Mulheres exigem fim da violência em ato marcante no 8 de março

 Mulheres exigem fim da violência em ato marcante no 8 de março

© Valter Campanato/Agência Brasil

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Neste Dia Internacional da Mulher, Brasília foi palco de uma poderosa manifestação que ecoou o grito “Parem de nos Matar”, denunciando a alarmante escalada do feminicídio e da violência de gênero em todo o Brasil. Centenas de vozes se uniram, trazendo à tona a dor e a indignação diante dos recorrentes assassinatos e agressões, mas também a força coletiva na busca por justiça e segurança para todas as mulheres. O ato, vibrante e multifacetado, transcendeu a capital federal, conectando-se a movimentos semelhantes em São Paulo e Copacabana, evidenciando uma pauta nacional urgente. Além da violência, outras reivindicações sociais e políticas foram destacadas, marcando um 8 de março de ampla mobilização e clareza nas demandas.

A urgência do combate à violência de gênero

A manifestação que marcou o Dia Internacional da Mulher em Brasília teve como epicentro a denúncia dos crescentes casos de feminicídio no país. Próximo à icônica Torre de TV, no coração da capital federal, o evento reuniu uma diversidade de participantes, incluindo grupos musicais, representantes de partidos políticos, sindicatos e diversos coletivos feministas, todos unidos sob a mesma bandeira: o fim da violência contra a mulher. Cartazes com mensagens contundentes como “Parem de Nos Matar” coloriam o cenário, traduzindo o desespero e a resistência de uma população farta de estatísticas alarmantes.

Denúncias e dados alarmantes sobre feminicídio

A gravidade da situação foi ilustrada de forma contundente pela artista plástica Daniela Iguizzi, de 55 anos, que exibiu sua obra “Medo”. A peça, impactante, retrata um revólver apontado contra uma mulher, simbolizando a constante ameaça que paira sobre a vida feminina. Em seu depoimento, Iguizzi expressou o sentimento de vulnerabilidade compartilhado por muitas: “A mulher não tem um minuto de paz. Ela não tem sossego no seu lar. Ela não tem sossego no seu trabalho. Em todos os lugares nós podemos ser assediadas, podemos ser assassinadas. Por isso, o nome dessa obra é Medo. Medo é o que toda mulher brasileira sente.”

Os números corroboram esse sentimento de insegurança. No período mais recente com dados consolidados, foram registradas 1.568 mulheres vítimas de feminicídio no Brasil, um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior, conforme informações compiladas pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Essa escalada de violência é a principal preocupação das mulheres brasileiras, como ressaltou Raquel Braga Rodríguez, coordenadora do grupo de maracatu Baque Mulher Brasília. Ela destacou a importância de o ato ir além da denúncia, pressionando por ações concretas. “O governo lançou esse Pacto Nacional contra o Feminicídio e a gente gostaria muito que essa política pública fosse realmente colocada em prática, que a gente visse resultado na redução desses números”, afirmou Raquel, referindo-se à iniciativa firmada no início de fevereiro entre Executivo, Legislativo e Judiciário para adoção de medidas contra a violência de gênero.

Ainda no contexto das vozes históricas do movimento, Lydia Garcia, uma militante negra com 88 anos de idade e pioneira na capital federal, fez questão de estar presente, mesmo com o risco de chuva. Professora de música aposentada e membro do Coletivo Mulheres Negras Baobá, Lydia, mãe de cinco filhos, com 11 netos e três bisnetos, sublinhou a resiliência e a força das mulheres. “Nós mulheres, principalmente as mulheres negras, estamos impondo a este mundo e a este Brasil a nossa força, as nossas lutas e vitórias por dias melhores contra a violência dos jovens negros, contra o feminicídio”, declarou, reiterando a interseccionalidade das lutas.

Demandas sociais, políticas e econômicas em foco

Além do combate ao feminicídio, a manifestação em Brasília abrangeu uma série de outras reivindicações cruciais, que vão desde críticas à gestão local até pautas trabalhistas e questões de política internacional. A complexidade das demandas reflete a amplitude das opressões enfrentadas pelas mulheres em diferentes esferas da vida.

Críticas ao governo do Distrito Federal e pautas trabalhistas

Um dos alvos explícitos do protesto foi o Governo do Distrito Federal (GDF), liderado pelo governador Ibaneis Rocha e sua vice, Celina Leão. As críticas centraram-se na gestão financeira e na falta de investimentos em políticas públicas essenciais. Jolúzia Batista, representante da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), expressou sua indignação com a escassez de recursos destinados à proteção e promoção das mulheres no DF. “Estamos vivendo um escândalo financeiro no Brasil com o banco do GDF sendo rifado e faltando dinheiro para a política pública”, denunciou, referindo-se à investigação da Polícia Federal sobre a tentativa de compra do Banco Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB). A transação, que envolveu perdas estimadas em R$ 2,6 bilhões e a proposta de dar imóveis públicos como garantia, gerou revolta e a percepção de que recursos que poderiam ser aplicados em serviços sociais são desviados ou mal geridos.

