Negociação entre Irã e EUA é uma piada global, afirma embaixador

 Negociação entre Irã e EUA é uma piada global, afirma embaixador

© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Compatilhe essa matéria

A percepção de que as tentativas de negociação entre Irã e EUA são meramente uma ilusão e até mesmo um “motivo de piada mundial” foi destacada por uma alta figura diplomática iraniana no Brasil. Segundo o embaixador, a população iraniana tem exercido forte pressão sobre o governo em Teerã para que não ceda às promessas de diálogo feitas pelos Estados Unidos. Essa dinâmica reflete um cenário de desconfiança profunda, onde as declarações do presidente americano, Donald Trump, sobre a existência de negociações com um “novo regime” no Irã são vistas como um monólogo, sem reflexo na realidade iraniana. A postura de Trump, que renovou ameaças de atacar infraestruturas energéticas iranianas caso o Estreito de Ormuz não seja reaberto, apenas solidifica a visão de um ciclo vicioso de conflito e retórica unilateral, longe de um processo diplomático genuíno.

Pressão popular no Irã rejeita diálogo com os EUA

A opinião pública no Irã desempenha um papel crucial na formação da política externa do país, especialmente em relação aos Estados Unidos. O embaixador apontou que há uma pressão significativa das ruas, com cidadãos instando o governo a não se deixar enganar por propostas de negociação que são percebidas como superficiais ou desonestas. Essa mobilização popular surge de um histórico de confrontos e promessas não cumpridas, levando a uma desilusão generalizada com a retórica americana de diálogo.

A desconfiança se acentua com o que é descrito como um ciclo de “guerra, cessar-fogo, negociação e novamente guerra”. Exemplos citados incluem episódios passados onde, durante estágios avançados de conversações mediadas por Omã, o Irã foi alvo de ataques militares. Essa recorrência de agressões em momentos críticos do processo diplomático é interpretada como uma estratégia para perpetuar o conflito, e não para buscar uma resolução pacífica. A população iraniana, portanto, exige uma resposta firme para que o agressor cesse suas ações, rejeitando a lógica de um circuito interminável de negociação e guerra.

A ilusão das negociações de Trump

A retórica de Donald Trump sobre as negociações com o Irã é um ponto central da crítica iraniana. O embaixador ironizou que o presidente dos EUA estaria dialogando “consigo mesmo”, já que suas declarações sobre a existência de um “novo regime” ou a iminência de um acordo não encontram eco na realidade política ou social do Irã. Essa ilusão, conforme ele descreve, tornou-se tão evidente que transcendeu as fronteiras nacionais, virando uma “piada mundial”.

A percepção iraniana é que a administração Trump utiliza a ideia de negociação como uma tática, enquanto mantém a pressão e as ameaças militares. A renovação das ameaças a infraestruturas energéticas e de petróleo, juntamente com a exigência de reabertura do Estreito de Ormuz, demonstra que, por trás da fachada de “negociações”, persiste uma postura agressiva e coercitiva. Para Teerã, um diálogo autêntico exigiria o abandono de tais ameaças e o reconhecimento da soberania iraniana, o que, até o momento, não parece ser a abordagem americana.

Histórico de conflito e princípios de resposta iraniana

A relação entre Irã e seus adversários, especialmente Israel e os EUA, é marcada por um longo histórico de conflitos, ataques e tensões. O Irã, por sua vez, afirma que suas ações militares são pautadas por princípios morais e religiosos, mesmo diante de graves agressões.

Ataques e estratégias calculadas

O embaixador iraniano destacou que as ações militares do Irã contra Israel são calculadas e significativas, causando danos importantes ao regime sionista. Ele enfatizou que, ao contrário do que é divulgado, as respostas iranianas são poderosas, mas controladas. A moderação, porém, não significa fraqueza, mas sim a adesão a princípios humanitários, de caráter e religiosos que o Irã afirma seguir.

