Morte de Victoria Natalini em excursão escolar: Escola condenada, diretores absolvidos

 Morte de Victoria Natalini em excursão escolar: Escola condenada, diretores absolvidos

G1

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A morte de Victoria Natalini, uma adolescente de 17 anos, em setembro de 2015, durante uma excursão escolar em Itatiba, interior de São Paulo, permanece como um intrincado mistério há mais de uma década. O caso, marcado por uma série de inconsistências na investigação policial e reviravoltas judiciais, ganhou um novo capítulo este mês com a condenação da Escola Waldorf Rudolf Steiner pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). A instituição, responsável pela atividade, foi sentenciada a pagar R$ 1 milhão por danos morais ao pai da jovem, João Carlos Natalini. Apesar da decisão civil que reconheceu a responsabilidade da escola, o âmbito criminal apresenta um cenário paradoxal: os gestores e professores inicialmente indiciados por abandono de incapaz foram sumariamente absolvidos. A família de Victoria Natalini continua sua incansável busca por respostas e justiça, questionando a coerência das decisões e a condução das investigações.

A tragédia e o impasse judicial

A excursão da Escola Waldorf Rudolf Steiner, que levaria alunos por uma semana à Fazenda Pereiras, em Itatiba, tornou-se palco de uma tragédia que ainda ecoa. No quinto dia da atividade, em setembro de 2015, por volta das 14h30, Victoria Natalini, então com 17 anos, ausentou-se do grupo para ir ao banheiro e não mais retornou. Cerca de duas horas depois, a ausência prolongada da jovem alertou seus colegas, que prontamente buscaram os professores. As buscas iniciais, envolvendo alunos, funcionários da fazenda e da escola, não obtiveram sucesso, levando à acionamento da Defesa Civil.

O desaparecimento fatídico e a descoberta do corpo

O corpo de Victoria foi localizado por volta das 8h do dia seguinte por um helicóptero da Polícia Militar, em uma área no entorno da fazenda. A cena inicial não apresentava lesões aparentes ou indícios claros de violência, o que complicaria a interpretação dos fatos. Um laudo preliminar do Instituto Médico Legal (IML) de Jundiaí (SP) apontou “causa indeterminada, sugestiva de morte natural”, descartando inicialmente o uso de drogas ou álcool. Essa conclusão, no entanto, seria contestada veementemente pelo pai da adolescente, que suspeitava de uma intervenção externa devido à posição em que o corpo foi encontrado – de bruços e com os braços entrelaçados – e à distância do local em relação ao trajeto esperado para o banheiro.

Falhas na investigação e laudos conflitantes

A desconfiança do pai motivou uma investigação particular, que contratou especialistas para reanalisar o caso. Este novo estudo, contradizendo o laudo oficial inicial, sugeriu que Victoria teria sido vítima de homicídio. Diante das novas evidências, a polícia reabriu o caso, que foi encaminhado ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de São Paulo. Uma nova perícia, realizada pelo Centro de Perícias da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, confirmou a hipótese de intervenção, apontando a morte por “asfixia mecânica, na modalidade de sufocação direta”. Esse tipo de asfixia, frequentemente associado a ações manuais, reforçou a tese de assassinato, indicando que a jovem pode ter sido atacada e sufocada. Mesmo com os novos elementos, as autoridades policiais não conseguiram determinar a autoria do crime, e o caso chegou a ser arquivado em 2023 pelo Ministério Público de São Paulo.

A decisão do STJ: responsabilidade civil da escola

Apesar da morosidade e do arquivamento na esfera criminal, o caso de Victoria Natalini avançou significativamente no âmbito civil. No início deste mês, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou a Escola Waldorf Rudolf Steiner, responsável pela excursão, a indenizar o pai da jovem em R$ 1 milhão por danos morais. A decisão do STJ foi enfática, concluindo que a morte de Victoria não foi um acidente e que houve uma “sucessão de falhas assombrosas” por parte da instituição, que falhou no dever de cuidado e proteção enquanto a adolescente estava sob sua responsabilidade. O pai da jovem, João Carlos Natalini, classificou a decisão como um reconhecimento oficial da responsabilidade da escola nos erros que levaram à perda de sua filha.

A absolvição criminal e o recurso da família

Em um contraste gritante com a decisão do STJ, o processo criminal contra dois professores e três gestores da escola, que haviam sido indiciados em setembro de 2023 por abandono de incapaz, teve um desfecho diferente. Em agosto do ano passado, todos os funcionários da escola foram sumariamente absolvidos, sob o argumento de que não havia elementos suficientes para configurar o crime de abandono de incapaz. A família de Victoria, revoltada com o que considera uma incoerência jurídica, recorreu da decisão, aguardando uma nova análise. Para o pai, é incompreensível que as mesmas pessoas apontadas como responsáveis pelas falhas no dever de proteção pelo STJ sejam absolvidas na esfera criminal.

