Adolescente supera câncer e AVC com recuperação considerada milagrosa

 Adolescente supera câncer e AVC com recuperação considerada milagrosa

G1

Compatilhe essa matéria

A trajetória de Raílla Sousa Coelho, uma jovem piauiense que aos 14 anos se viu diante de um cenário médico desolador, tornou-se um potente testemunho de superação e fé. Em fevereiro de 2025, os profissionais de saúde aconselharam a mãe de Raílla a se preparar para o pior, pois a adolescente, após enfrentar dois tipos de câncer e diversas complicações, havia sofrido um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. Seu estado era gravíssimo: Raílla não respondia a estímulos, apresentava frequência cardíaca muito baixa e pupilas fixas. A medicina, segundo os médicos, havia esgotado suas possibilidades. Contariando todas as expectativas, a jovem demonstrou uma recuperação milagrosa, surpreendendo até mesmo a equipe médica que a acompanhava em Barretos, São Paulo. Sua história é um farol de esperança e resiliência, provando que a vida pode desafiar os prognósticos mais pessimistas.

A batalha inicial contra o câncer

O primeiro diagnóstico e os anos de tratamento

A jornada de Raílla contra a doença começou cedo, em 2019, quando ela tinha apenas 8 anos. O diagnóstico foi de sarcoma de Ewing, um tipo raro e agressivo de câncer que afeta ossos e tecidos moles. A mãe, Marluce Isabel Coelho, lembra a angústia daquele período. “Se eu falar que a gente não teve medo, estou omitindo. Porque, por mais que a gente tenha fé, a gente acredite, o medo bate. Eu acreditava que daria certo, mas cheguei a questionar Deus: ‘Por que isso? Por que com a minha filha?'”, relata Marluce.

A primeira intervenção foi uma cirurgia para remover o tumor. Duas semanas depois, Raílla iniciou um intenso ciclo de quimioterapia. O ano de 2019 foi marcado por constantes idas e vindas ao hospital, que se tornou praticamente a segunda casa da família. A imunidade de Raílla estava sempre muito baixa, resultando em febres frequentes e internações. A radioterapia seguiu-se à quimioterapia, e a pandemia de COVID-19, que forçou grande parte da população ao isolamento, não alterou significativamente a rotina de Raílla e sua mãe, que já viviam em regime de isolamento entre casa e hospital para proteger a saúde da menina. Originária de Paulistana, no Piauí, Raílla recebeu tratamentos em Teresina, Piauí, e Petrolina, Pernambuco, antes de ser encaminhada para o Hospital de Amor Infantojuvenil, em Barretos, São Paulo, um centro de referência em oncologia pediátrica. Durante todo esse tempo, o pai, João de Sousa Coelho, e a irmã mais velha, Alessandra de Sousa Coelho, acompanhavam de perto, embora a maior parte da dedicação noturna no hospital recaísse sobre Marluce.

O agravamento do quadro e novos desafios

A leucemia secundária e o transplante de medula

Em 2023, a família enfrentou um novo e alarmante golpe: Raílla foi diagnosticada com leucemia mieloide secundária, uma complicação grave decorrente do tratamento anterior para o sarcoma de Ewing. Este novo diagnóstico exigia um transplante de medula óssea, uma etapa que intensificaria ainda mais a luta pela vida da adolescente. Para viabilizar o tratamento especializado, Marluce e Raílla se mudaram para Barretos, uma cidade distante de sua terra natal, onde a esperança de um novo começo se misturava com a apreensão do desconhecido.

A recorrência e o segundo transplante

O primeiro transplante de medula foi realizado em 2024, tendo a irmã Alessandra, então com 23 anos, como doadora compatível. No entanto, um ano exato após o procedimento, a doença recidivou. A oncopediatra Neysi Costa Villela, do Hospital de Amor Infantojuvenil de Barretos, confirmou a notícia devastadora. “Nessa consulta de um ano, a gente viu que tinha voltado a doença. Um ano certinho do primeiro transplante, ela teve a leucemia de novo”, explicou a médica.

Diante da urgência de um segundo transplante, oito membros da família de Raílla realizaram testes de compatibilidade. Cinco deles apresentaram resultados positivos. O doador escolhido foi um primo de 18 anos, o mais jovem entre os compatíveis. Menos de um mês após este segundo e complexo procedimento, Raílla começou a apresentar múltiplas complicações, indicando um quadro de saúde extremamente delicado.

O momento mais crítico e o AVC

Complicações pós-transplante e o AVC hemorrágico

A oncopediatra Neysi Costa Villela ressalta que “todo segundo transplante já é complicado por si só, porque a criança já está mais debilitada. Mesmo tendo um ano do primeiro, o segundo transplante tem mais riscos de ter complicação só por ser segundo”. Raílla, de fato, experimentou quase todas as intercorrências possíveis desde o início do segundo transplante. A complicação mais grave e que levou a equipe médica a acreditar que a perderiam foi um AVC hemorrágico, ocorrido apenas 18 dias após a segunda cirurgia.

A adolescente desenvolveu encefalopatia posterior reversível (PRES), uma alteração cerebral que pode ser desencadeada por medicações utilizadas no transplante, acompanhada de sangramento. Esta combinação de fatores indicava um prognóstico extremamente sombrio. “A PRES é uma complicação comum no transplante, mas o que foi incomum na Raílla é que, junto com essa PRES, ela teve um sangramento e isso é raro. Ela sangrou em um momento em que não tinha plaquetas, porque a ‘medulinha’ dela ainda não estava funcionando, não tinha pego”, detalhou a médica.

