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Revolução feminina sem volta!
Por Renata Abreu
A revolução das mulheres não começou agora. Por séculos, fomos silenciadas. Estudar era privilégio de poucas. Votar era impensável. Falar com autonomia era visto como ameaça. Foi no silêncio imposto que essa revolução começou a nascer.
Cresceu na resistência diária, dentro de um mundo que naturalizou a desigualdade, transformou violência em rotina e tentou convencer gerações inteiras de que aquele era o nosso lugar possível.
Durante muito tempo, nós, mulheres, fomos ensinadas a suportar. A desvalorização, a interrupção constante, o descrédito. Ainda hoje, quando falamos com firmeza, somos chamadas de exageradas. Quando denunciamos, somos questionadas. Quando lideramos, somos testadas além da medida. Uma estrutura foi montada para nos rotular antes mesmo de nos ouvir. Mas há algo que essa estrutura não conseguiu conter: a mudança.
Essa mudança é concreta. Está nos números, nos cargos, nos espaços antes fechados. Está na física Sônia Guimarães, primeira mulher negra a lecionar no ITA, rompendo uma barreira histórica dentro de uma das instituições mais prestigiadas do país. Está em Magda Chambriard, que assumiu o comando da Petrobras, empresa estratégica para o Brasil. Está na projeção internacional de Fernanda Torres, levando o cinema brasileiro ao centro do debate global. Está em Laísa Lima, à frente de uma bateria na Marquês de Sapucaí, num espaço historicamente masculino. Está na ciência de Tatiana Sampaio, que trabalha para devolver movimentos a quem os perdeu.
Esses nomes não são exceções folclóricas. São evidências de uma transformação estrutural. Cada avanço individual corrige um pouco da distorção histórica que nos excluiu dos centros de decisão.
Mas é na política que essa revolução se torna mais decisiva. Em 1932, depois de décadas de mobilização liderada por mulheres como Bertha Lutz e Leolinda Daltro, o voto feminino foi conquistado no Brasil. Não foi concessão. Foi luta.
Hoje, somos 53% do eleitorado. Somos maioria nas filas de votação, mas seguimos minoria nas cadeiras do Congresso Nacional, nas assembleias, nas prefeituras e nas Câmaras Municipais.
Em 2024, apenas cerca de um terço das candidaturas foi de mulheres, e a representação efetiva permanece abaixo de 20% nas principais casas legislativas.
Isso não é um detalhe estatístico. É um problema democrático. Democracia pressupõe pluralidade real. Se mais da metade da população não participa de forma proporcional das decisões, algo está desalinhado. Não se trata de disputa entre gêneros. Trata-se de qualidade institucional.
Mais mulheres na política significa ampliar a lente sobre políticas públicas, sobre orçamento e prioridades. Significa incluir experiências que historicamente ficaram fora da mesa. Significa garantir que nós também estejamos onde as decisões são tomadas.
Neste ano eleitoral, essa discussão ganha urgência. Não basta celebrar conquistas simbólicas. Precisamos olhar para a estrutura de poder e perguntar quem está decidindo o rumo do país. A presença feminina qualifica o debate, tensiona consensos fáceis e amplia a responsabilidade pública. Quando ocupamos esses espaços, fortalecemos a democracia.
O Dia Internacional da Mulher não é peça de marketing nem data para flores e discursos protocolares. É um lembrete de que a caminhada foi dura e continua sendo. É reconhecer que houve e ainda há violência, exclusão e resistência institucional. Mas é também afirmar que nós não recuamos.
Eu escolhi estar na política porque acredito que transformar o Brasil passa, necessariamente, por ampliar a voz das mulheres nos espaços de decisão. Sei que ocupar esses espaços não é simples. Mas também sei que cada mulher que chega abre caminho para muitas outras.
O mundo está mudando porque nós, mulheres, decidimos não recuar. Não é uma revolução ruidosa todos os dias. Muitas vezes é silenciosa. Mas é contínua. E, sobretudo, é sem volta.
* Renata Abreu é deputada federal por São Paulo e presidente nacional do Podemos