A persistência de um pai e o retorno das investigações

A luta de João Carlos Natalini, pai de Victoria, tem sido um motor fundamental para manter o caso ativo. Sua persistência em buscar a verdade e a justiça para a filha perdida é inabalável, mesmo diante das falhas e da morosidade do sistema.

A incansável luta do engenheiro João Carlos Natalini

Desde o início, João Carlos Natalini questionou a investigação policial, apontando falhas graves, erros técnicos, demora na realização de perícias cruciais e as sucessivas trocas de equipes, que, segundo ele, prejudicaram significativamente o esclarecimento do caso. Ele é o principal articulador da busca por uma conclusão, tendo contratado peritos particulares e pressionado as autoridades para reabrir e conduzir a investigação com seriedade. Sua indignação reflete a dor de um pai que, apesar de mais de uma década, não tem uma resposta definitiva sobre o que aconteceu com sua filha.

Reabertura do caso e a busca por respostas

Diante da insistência da família e da apresentação de novos elementos, o DHPP reconsiderou o caso no ano passado, reconhecendo que testemunhas importantes não haviam sido ouvidas e que mais apurações eram necessárias. Em comunicado recente, a Polícia Civil de São Paulo informou que o caso voltou a ser tratado como homicídio e que as diligências para apurar a autoria do crime foram retomadas. A pasta reforça que a investigação segue rigorosamente os procedimentos legais e tramita sob segredo de justiça, mas não divulga informações sobre possíveis suspeitos.

O que ainda falta para a conclusão?

Apesar dos avanços e do reconhecimento da responsabilidade da escola na esfera civil, a pergunta fundamental persiste: quem matou Victoria Natalini? O pai da adolescente expressa sua revolta, afirmando que já se sabe que foi homicídio, que não foi morte natural e que houve ação de terceiros. A expectativa agora é que o material coletado seja analisado com a seriedade necessária para que o responsável seja identificado e responda pelo crime. A família clama por uma conclusão que traga um mínimo de paz e justiça após tantos anos de angústia.

Em busca da verdade: dez anos de mistério

O caso da morte de Victoria Natalini é um retrato da complexidade e dos desafios enfrentados na busca por justiça, especialmente quando as investigações se arrastam e as decisões judiciais parecem contraditórias. A condenação civil da escola pelo STJ representa um avanço importante no reconhecimento da falha institucional no dever de cuidado, validando a dor e a luta da família Natalini. No entanto, a absolvição criminal dos diretores e professores gera um sentimento de impunidade e alimenta a perplexidade diante da inconsistência entre as esferas judicial. O pai, João Carlos Natalini, emerge como um símbolo de persistência, cuja luta incansável mantém viva a esperança de que, após mais de uma década, a verdade sobre a morte de sua filha seja finalmente revelada e os responsáveis sejam devidamente penalizados. A reabertura da investigação criminal é um passo crucial, mas a sociedade aguarda respostas definitivas para que este mistério não se transforme em mais um caso sem solução.

FAQ

Quem era Victoria Natalini?
Victoria Mafra Natalini era uma estudante de 17 anos que desapareceu e foi encontrada morta em setembro de 2015, durante uma excursão escolar promovida pela Escola Waldorf Rudolf Steiner, em uma fazenda em Itatiba, interior de São Paulo.

Qual a principal inconsistência judicial do caso?
A principal inconsistência reside na contradição entre as esferas civil e criminal. Enquanto o Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou a Escola Waldorf Rudolf Steiner por danos morais, reconhecendo falhas no dever de cuidado da instituição que culminaram na morte da jovem, os professores e gestores da mesma escola, indiciados criminalmente por abandono de incapaz, foram sumariamente absolvidos.

A investigação criminal foi concluída?
Não. A investigação criminal teve diversas reviravoltas, incluindo um primeiro laudo que apontava causa indeterminada e um arquivamento em 2023. No entanto, após a insistência da família e a apresentação de novos elementos, o caso foi reaberto no ano passado pelo DHPP e voltou a ser tratado como homicídio, com diligências em andamento para apurar a autoria do crime.

Qual a posição da escola após a condenação?
A Escola Waldorf Rudolf Steiner manifestou que a morte de Victoria “permanece como uma dor profunda” para a comunidade escolar, afirmando que sempre colaborou com as autoridades. A instituição reiterou seu compromisso com a busca da verdade e o respeito à memória de Victoria, e alegou ter seguido todos os protocolos de segurança aplicáveis à atividade.

Se você ou alguém que conhece foi impactado por um caso de negligência em excursão escolar, saiba que há caminhos legais para buscar justiça. Busque orientação profissional para entender seus direitos.

Fonte: https://g1.globo.com

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