Raílla entrou em coma. Seu estado de saúde deteriorava rapidamente. Devido à baixa contagem de plaquetas, uma nova cirurgia era inviável. Os médicos, cientes das limitações da medicina, comunicaram à família que nada mais poderia ser feito. “Quando chegava alguém falando ‘os médicos querem conversar com você’ eu já não queria mais ouvir, porque, para a medicina, não tinha mais nada. Os médicos falavam isso para a gente. Tudo que a medicina podia fazer, já tinha feito. Não tinha mais nada que estivesse ao alcance deles. Falaram para a gente esperar ela descansar, porque não tinha nada a fazer”, relembrou Marluce com emoção. Diante da iminência da perda, a mãe fez uma promessa no ouvido da filha: se ela se recuperasse, Marluce faria o impossível para realizar a tão sonhada festa de 15 anos de Raílla.

O milagre da recuperação

A chegada da irmã e a virada no quadro

No pico da crise, os médicos, sem esperanças, pediram que a irmã mais velha, Alessandra, fosse a Barretos para se despedir. O laço entre as irmãs, no entanto, transcendeu a explicação médica. No momento exato em que Alessandra chegou à cidade, os sinais vitais de Raílla começaram a apresentar uma melhora surpreendente. “Acredito que Deus levou ela até lá e com um propósito. Enquanto ela não chegava, liguei várias vezes ‘você está onde, já tá no Uber?’ Meu medo era que Raílla partisse e ela não chegasse”, conta Marluce. Alessandra sempre manteve a fé inabalável de que a irmã se recuperaria. “Ela sempre falava que nós não íamos desistir, que Deus ia dar força e foi uma coisa extraordinária. Não tem como explicar. A hora que ela chegou, o batimento da Raílla começou a melhorar, depois ela foi recuperando pouco a pouco nos dias seguintes”, acrescentou a mãe.

A surpreendente ausência de sequelas e novos sonhos

A recuperação de Raílla desafiou todas as expectativas médicas, a ponto de a própria oncopediatra Neysi Costa Villela declarar: “A gente, realmente, não fez nada. Quem fez foi só Deus. Só ficamos olhando e foi por isso que chamou a nossa atenção”. Uma das maiores preocupações era a possibilidade de sequelas neurológicas devido ao tempo em coma e à gravidade do AVC. Contudo, para a surpresa de todos, Raílla não apresenta qualquer sequela e já conseguiu interromper o uso de algumas medicações.

A jovem completou 15 anos em novembro e teve a festa de aniversário exatamente como sempre sonhou, um testemunho da promessa cumprida por sua mãe. Apesar de ter poucas lembranças do período mais crítico, Raílla está consciente da gravidade de sua batalha e já escolheu a profissão que deseja seguir: ela quer ser médica. Sua experiência a inspira a oferecer esperança a outros. “Quando passar uma pessoa comigo e não tiver mais jeito, falo que tem sim, que Deus está acima de tudo. E eu vou contar a história que sou a prova disso”, afirma Raílla. Em um depoimento de gratidão, ela expressa: “Eu estou bem, estou feliz. Tenho muita gratidão a todos que cuidaram de mim e estiveram do meu lado. Sou muito grata a Deus também”. A mãe, Marluce, acredita que a história da filha tem um propósito maior: “Minha filha se recuperou, mas não é porque somos melhor do que ninguém. Tratamento oncológico não é fácil e o que Deus fez, tenho certeza que é para impactar outras vidas, que é para Deus dar forças a outras pessoas através do que Ele fez na vida de Raílla”.

Uma história de fé e resiliência que inspira

A jornada de Raílla é um exemplo vívido da capacidade humana de superar adversidades extremas e da força da fé e do amor familiar. De um diagnóstico precoce de câncer a uma leucemia secundária e um AVC hemorrágico que a deixou à beira da morte, a adolescente desafiou prognósticos e a lógica médica, emergindo sem sequelas e com uma nova perspectiva de vida. Sua recuperação, descrita como milagrosa pelos próprios médicos, não apenas reacendeu a esperança em sua família, mas também serve como um farol para inúmeros pacientes e suas famílias que enfrentam batalhas semelhantes. A determinação de Raílla em se tornar médica para oferecer esperança a outros é um testemunho da profundidade de sua experiência e de seu desejo de transformar sua dor em propósito. Sua história ressoa como um lembrete poderoso de que, mesmo nos momentos mais sombrios, a esperança pode surgir, e a vida pode se manifestar de formas extraordinárias.

Perguntas frequentes (FAQ)

Quais foram os diagnósticos de câncer de Raílla?
Raílla foi diagnosticada primeiramente com sarcoma de Ewing aos 8 anos, em 2019. Posteriormente, em 2023, desenvolveu leucemia mieloide secundária ao tratamento oncológico anterior.

Qual foi o momento mais crítico na saúde de Raílla?
O período mais crítico ocorreu em fevereiro de 2025, após o segundo transplante de medula, quando Raílla sofreu um AVC hemorrágico e entrou em coma, com os médicos indicando que não havia mais recursos médicos para sua recuperação.

Raílla teve alguma sequela após a recuperação?
Não, de forma surpreendente, Raílla não apresentou nenhuma sequela neurológica ou física após sua recuperação do AVC e do coma, contrariando as expectativas médicas.

Qual é o sonho de Raílla para o futuro?
Inspirada por sua própria experiência, Raílla deseja se tornar médica para poder ajudar e inspirar outros pacientes que enfrentam doenças graves, compartilhando sua história como prova de esperança.

Compartilhe esta inspiradora história de superação e esperança para que mais pessoas conheçam a força da fé e da resiliência humana.

Fonte: https://g1.globo.com

Relacionados