Estudo: mulheres representam 90% dos cuidadores informais no país

 Estudo: mulheres representam 90% dos cuidadores informais no país

© Frame/TV Brasil

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A realidade do cuidado informal no Brasil revela um panorama desolador, com um estudo recente apontando que 90% dos cuidadores informais são mulheres. Esta pesquisa, desenvolvida por especialistas, lança luz sobre um trabalho essencial, mas frequentemente invisível e não remunerado, que recai esmagadoramente sobre os ombros femininos. Anualmente, essas mulheres dedicam mais de mil horas a tarefas de cuidado com filhos, maridos ou pais, sem qualquer compensação financeira ou reconhecimento social. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022 já indicavam que elas dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais que os homens em tarefas domésticas e de cuidado. Esse cenário não apenas perpetua desigualdades de gênero, mas também impõe graves consequências à saúde, à vida profissional e aos estudos dessas cuidadoras. O debate sobre a valorização e a partilha equitativa do cuidado tornou-se, portanto, urgente e indispensável para a construção de uma sociedade mais justa.

A realidade da sobrecarga feminina

A dedicação das mulheres ao cuidado informal é um fenômeno com profundas raízes culturais no Brasil, traduzindo-se em uma sobrecarga que afeta diversas esferas da vida. A invisibilidade desse trabalho não remunerado, que mantém “a engrenagem social funcionando”, tem um custo humano elevado.

O peso das horas invisíveis

Conforme os levantamentos, as mulheres dedicam uma média de 9,6 horas semanais a mais que os homens em afazeres domésticos e cuidados, somando mais de mil horas anuais dedicadas a familiares – sejam filhos, cônjuges ou pais – sem qualquer remuneração ou reconhecimento social. Esta dedicação exaustiva, que muitas vezes se estende por 24 horas ao dia, impacta diretamente a trajetória educacional e profissional das mulheres. Especialistas destacam que é comum que mulheres abandonem os estudos ou o mercado de trabalho formal para assumir integralmente as responsabilidades de cuidado, um ciclo de trabalho que “não tem fim”. Essa internalização da responsabilidade do cuidado como uma “obrigação” feminina é um dos pilares dessa estrutura cultural, fazendo com que muitas mulheres sequer questionem essa distribuição desigual.

O perfil das cuidadoras

Uma pesquisa detalhada, que incluiu entrevistas com mulheres de áreas urbanas e rurais, responsáveis pelo cuidado de idosos, doentes ou pessoas com deficiência, revelou um perfil alarmante. Descobriu-se que a maioria dessas cuidadoras são filhas (68%), esposas (21%), netas ou irmãs (5%). Em termos de idade, 43% estão entre 41 e 60 anos, 37% têm mais de 60 anos, e 22% são jovens adultas entre 21 e 30 anos. Apesar de serem mulheres escolarizadas – com 58% tendo ensino fundamental, 30% ensino superior e 11% ensino médio – a dedicação ao cuidado comprometeu suas carreiras. Uma parcela significativa (61%) afirmou ter parado de trabalhar para se dedicar integralmente ao familiar, uma realidade que atinge todas as agricultoras entrevistadas.

Os relatos apontam para um quadro de cansaço extremo, solidão e desamparo. Essas mulheres não recebem bonificação, não têm acesso à previdência social por esse trabalho, e o apoio familiar nem sempre é presente. A “ética da responsabilidade” internalizada as leva a priorizar o cuidado alheio em detrimento do próprio bem-estar. Elas se descrevem como “sozinhas, cansadas, exaustas, depressivas”, sem tempo para si, dedicando sua energia “primeiro para os outros, depois para elas”.

Demandas e perspectivas para o reconhecimento

A complexidade do trabalho de cuidado exige não apenas reconhecimento social, mas também políticas públicas que apoiem e compensem as mulheres que o exercem, visando uma distribuição mais equitativa dessa responsabilidade.

Políticas públicas e a lacuna brasileira

Em contraste com a realidade brasileira, diversos países já implementaram políticas de apoio aos cuidadores. Na Finlândia e na Dinamarca, por exemplo, os serviços de assistência doméstica são custeados pelas municipalidades. França, Áustria, Alemanha e Holanda também oferecem financiamento para alguns serviços de apoio. O Reino Unido e a Irlanda compensam a perda de renda durante o período em que a pessoa presta assistência a um familiar, enquanto a Espanha possui uma lei que prevê compensação econômica para cuidadores familiares.

