisa lança luz sobre como a insegurança se tornou uma constante na vida de muitas mulheres, limitando seu direito à cidade e sua liberdade.
A persistência do assédio em números alarmantes
A análise dos dados, focada em uma amostra de 2.066 mulheres, aponta que 71% delas vivenciaram alguma forma de assédio em pelo menos um dos seis ambientes pesquisados. Embora haja uma ligeira queda em comparação com 2014, quando o índice era de 74%, a proporção de mulheres que sofrem assédio permanece consideravelmente alta e persistente nas dez capitais. Uma diretora de pesquisa salientou, durante o lançamento do estudo, que “a insegurança é uma regra na nossa vida, não é uma exceção”, e que essa alta proporção de mulheres assediadas é um problema recorrente que cerceia a liberdade e o direito de desfrutar plenamente dos espaços urbanos. A situação exige uma reflexão profunda sobre as políticas públicas e as atitudes sociais para garantir a segurança e a autonomia feminina.
Locais de maior incidência: ruas e transportes públicos
Os resultados da pesquisa detalham os locais onde o assédio é mais frequente, revelando que os espaços públicos são os mais hostis para as mulheres. Ruas e outros espaços abertos, como praças, parques e praias, foram citados por 54% das entrevistadas como palco de assédio. Em seguida, o transporte público aparece como um ambiente de risco elevado, mencionado por 50% das mulheres.
Em um patamar inferior, mas ainda significativo, o ambiente de trabalho foi citado por 36% das mulheres. Bares e casas noturnas representam 32% das menções. Preocupantemente, o ambiente familiar surge em 26% das respostas, indicando que a violência não se restringe a espaços externos ou anônimos. Por fim, o transporte particular, como táxis ou carros de aplicativo, foi citado em 19% dos relatos. Um dado ainda mais chocante é que 5% das mulheres entrevistadas relataram ter sofrido assédio em todos os seis espaços mensurados, um universo que, embora percentualmente pequeno, representa milhares de mulheres em capitais que concentram milhões de habitantes, sublinhando a ubiquidade do problema para uma parcela considerável da população feminina.
A percepção sobre a insegurança feminina
A insegurança que as mulheres enfrentam em seu dia a dia é uma realidade inegável, conforme ressaltado pelas entrevistadas e especialistas. A diretora de pesquisa enfatizou que “o espaço público e o transporte público se destacam como os lugares mais hostis para as mulheres, sendo esse um problema recorrente e que limita a nossa liberdade, o nosso direito à cidade”. Essa declaração ilustra a barreira invisível que muitas mulheres enfrentam ao tentar exercer sua cidadania e desfrutar dos espaços urbanos. O receio de ser assediada impacta diretamente a mobilidade, a vida social e profissional, e até mesmo a saúde mental, criando uma constante sensação de vulnerabilidade. A percepção de que a insegurança é a norma, e não a exceção, gera um ciclo de medo e restrição que impede o pleno desenvolvimento e a participação das mulheres na sociedade.
O clamor por punição e uma rede de apoio robusta
Diante da persistência do assédio, a população expressa um desejo claro por justiça e por mecanismos de proteção mais eficazes. A pesquisa aponta que aumentar as penas para agressores é a medida mais desejada, com 55% das menções. Em segundo lugar, com 48%, surge a ampliação dos serviços de proteção às vítimas. A agilização na investigação das denúncias foi citada por 37% dos entrevistados. Uma diretora de pesquisa destacou que o estudo “aponta para a necessidade de um caminho que combina o desejo da punição e da justiça com a necessidade de uma rede de apoio mais robusta”. Isso implica aproximar a população dos agentes de segurança e investir no treinamento de profissionais para que possam acolher melhor as mulheres, além de políticas de segurança comunitária. Curiosamente, quase três em cada dez homens consideram prioritário criar essas políticas de segurança comunitária, aproximando a população dos agentes.
Propostas para enfrentar a violência de gênero
As propostas levantadas pela pesquisa e as discussões subsequentes com especialistas apontam para uma abordagem multifacetada no combate à violência de gênero. A demanda por um sistema judicial mais rigoroso e ágil reflete a frustração com a impunidade e a demora processual. No entanto, o apelo por uma rede de apoio mais consistente sublinha que a punição, por si só, não é suficiente. É fundamental que as vítimas encontrem acolhimento, suporte psicológico e jurídico acessível. Isso inclui a expansão de centros de atendimento especializado, abrigos e canais de denúncia facilitados. A sugestão de aproximar a população dos agentes de segurança e de investir em seu treinamento visa não apenas melhorar a resposta a emergências, mas também construir uma relação de confiança que encoraje as mulheres a denunciar e buscar ajuda, desmistificando a ideia de que a segurança é responsabilidade exclusiva de órgãos formais.
A visão de especialistas sobre o punitivismo e a prevenção
Embora a demanda por punição seja alta, especialistas alertam para os limites da via punitivista. Uma promotora com experiência em enfrentamento à violência doméstica, avalia que o combate à violência contra mulheres não será resolvido apenas com a crença de que “o direito penal vai dar conta de tudo”, classificando essa visão como “patriarcal”. Ela ressalta que o feminicídio, por exemplo, já possui a maior pena prevista no código penal – até 40 anos –, mas isso não se traduziu em redução do crime; pelo contrário, o feminicídio e o descumprimento de medidas protetivas têm aumentado.
