Feminicídio em Araraquara: filha relata relação abusiva e pressão por dinheiro

 Feminicídio em Araraquara: filha relata relação abusiva e pressão por dinheiro

G1

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A cidade de Araraquara, no interior de São Paulo, foi palco de um brutal feminicídio na última quinta-feira, 12 de outubro, que chocou a comunidade e expôs a face mais cruel da violência doméstica. Denuzia Pereira de Castro, de 52 anos, foi covardemente assassinada a facadas por seu companheiro, Juliano Donizete Micelli, de 42 anos, enquanto trabalhava em um ponto de descarte de materiais. O crime, classificado como feminicídio, trouxe à tona os detalhes de um relacionamento marcado por conflitos e incessantes demandas financeiras. A filha da vítima, profundamente abalada, compartilhou revelações angustiantes sobre o padrão de abuso que sua mãe sofria, descrevendo como ele a “destruiu aos poucos” e a pressionava constantemente por dinheiro. O caso levanta discussões importantes sobre a segurança das mulheres e a urgência de combater a violência de gênero.

A tragédia no bolsão de descarte: feminicídio em Araraquara

O crime ocorreu em um bolsão de descarte de materiais, conhecido como Ponto de Entrega Voluntária (PEV), localizado na Avenida Jurandir Rios Garçoni, em Araraquara. Denuzia Pereira de Castro, que prestava serviço para a empresa Ecoares, concessionária responsável pelos serviços de limpeza pública da cidade, estava em seu turno de trabalho, separando materiais recicláveis perto de uma caçamba, quando foi surpreendida pelo ataque violento de seu companheiro. A brutalidade do ato deixou a comunidade local consternada, revelando a vulnerabilidade a que muitas mulheres estão expostas dentro de seus próprios relacionamentos.

O ataque brutal e a prisão do agressor

Segundo relatos policiais, após esfaquear Denuzia, o suspeito, Juliano Donizete Micelli, teria jogado o corpo da vítima na caçamba de recicláveis, em uma tentativa fria de ocultar o crime. Pouco depois, ele empreendeu fuga, adentrando uma área de mata próxima. A Polícia Militar, alertada sobre o ocorrido, agiu rapidamente e conseguiu localizar Juliano saindo da mata, correndo em direção à residência onde morava, ainda portando a faca utilizada no assassinato.

A abordagem policial foi marcada pela resistência do agressor. Juliano avançou contra os agentes, que precisaram utilizar força para contê-lo. Foram efetuados três disparos com arma de borracha e um com arma de choque para que ele pudesse ser finalmente dominado e preso em flagrante. A Polícia Científica foi imediatamente acionada para realizar a perícia detalhada no local do crime, coletando evidências que serão cruciais para a investigação. Juliano foi conduzido à Delegacia de Defesa da Mulher de Araraquara, onde o caso foi registrado como feminicídio. Ele aguarda audiência de custódia para que a justiça determine os próximos passos de sua prisão.

O retrato de um relacionamento abusivo: o depoimento da filha

Em meio à dor e ao choque pela perda trágica da mãe, Edilma Pereira da Silva Mathias, filha de Denuzia, revelou detalhes do relacionamento conturbado entre a mãe e Juliano. Em depoimento emocionado, a manicure descreveu um ciclo de abuso que, segundo ela, foi se aprofundando com o tempo. As palavras de Edilma pintam um quadro sombrio de controle e desvalorização que Denuzia vivia diariamente, marcando um padrão de violência que antecedeu o desfecho fatal.

Pressão financeira e o desespero de Denuzia

Edilma relatou que sua mãe expressava frequentemente o sofrimento causado pela pressão exercida por Juliano. “Ele foi destruindo ela aos poucos, foi tirando tudo que ela tinha. Minha mãe não era mais a mesma pessoa”, disse a filha, evidenciando o desgaste emocional e psicológico que a vítima vinha enfrentando. Horas antes de ser assassinada, Denuzia havia visitado a casa da filha, visivelmente preocupada com questões financeiras. Ela buscava informações sobre a queda do benefício do Bolsa Família, que utilizaria para pagar o INSS, enquanto o companheiro a pressionava incessantemente por dinheiro. “Ela foi lá em casa e falou: ‘Filha, vê se caiu a Bolsa Família, que eu tenho que pagar meu INSS e o outro tá enchendo o saco que quer dinheiro.’ Eu olhei e tinha caído o dinheiro. Ela ia sair mais cedo para buscar, mas não deu tempo. Ele queria dinheiro”, afirmou Edilma, revelando a dimensão do controle financeiro e da angústia que Denuzia vivenciava momentos antes de sua morte. Essa pressão econômica, somada às brigas constantes, desenha o cenário de um relacionamento profundamente tóxico.

Consequências legais e o combate à violência de gênero

O assassinato de Denuzia Pereira de Castro, tipificado como feminicídio, destaca a gravidade da violência de gênero no Brasil. A legislação brasileira, ao caracterizar o feminicídio como um agravante do homicídio, busca não apenas punir o agressor, mas também reconhecer a motivação de gênero por trás desses crimes, que são cometidos contra a mulher em razão da condição de sexo feminino ou em contexto de violência doméstica e familiar. A prisão em flagrante de Juliano Donizete Micelli é o primeiro passo de um processo legal que deverá culminar em julgamento e, espera-se, em uma pena rigorosa, servindo como um alerta para a urgência de combater esse tipo de crime. A sociedade, junto às autoridades, precisa redobrar os esforços na prevenção, denúncia e apoio às vítimas, para que tragédias como a de Denuzia não se repitam.

Perguntas frequentes

O que caracteriza o crime de feminicídio?
O feminicídio é o assassinato de uma mulher cometido por razões da condição de sexo feminino. Isso ocorre quando o crime envolve violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher. É uma qualificadora do crime de homicídio no Código Penal Brasileiro, com penas mais severas.

Quais são os sinais de um relacionamento abusivo?
Os sinais de um relacionamento abusivo podem ser sutis no início, mas evoluem. Incluem controle excessivo, ciúmes possessivo, críticas constantes, isolamento social, ameaças, humilhações, agressões verbais ou físicas, chantagem emocional e controle financeiro.

Onde vítimas de violência doméstica podem buscar ajuda?
Vítimas de violência doméstica podem buscar ajuda ligando para o número 180 (Central de Atendimento à Mulher), procurando uma Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) ou um Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) em sua cidade. Há também diversas ONGs e instituições que oferecem apoio psicológico e jurídico.

Se você ou alguém que você conhece está vivendo uma situação de violência doméstica, não hesite em buscar ajuda. Ligue 180 ou procure a Delegacia de Defesa da Mulher mais próxima. Sua vida importa.

Fonte: https://g1.globo.com

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