Lula busca cooperação sul-americana contra crime, violência e guerra

 Lula busca cooperação sul-americana contra crime, violência e guerra

© Ricardo Stuckert/PR

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Em um discurso marcante durante a Cúpula do Mercosul, realizada em Foz do Iguaçu, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizou a urgência de uma robusta cooperação sul-americana para enfrentar desafios multifacetados que ameaçam a estabilidade e a segurança da região. As prioridades delineadas pelo chefe de Estado brasileiro abrangeram desde a intensificação do combate ao crime organizado transnacional, sem distinção de alinhamentos políticos entre os países, até a criação de um pacto regional contra a violência de gênero. Além disso, Lula teceu sérios alertas sobre a presença militar extrarregional e a importância da defesa da democracia, reiterando a necessidade de uma postura unificada para preservar a paz e a soberania do continente. A Cúpula serviu como palco para o debate de questões cruciais que moldarão o futuro da América do Sul.

A frente unida contra o crime organizado transnacional
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sublinhou a necessidade de o Mercosul, bloco que congrega Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai, transformar o enfrentamento ao crime organizado em uma de suas mais elevadas prioridades estratégicas. A abordagem defendida transcende as ideologias governamentais, focando na premissa de que a segurança pública é um direito fundamental do cidadão e um dever intransferível do Estado. Lula alertou que o enfraquecimento das instituições democráticas cria um terreno fértil para a proliferação de atividades ilícitas, que se ramificam por todo o continente, impactando economias e a vida social das populações.

O Brasil tem sido proativo na articulação de mecanismos para essa cooperação. Há mais de uma década, foi estabelecida uma instância de autoridades especializadas em políticas antidrogas, um marco inicial para as ações conjuntas de repressão e prevenção. Mais recentemente, foi formalizado um acordo fundamental para o combate ao tráfico de pessoas, um dos crimes mais hediondos e lucrativos para as redes criminosas, que explora a vulnerabilidade humana. Adicionalmente, uma comissão foi criada com o objetivo de implementar uma estratégia comum e abrangente contra o crime organizado transnacional. Para estrangular as fontes de financiamento dessas atividades, um grupo de trabalho especializado em recuperação de ativos foi instituído, visando descapitalizar as organizações criminosas e minar sua capacidade operacional.

Estratégias conjuntas e o desafio digital
No que concerne ao avanço tecnológico, Lula defendeu a imperativa regulação dos ambientes digitais como uma ferramenta essencial no combate ao crime. Ele ressaltou que a internet não pode ser um “território sem lei”, e que medidas já foram adotadas para proteger crianças, adolescentes e dados pessoais. Contudo, o presidente enfatizou que essa batalha se estende para além das fronteiras do Mercosul. Atualmente, inexiste uma instância sul-americana de abrangência para debater e coordenar esforços de segurança de forma integrada. Diante dessa lacuna, e em consulta com o Uruguai, o Brasil pretende liderar a convocação de uma reunião de ministros da Justiça e de Segurança Pública do Consenso de Brasília. O objetivo é fortalecer e expandir a cooperação regional no enfrentamento às complexas redes do crime organizado, buscando alinhar estratégias, intensificar a troca de informações entre os países e desenvolver soluções conjuntas para os desafios impostos pelas novas tecnologias.

Combate à violência de gênero: um imperativo regional
A pauta da segurança pública na Cúpula do Mercosul também dedicou atenção especial à alarmante questão da violência contra as mulheres, um desafio que não se restringe ao Brasil, mas aflige severamente toda a América Latina. O presidente Lula destacou dados preocupantes da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), que revelam a triste realidade de que a região ostenta o recorde de ser a mais letal do mundo para as mulheres, com uma média chocante de onze assassinatos diários. Essa estatística sublinha a urgência de políticas públicas eficazes e de uma mobilização social e governamental robusta para reverter esse cenário.