Um exemplo notável citado é a Guerra Irã-Iraque, que durou oito anos. Durante esse conflito, Saddam Hussein, apoiado pelo Ocidente e parte do Oriente, utilizou armamentos ilegais, incluindo armas químicas fornecidas por empresas alemãs. Apesar de ser alvo de tais ataques desumanos, o líder supremo religioso do Irã da época proibiu o uso de armas químicas em retaliação, ou qualquer ação que resultasse em massacres da população civil ou danos ambientais extensos. Esses princípios, segundo o diplomata, continuam a guiar as forças armadas iranianas, fazendo com que seus inimigos sejam “muito sortudos” por não enfrentarem uma retaliação total e indiscriminada, o que levaria à censura de informações sobre o verdadeiro impacto das respostas iranianas.

A defesa da soberania e avanço científico

Internamente, o Irã tem demonstrado resiliência diante dos ataques e da pressão externa, incluindo as sanções estadunidenses e ocidentais que já duram 47 anos, desde a Revolução Islâmica. O embaixador refutou a expectativa de que o governo iraniano colapsaria com os ataques sucessivos. Pelo contrário, a reação popular tem sido de forte defesa da soberania, com manifestações nas ruas, sob diversas condições climáticas, demonstrando o apoio do povo ao seu país.

Os ataques a universidades e cientistas iranianos, muitas vezes justificados como alvos militares por EUA e Israel, são vistos pelo Irã como um desprezo pela ciência e um reconhecimento do significativo avanço iraniano nos campos científico e de pesquisa. O Irã orgulha-se de sua civilização milenar, que data de 7 mil anos, e de ter fundado uma das primeiras universidades do mundo, a Jodhichapur, há cerca de 1.800 a 2.000 anos. Essa profunda raiz cultural e científica, afirma o embaixador, confere ao Irã uma base sólida e inabalável, permitindo-lhe resistir a “ventos muito fortes” e permanecer “intacto e firme”. O país se mantém independente, alicerçado em seu poder nacional e nos progressos internos, desafiando a tentativa de mudança de sua soberania.

A complexidade dos grupos de resistência

A narrativa ocidental frequentemente categoriza grupos como o Hezbollah no Líbano, a Resistência no Iraque e os Houthis no Iêmen como “proxies” do Irã, sugerindo que agem em nome de Teerã. Contudo, o Irã oferece uma perspectiva diferente sobre a natureza e as motivações desses movimentos.

Desmistificando a narrativa de “proxies”

O embaixador iraniano contesta vigorosamente a linguagem política inadequada utilizada por EUA, Ocidente e Israel para descrever esses grupos como meros “proxies” do Irã. Ele propõe uma investigação sobre quem é, de fato, “proxy de quem”, questionando se os EUA agem em nome de Israel ou vice-versa. Para o Irã, esses grupos são movimentos independentes que lutam por seus próprios benefícios e interesses nacionais em seus respectivos países.

O Hezbollah, por exemplo, foi formado na década de 1980 em resposta à invasão israelense do Líbano, que chegou até Beirute. Com sua própria força, o grupo conseguiu forçar Israel a recuar para além das fronteiras, atuando como uma força de defesa nacional libanesa. No Iraque, os grupos de resistência surgiram após a invasão americana em 2003, que resultou na morte de milhares de iraquianos. Eles lutam para proteger seu país e expulsar as forças americanas. Da mesma forma, os palestinos, que tiveram mais de 70 mil mortos pelo “regime sionista” nos últimos anos, estão lutando para se defender contra a ocupação de seus territórios e pela sobrevivência de sua população e nação, não por uma entidade externa. Essa perspectiva ressalta a autodeterminação desses grupos e suas raízes em conflitos locais e aspirações nacionais.

Avaliação da cobertura midiática brasileira

A percepção da mídia internacional é um fator importante para o Irã na comunicação de sua posição e na busca por uma compreensão mais equitativa do conflito. O embaixador iraniano expressou gratidão por grande parte da cobertura da mídia brasileira, que ele considera que tem mostrado o “lado verdadeiro desta guerra”.