No Brasil, apesar da recente instituição da Política Nacional do Cuidado no final de 2024, a implementação ainda é considerada “tímida” por especialistas. Há uma forte defesa pela necessidade de ir além do mero pagamento, buscando o reconhecimento social do trabalho de cuidado e uma compensação financeira que alivie a sobrecarga. A proposta ideal seria que esse trabalho fosse considerado para fins de aposentadoria, espelhando modelos como o do Uruguai, onde a legislação permite que mulheres se aposentem mais cedo com base no número de filhos. O cuidado, em sua essência, não se restringe a tarefas básicas, mas envolve uma profunda relação afetiva e exige tempo e dedicação integrais.

A “geração sanduíche” e a busca por equidade

A sobrecarga de cuidado manifesta-se de forma particularmente aguda na chamada “Geração Sanduíche”, que compreende mulheres que precisam equilibrar o trabalho formal, a gestão da casa e o cuidado com filhos, maridos e idosos simultaneamente. Enfrentando jornadas duplas, com quase cinco horas dedicadas a cada uma, essas mulheres vivem em um estado de exaustão contínua. Para mudar esse cenário, o estudo enfatiza a importância de uma mudança cultural profunda, começando pela educação. É crucial que meninos e meninas sejam educados desde cedo sobre a necessidade de dividir equitativamente as tarefas domésticas e as responsabilidades de cuidado. A sociedade, como um todo, precisa se responsabilizar para que o peso do cuidado não recaia exclusivamente sobre as mulheres. Apesar dos desafios, observa-se uma “luzinha no fim do túnel” em decisões judiciais recentes no Brasil. Em alguns casos de separação e divórcio, juízes têm concedido que ex-maridos compensem financeiramente o tempo que suas ex-mulheres dedicaram ou dedicarão ao cuidado dos filhos, um passo inicial rumo ao reconhecimento financeiro desse trabalho essencial.

Conclusão

A profunda desigualdade na distribuição do trabalho de cuidado informal no Brasil, onde as mulheres arcam com uma carga desproporcional e muitas vezes invisível, é uma questão social e econômica premente. O impacto dessa sobrecarga se estende desde a exaustão física e mental até a interrupção de carreiras e a ausência de segurança financeira para o futuro. Embora o trabalho de cuidado seja fundamental para o funcionamento da sociedade, sua naturalização como responsabilidade feminina impede seu devido reconhecimento e valorização. A experiência de países que já implementam políticas de apoio aos cuidadores oferece um caminho para o Brasil. É imperativo que a recém-instituída Política Nacional do Cuidado seja ampliada e efetivada, buscando não apenas a compensação financeira, mas também uma profunda transformação cultural que promova a partilha equitativa das responsabilidades de cuidado entre todos os membros da família e da sociedade. Somente assim será possível construir um futuro onde o cuidado seja visto como um valor coletivo e não como um fardo individual feminino.

FAQ

O que é o trabalho de cuidado informal?
O trabalho de cuidado informal refere-se à assistência e apoio prestados a familiares (crianças, idosos, doentes ou pessoas com deficiência) sem remuneração e fora de uma estrutura formal de emprego. Inclui tarefas como alimentação, higiene, administração de medicamentos, acompanhamento médico e suporte emocional.

Por que as mulheres são majoritariamente as cuidadoras informais no Brasil?
A predominância feminina no cuidado informal no Brasil é atribuída a fatores culturais e sociais profundamente enraizados, que historicamente associam o papel de cuidadora à mulher. Essa internalização da responsabilidade faz com que muitas mulheres se sintam obrigadas a assumir essas tarefas, muitas vezes sacrificando suas próprias aspirações profissionais e pessoais.

Quais são os principais impactos da sobrecarga de cuidado nas mulheres?
Os impactos são múltiplos e severos, incluindo exaustão física e mental, solidão, depressão, interrupção da educação e da carreira profissional, perda de renda, ausência de contribuições para a previdência social e falta de tempo para o autocuidado e lazer. A sobrecarga afeta drasticamente a qualidade de vida e o bem-estar dessas mulheres.

Existem políticas públicas no Brasil para apoiar os cuidadores informais?
Sim, a Política Nacional do Cuidado foi instituída no Brasil no final de 2024. No entanto, ela ainda está em fase de implementação e é considerada “tímida” por especialistas, em comparação com os modelos de apoio e compensação financeira existentes em diversos outros países.

Como a sociedade pode promover uma distribuição mais equitativa do trabalho de cuidado?
Promover a equidade exige uma mudança cultural profunda, começando pela educação de meninos e meninas para a divisão igualitária das tarefas domésticas e de cuidado. Além disso, são necessárias políticas públicas robustas que reconheçam, valorizem e compensem financeiramente o trabalho de cuidado, bem como que incentivem a participação de todos os gêneros nessa responsabilidade essencial.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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