Proteção transfronteiriça para mulheres na América Latina
Diante desse cenário grave, o governo brasileiro já tomou medidas concretas para ampliar a proteção às vítimas. Foi encaminhado ao Congresso Nacional um acordo para ratificação que permitirá que mulheres beneficiadas por medidas protetivas em um país membro do bloco tenham essa mesma proteção estendida aos demais países. Esta iniciativa visa coibir a fuga de agressores e garantir a segurança das vítimas, mesmo que se desloquem entre as fronteiras, oferecendo uma camada adicional de amparo legal. Adicionalmente, o presidente Lula lançou um apelo ao Paraguai, que assume a presidência pro tempore do Mercosul, propondo a criação de um “grande pacto do Mercosul pelo fim do feminicídio e da violência contra as mulheres”. Esta proposta se alinha aos discursos anteriores do presidente, que tem defendido um esforço nacional contínuo no Brasil para combater a violência de gênero, buscando agora replicar e expandir essa mobilização em nível regional, transformando-a em uma causa prioritária do bloco.

Alerta para a paz regional e a defesa da democracia
Um dos pontos mais sensíveis e urgentes do discurso de Lula na Cúpula do Mercosul foi o claro alerta sobre o risco iminente de um conflito militar na América do Sul. O presidente expressou profunda preocupação com a crescente ameaça de uma intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que, sob o pretexto de combater o narcotráfico, pode culminar na tentativa de derrubar o regime do presidente Nicolás Maduro. A presença de tropas norte-americanas cercando o Mar do Caribe na fronteira venezuelana foi um ponto de grande apreensão para o líder brasileiro, que vê nisso uma escalada de tensões.

Soberania e o perigo de intervenções externas
Lula reiterou que, passadas mais de quatro décadas desde o conflito das Ilhas Malvinas, o continente sul-americano volta a ser assombrado pela presença militar de uma potência extrarregional, um fato que testa os limites do direito internacional e da soberania das nações. Ele advertiu categoricamente que uma intervenção armada na Venezuela representaria uma catástrofe humanitária de proporções incalculáveis para todo o hemisfério, além de estabelecer um precedente perigoso para a ordem mundial, violando princípios fundamentais de não intervenção. O presidente defendeu veementemente a adoção de uma doutrina de paz para a América do Sul, baseada no respeito à autodeterminação dos povos e na solução pacífica de controvérsias, como pilares inegociáveis para a estabilidade regional.

A resiliência das instituições democráticas brasileiras
Em um tom de reafirmação da robustez democrática, Lula fez questão de exaltar a capacidade das instituições brasileiras de superar e debelar a grave tentativa de golpe de Estado ocorrida há quase três anos. Referindo-se aos eventos de 8 de janeiro de 2023, o presidente declarou que a democracia brasileira não apenas sobreviveu ao mais duro atentado sofrido desde o fim da ditadura, mas também demonstrou sua força e resiliência. Os responsáveis pela tentativa de subversão da ordem democrática foram investigados, julgados e condenados em conformidade com o devido processo legal, marcando, segundo Lula, a primeira vez na história do Brasil que o país “acertou as contas com o passado”, consolidando a responsabilização e a primazia do estado de direito como fundamentos inabaláveis.

Perguntas frequentes (FAQ)

Qual a principal proposta de Lula para o combate ao crime organizado?
O presidente Lula propôs intensificar a cooperação sul-americana, com a criação de uma instância de abrangência regional e a convocação de uma reunião de ministros da Justiça e Segurança Pública para fortalecer estratégias conjuntas contra o crime transnacional, incluindo a regulação de ambientes digitais.

Como o Mercosul pretende enfrentar a violência contra as mulheres?
Será implementado um acordo para que medidas protetivas de um país do bloco sejam válidas em outros membros, e Lula propôs ao Paraguai a criação de um “grande pacto do Mercosul” para erradicar o feminicídio e a violência de gênero.

Qual o alerta principal feito por Lula sobre a segurança regional?
Lula alertou sobre o risco de um conflito militar na América do Sul, especialmente na Venezuela, devido à presença militar extrarregional. Ele defendeu uma doutrina de paz e o respeito à soberania, condenando intervenções que poderiam gerar uma catástrofe humanitária.

Para se aprofundar nos debates e nos desdobramentos das políticas regionais abordadas na Cúpula do Mercosul, acompanhe as análises e atualizações sobre o cenário político e de segurança na América do Sul.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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