Pequenos Movimentos, Grande Impacto: Como a Atividade Física Diária Transforma Saúde e Combate Desigualdades

 Pequenos Movimentos, Grande Impacto: Como a Atividade Física Diária Transforma Saúde e Combate Desigualdades

Marcos Santos / USP Imagens

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A busca por uma vida mais saudável e com maior qualidade de vida nem sempre exige grandes revoluções, mas sim a reavaliação de hábitos cotidianos aparentemente insignificantes. Trocar o elevador por escadas, o carro pela bicicleta ou simplesmente caminhar até o transporte público são atitudes que, somadas, podem pavimentar o caminho para uma existência mais ativa e, consequentemente, mais robusta. Essas pequenas escolhas diárias, conforme explicam especialistas, são a base para incorporar a atividade física no dia a dia, um componente crucial para o bem-estar geral.

Atividade Física vs. Exercício Físico: Entendendo as Diferenças Fundamentais

É comum que os termos 'atividade física' e 'exercício físico' sejam usados de forma intercambiável, mas há uma distinção importante que o professor Júlio Serrão, da Escola de Educação Física e Esporte da USP, esclarece. A atividade física engloba qualquer movimento corporal que resulte em gasto energético, desde as tarefas domésticas até um passeio descontraído. O professor ressalta que 'é imensamente superior a não fazer nada', enfatizando o valor de qualquer deslocamento.

Em contrapartida, o exercício físico refere-se a práticas sistematizadas e planejadas, com objetivos específicos. Exemplos incluem treinos de voleibol, sessões de musculação, corridas ou qualquer modalidade esportiva estruturada. Serrão destaca que uma vida verdadeiramente ativa e saudável demanda a integração de ambas as modalidades: estar em constante movimento durante grande parte do dia e, em momentos específicos, desafiar o corpo com exercícios programados. Sentar menos, andar mais, preferir escadas e usar a bicicleta são comportamentos que exemplificam essa filosofia.

O Cenário da Inatividade Física no Brasil: Dados e Desafios

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece que adultos devem dedicar entre 150 a 300 minutos semanais à atividade física de intensidade moderada, ou 75 a 150 minutos de atividade vigorosa. No entanto, o relatório Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel 2006-2024) revela um panorama misto para o Brasil. Em 2024, 33,3% da população adulta ainda apresentava prática insuficiente de atividade física, embora este número represente uma melhoria significativa em relação a 2013, quando 48,7% dos brasileiros se enquadravam nesta categoria.

Apesar do progresso geral, a pesquisa do Vigitel 2006-2024 também aponta para uma disparidade de gênero alarmante: as mulheres praticam menos atividade física do que os homens. Em 2024, 39,7% das mulheres foram classificadas com prática insuficiente, contra 25,7% dos homens, evidenciando um desafio persistente que transcende a mera conscientização sobre a importância do movimento.

Desigualdades Sociais e a Prática de Atividade Física: Uma Análise Interseccional

As desigualdades na prática de atividade física são aprofundadas por fatores sociais e demográficos, conforme detalhado pela pesquisadora Andreia Alexandra Machado Miranda, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Faculdade de Saúde Pública da USP. Ela destaca que as mulheres, em particular, enfrentam barreiras adicionais devido à sobrecarga de múltiplas jornadas, conciliando trabalho, afazeres domésticos e cuidados com a família. Essa realidade limita drasticamente o tempo disponível para atividades de lazer e autocuidado, impactando diretamente seus níveis de atividade física.

A pesquisa de Andreia, intitulada 'Social inequalities in leisure-time and transport-related physical activity through the lens of intersectionality: 10-year longitudinal study in Brazil', publicada no *International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity*, utilizou dados da coorte ISA-Atividade Física e Ambiente, que acompanhou moradores de São Paulo por uma década. O estudo revelou que, embora a atividade física ao ar livre tenha crescido, as desigualdades também se acentuaram. Homens brancos com maior escolaridade mantiveram-se como os mais ativos no tempo livre, enquanto mulheres pertencentes a grupos raciais minoritários (pretas, pardas, amarelas ou indígenas) e com menor nível educacional apresentaram os índices mais baixos.

A Teoria da Interseccionalidade e a Necessidade de Políticas Públicas Específicas

A relevância da pesquisa de Andreia Miranda reside na sua abordagem pela teoria da interseccionalidade. Diferentemente da maioria dos estudos que analisam fatores sociais (sexo, raça, renda, escolaridade) isoladamente, esta investigação buscou compreender como a combinação dessas características molda as desigualdades na prática de atividade física. A pesquisadora questiona se as experiências de uma mulher negra com baixa escolaridade são comparáveis às de um homem branco com ensino superior, concluindo que a sobreposição de diferentes formas de desigualdade pode gerar situações de maior vulnerabilidade.

Os resultados da pesquisa reforçam a urgência de políticas públicas que visem a redução das desigualdades sociais e a ampliação do acesso a ambientes propícios para a prática de atividade física. Isso implica não apenas na criação de infraestrutura, mas também na formulação de estratégias que considerem as complexas realidades e barreiras enfrentadas por diferentes grupos sociais, garantindo que o direito à saúde e ao movimento seja acessível a todos.

Incorporando o Movimento na Rotina: Desafios e Soluções Simples

Introduzir a atividade física na rotina é um desafio comum, conforme evidenciado pelos estudos. No entanto, a compreensão de que o movimento não se restringe a academias ou longas sessões de exercício é crucial. Andreia Miranda enfatiza que pequenas modificações diárias podem gerar um impacto significativo. Caminhar parte do trajeto para o trabalho, preferir as escadas, fazer pausas ativas durante o expediente ou aproveitar espaços públicos próximos de casa são exemplos práticos de como construir uma vida mais ativa.

A chave para superar a inatividade reside em desmistificar a prática de atividade física, integrando-a de forma natural e gradual no cotidiano. Reconhecer o valor de cada passo, cada movimento, e criar um ambiente que estimule essas escolhas são passos fundamentais para promover uma saúde duradoura e uma melhor qualidade de vida para todos os brasileiros, enfrentando tanto os desafios individuais quanto as complexas desigualdades sociais.

Fonte: https://www.agenciasp.sp.gov.br

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