Batista enfatizou que, para além da denúncia contra o feminicídio, a luta feminina deve ser também por um orçamento justo que financie políticas públicas eficazes para melhorar a vida de meninas e mulheres. “A gente precisa falar de orçamento. Com as emendas parlamentares, as emendas Pix, elas levaram o dinheiro da política pública. Perdemos qualidade de serviço, perdemos capacitação de profissionais, perdemos em campanhas educativas”, lamentou, evidenciando o impacto direto da falta de investimento nas estruturas de apoio às mulheres.

Outra pauta central e amplamente defendida na manifestação foi o fim da escala de trabalho 6×1, que prevê seis dias de trabalho para apenas um de descanso. Essa jornada é considerada particularmente exaustiva e prejudicial para as mulheres, que frequentemente já enfrentam jornadas duplas ou triplas, acumulando responsabilidades profissionais com o cuidado da casa, dos idosos e das crianças. Thammy Frisselly, uma das organizadoras do ato, pontuou que as mulheres necessitam de tempo para o autocuidado, saúde mental, lazer, e para continuar seus estudos. “As mulheres precisam de tempo para tratar da sua saúde mental, para o lazer, para fazer outras coisas, para estudar”, explicou, destacando o impacto direto dessa exigência trabalhista na qualidade de vida feminina.

Lutas globais e o avanço dos movimentos feministas

A abrangência da manifestação em Brasília não se limitou às questões domésticas e locais. O protesto também deu voz a importantes pautas internacionais, denunciando o imperialismo e a violência em contextos globais. As ações dos Estados Unidos no Irã, em Cuba e na Venezuela foram alvo de críticas, assim como a ação israelense na Palestina, demonstrando a solidariedade das mulheres brasileiras com lutas por autonomia e paz ao redor do mundo. Cartazes e falas durante a marcha reforçaram essa dimensão global da resistência feminina.

Apesar dos desafios persistentes, o movimento de mulheres em Brasília também celebrou avanços significativos. Thammy Frisselly, destacou os dez anos da Marcha Unificada do 8 de Março na capital federal e as conquistas obtidas. “O 8M é o maior ato político feminista da capital federal. A gente teve muitos avanços, não só nas leis, mas também no aumento no número de delegacias para mulheres”, detalhou Frisselly. Ela ressaltou que, graças à pressão e persistência dos movimentos ao longo dos anos, a violência contra a mulher hoje é um tema amplamente debatido na sociedade. “Podemos falar hoje abertamente que é violência o seu ‘psiu’ no meio da rua, que é violência você falar da minha roupa. Essa é uma educação bem na base que é resultado da luta das mulheres”, completou, enfatizando a importância da conscientização e da mudança cultural impulsionada pela mobilização.

Perspectivas e o clamor por mudança

O Dia Internacional da Mulher em Brasília, em seu poderoso e multifacetado protesto, reafirmou a força inabalável do movimento feminino na exigência por um Brasil mais justo e seguro. As vozes ecoadas na capital federal, desde o clamor contra o feminicídio até as críticas à gestão pública e as pautas trabalhistas e internacionais, demonstram a interconexão das lutas das mulheres. A persistência da violência de gênero, evidenciada por dados alarmantes, destaca a urgência de uma ação coordenada e efetiva do Estado, que vá além dos pactos e se materialize em políticas públicas com orçamento adequado e resultados mensuráveis. A memória das militantes históricas e o vigor das novas gerações de ativistas convergem para um futuro onde o “Medo” dê lugar à segurança, e a dupla jornada seja substituída pelo direito ao bem-estar e à plena cidadania.

Perguntas frequentes

Quais foram as principais reivindicações da manifestação do 8 de março em Brasília?
As principais reivindicações incluíram o fim do feminicídio e da violência de gênero, a denúncia da escala de trabalho 6×1, críticas à gestão do Governo do Distrito Federal (GDF) e a falta de recursos para políticas públicas para mulheres, e a condenação do imperialismo e conflitos globais.

Por que a escala 6×1 é uma pauta importante para as mulheres?
A escala 6×1 (seis dias de trabalho para um de descanso) é considerada especialmente difícil para as mulheres devido à sua frequentemente dupla ou tripla jornada, que inclui responsabilidades profissionais e domésticas, impactando negativamente sua saúde mental, lazer e tempo para estudo.

Qual a relação entre o governo do DF e as denúncias feitas na manifestação?
O Governo do Distrito Federal foi criticado pela tentativa de compra do Banco Master pelo BRB, que gerou perdas financeiras e acusações de má gestão de recursos, afetando o orçamento para políticas públicas de proteção e promoção das mulheres no DF.

O que é o Pacto Nacional contra o Feminicídio e qual sua importância?
O Pacto Nacional contra o Feminicídio é uma iniciativa firmada entre Executivo, Legislativo e Judiciário em fevereiro, visando adotar medidas conjuntas para combater a violência de gênero no Brasil. Sua importância reside na expectativa de que gere políticas públicas eficazes e reduza os índices de feminicídio.

Quais os dados mais recentes sobre feminicídio no Brasil?
No período mais recente com dados consolidados, foram registrados 1.568 mulheres vítimas de feminicídio no Brasil, representando um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior, conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Engaje-se ativamente na luta por um futuro sem violência para as mulheres. Apoie coletivos feministas, informe-se sobre as políticas públicas e pressione por mudanças significativas. Cada voz faz a diferença.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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