No entanto, ele também fez uma ressalva, mencionando a existência de “ações comunicativas que não são profissionais”, mesmo que em pequena quantidade. Especificamente, ele citou a publicação de um editorial com o título “Ninguém vai chorar pelo Irã” por um jornal brasileiro. Tal postura, segundo o diplomata, em uma situação de guerra, busca fomentar e aumentar os ataques contra a população civil. A negativa de conceder direito de resposta, impedindo que o Irã expresse sua posição sobre o editorial, foi outro ponto de crítica, ressaltando a importância de um jornalismo equilibrado e que permita múltiplas perspectivas, especialmente em contextos de conflito.

Cenário geopolítico e perspectivas futuras

O complexo cenário geopolítico envolvendo Irã, Estados Unidos e seus aliados regionais permanece em um estado de alta tensão. As declarações do embaixador iraniano ressaltam a profunda desconfiança de Teerã em relação às intenções americanas, percebendo qualquer oferta de negociação como uma tática para manter ou aumentar a pressão. A insistência do Irã em sua soberania, sua capacidade de resiliência interna e a visão dos grupos de resistência como atores independentes são pilares de sua estratégia frente aos desafios externos.

O Irã continua a se basear em seus princípios históricos, culturais e religiosos para guiar suas ações, buscando uma resposta controlada, mas poderosa, aos ataques. A mobilização popular em defesa do governo e do país, juntamente com os avanços científicos e tecnológicos, são apresentados como evidências da força interna do Irã, apesar das sanções e agressões. O futuro das relações na região dependerá, em grande parte, da capacidade de superar a retórica unilateral e de estabelecer um diálogo baseado em respeito mútuo e reconhecimento das complexidades regionais. A percepção de “piada mundial” em torno das negociações apenas sublinha a urgência de uma abordagem diplomática mais genuína e eficaz.

FAQ

P1: Por que o Irã considera as negociações com os EUA uma “piada mundial”?
R1: O embaixador iraniano afirmou que as negociações são vistas como uma “piada mundial” porque o presidente dos EUA, Donald Trump, dialoga “consigo mesmo”, fazendo promessas de negociação enquanto, simultaneamente, mantém ameaças de ataques e sanções. Para o Irã, isso cria um ciclo de “guerra, cessar-fogo, negociação e novamente guerra”, desprovido de um compromisso genuíno com a paz.

P2: Como o Irã justifica suas ações militares e a resposta aos ataques?
R2: O Irã afirma que suas ações militares são calculadas e baseadas em princípios humanitários, de caráter e religiosos. Apesar de sofrerem agressões significativas, como o uso de armas químicas na guerra Irã-Iraque, o Irã evitou retaliações que visassem civis ou o meio ambiente. Suas respostas são poderosas, mas controladas, buscando defender sua soberania sem recorrer a táticas indiscriminadas.

P3: Qual a visão iraniana sobre grupos como Hezbollah e Houthis?
R3: O Irã rejeita a categorização desses grupos como “proxies” (agentes) seus. O embaixador iraniano defende que são movimentos independentes, lutando por seus próprios benefícios e interesses nacionais em seus respectivos países. Ele citou o Hezbollah como um grupo formado em resposta à invasão israelense do Líbano e os grupos iraquianos como uma defesa contra a invasão dos EUA, e os palestinos lutando pela sua terra.

P4: Como o Irã avalia sua situação interna após os ataques recentes?
R4: O Irã se mostra resiliente, com a população indo às ruas para defender a soberania do país, mesmo sob condições climáticas adversas. O embaixador refutou a ideia de um colapso governamental, destacando que o país tem enfrentado sanções e pressões por quase cinco décadas e continua a se basear em seu poder nacional, avanços científicos e uma civilização milenar para se manter firme.

Para aprofundar seu entendimento sobre as complexas dinâmicas geopolíticas do Oriente Médio, continue acompanhando as análises de fontes diversas e confiáveis.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Relacionados