Essa perspectiva é reforçada por uma coordenadora de políticas para mulheres de um órgão municipal, que enfatiza a importância de repensar intervenções públicas e mecanismos de proteção com base em dados. Ela destaca que muitas mulheres não estão seguras nem mesmo em seus lares e enfrentam uma insegurança ainda maior ao se aventurarem em espaços públicos. A coordenadora sublinha a constante vigilância que as mulheres precisam manter sobre seus horários e rotas, exemplificando a exaustão de viver com medo. “Sair de casa tendo que observar que horas que eu estou saindo, que horas que eu vou chegar. Eu saio do meu trabalho pensando nisso: não posso chegar muito mais que dez da noite na minha região. É inseguro para mim, é inseguro para muitas mulheres”, desabafou, ilustrando a privação de liberdade imposta pela insegurança.
A desigualdade nas tarefas domésticas e sua percepção
Além de abordar a violência de gênero, o levantamento aprofundou-se na percepção sobre a divisão de tarefas domésticas, revelando discrepâncias significativas entre homens e mulheres. No total da amostra, 39% dos entrevistados – quatro em cada dez – reconheceram que, embora os afazeres da casa sejam responsabilidade de todos, as mulheres acabam realizando a maior parte. Uma parcela quase idêntica, 37%, afirmou que as atividades são divididas igualmente. Esses números variam minimamente entre as capitais pesquisadas.
Diferenças de gênero na divisão de responsabilidades
A percepção sobre a divisão das tarefas domésticas muda drasticamente quando se analisa o recorte por gênero. Entre os homens, 47% acreditam que as atividades são divididas igualmente, um percentual que cai para 28% quando se ouve as mulheres. Por outro lado, 32% dos homens reconhecem que as mulheres são as que mais trabalham na esfera doméstica, mesmo que a responsabilidade deva ser compartilhada. Contudo, essa percepção aumenta para 44% entre as mulheres. Essa notável divergência evidencia não apenas uma desigualdade na prática das tarefas, mas também uma disparidade na percepção dessa divisão, apontando para um desafio cultural arraigado na sociedade brasileira. A pesquisa revela que, enquanto muitos homens acreditam em uma divisão equitativa, as mulheres experimentam uma realidade de sobrecarga, o que demonstra a complexidade em superar padrões de gênero internalizados.
Conclusão
A pesquisa em questão oferece um panorama detalhado e alarmante sobre a realidade das mulheres nas grandes cidades brasileiras. A constatação de que sete em cada dez mulheres já sofreram assédio moral ou sexual, predominantemente em ruas e transportes públicos, exige uma resposta imediata e coordenada. Embora a sociedade demonstre um anseio por maior punição para os agressores, a visão de especialistas converge para a necessidade de ir além do punitivismo, investindo em redes de apoio robustas, prevenção e transformação cultural. A insegurança crônica imposta às mulheres limita sua liberdade e seu direito à cidade, reforçando a urgência de repensar as intervenções públicas e os mecanismos de proteção existentes.
A discrepância na percepção sobre a divisão das tarefas domésticas entre homens e mulheres é outro ponto crítico revelado pelo estudo, sublinhando que a desigualdade de gênero se manifesta tanto na esfera pública quanto na privada. Combater o assédio e promover a equidade de gênero requer uma abordagem holística que inclua educação, conscientização, apoio às vítimas e políticas eficazes que garantam segurança e igualdade em todos os ambientes. O desafio é imenso, mas os dados fornecem um ponto de partida claro para a construção de cidades mais justas e seguras para todas as mulheres.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. Qual a principal conclusão do estudo sobre assédio contra mulheres?
A principal conclusão é que sete em cada dez mulheres entrevistadas relataram já ter sofrido algum tipo de assédio (moral ou sexual), destacando a prevalência do problema em dez grandes cidades brasileiras.
2. Quais são os locais onde o assédio é mais frequente, segundo a pesquisa?
Ruas e espaços públicos (54%) e o transporte público (50%) são os locais onde o assédio é mais frequente. O ambiente de trabalho, bares, casas noturnas, o ambiente familiar e o transporte particular também foram citados, mas em menor proporção.
3. Que tipo de soluções são mais desejadas pela população para combater o assédio?
A maioria da população deseja o aumento das penas contra agressores (55%), a ampliação dos serviços de proteção às vítimas (48%) e a agilização na investigação das denúncias (37%). Especialistas também enfatizam a importância de uma rede de apoio robusta e medidas preventivas.
4. Como a pesquisa abordou a divisão de tarefas domésticas e qual foi a principal divergência?
O estudo investigou a percepção sobre a divisão de tarefas domésticas, revelando que 39% dos entrevistados acham que as mulheres fazem a maior parte. A principal divergência é de gênero: 47% dos homens pensam que as tarefas são igualmente divididas, enquanto apenas 28% das mulheres compartilham dessa percepção, evidenciando uma sobrecarga feminina.
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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br