Lula: fome mundial pode acabar com bom senso de governantes

 Lula: fome mundial pode acabar com bom senso de governantes

© Marcelo Camargo/Agência Brasil

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A erradicação da fome global é uma meta alcançável, mas que exige o “bom senso dos governantes” mundiais e uma reorientação de prioridades, segundo a visão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com mais de 600 milhões de pessoas enfrentando a insegurança alimentar em todo o mundo, o chefe de estado brasileiro argumenta que os recursos atualmente destinados a conflitos internacionais seriam suficientes para resolver essa crise humanitária, caso houvesse um compromisso genuíno e coordenado entre as nações. Lula criticou abertamente a inação e a postura do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) frente ao problema, propondo que a paz e a distribuição de renda sejam priorizadas sobre a guerra e a produção de armamentos. A declaração foi feita durante a abertura da Conferência Regional da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) para a América Latina e o Caribe, um evento crucial para debater estratégias de segurança alimentar na região.

Apelo à responsabilidade global e ao Conselho de Segurança da ONU

A declaração do presidente Lula na Conferência Regional da FAO ressaltou a urgência de uma mudança de perspectiva global. Em um discurso que ecoou preocupações humanitárias profundas, ele enfatizou que a fome não persistiria se houvesse uma abordagem mais sensata por parte dos líderes mundiais. Lula fez um apelo direto aos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, destacando o poder e a responsabilidade de apenas cinco nações em influenciar o curso da paz e da segurança globais. Sua proposta foi clara: uma teleconferência entre esses líderes poderia ser o ponto de partida para discutir se a solução para os problemas da humanidade reside na intensificação de conflitos ou na promoção da paz e do desenvolvimento.

A lógica da paz sobre a guerra na erradicação da fome

O cerne da argumentação presidencial reside na ideia de que a alocação de recursos atualmente dedicados à guerra e à fabricação de armamentos poderia ser redirecionada para programas de segurança alimentar. Lula questionou a lógica de investir em instrumentos de destruição enquanto milhões de pessoas sofrem com a carência de alimentos básicos. Para ele, a prioridade deveria ser o aumento da distribuição de renda e a garantia de acesso à alimentação necessária para a população mundial. A crítica à falta de compromisso com os famintos foi veemente: “Famintos não protestam, eles não estão organizados em sindicatos, eles estão longe, muitas vezes, do centro de poder, não conseguem nem fazer passeata. Então, as pessoas não se preocupam. É por excesso de responsabilidade, falta de compromisso, que a gente não consegue exterminar a fome do planeta terra”, afirmou Lula, sublinhando a vulnerabilidade e a invisibilidade daqueles que mais precisam.

O papel da agricultura familiar e o compromisso estatal

Recebendo ministros de mais de vinte países da América Latina e do Caribe, o presidente Lula defendeu enfaticamente o aumento do financiamento público destinado à agricultura familiar. Segundo ele, este setor é fundamental não apenas para a produção de alimentos, mas também para o desenvolvimento econômico e social das comunidades. O presidente brasileiro destacou o reconhecimento da FAO de que o Brasil conseguiu, em um período recente, sair do Mapa da Fome, um feito atribuído em grande parte às políticas de apoio à agricultura familiar. Ele argumentou que é essencial ensinar e capacitar os agricultores familiares para que possam produzir não apenas para subsistência, mas também para gerar renda, transformando a agricultura em uma atividade lucrativa e sustentável.

Financiamento e apoio: chaves para a segurança alimentar

A disparidade no acesso a financiamento foi outro ponto central na argumentação de Lula. Ele questionou por que grandes produtores recebem amplos recursos enquanto os pequenos agricultores enfrentam dificuldades para obter crédito. “Por que que os grandes têm tanto financiamento e a gente não pode dar também pros pequenos. É apenas uma decisão”, provocou o presidente, sugerindo que a falta de apoio financeiro é uma questão de prioridade política e não de viabilidade econômica.

Essa perspectiva foi corroborada pelo ministro brasileiro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, que atua como copresidente da Conferência da FAO. Teixeira defendeu que “investir na agricultura familiar é decisivo no combate à fome”, pois ela é “parte essencial da solução para as grandes crises do nosso tempo: da fome, da pobreza e do meio ambiente”. Ele sublinhou a necessidade de políticas robustas que garantam acesso à terra, crédito, assistência técnica, extensão rural, compras públicas de alimentos e incentivos ao cooperativismo. Além disso, Teixeira destacou a importância de fortalecer a autonomia econômica de mulheres, jovens e povos e comunidades tradicionais, reconhecendo o papel crucial desses grupos na produção de alimentos.

Avanços e desafios na América Latina

Em julho do ano passado, o Brasil, mais uma vez, conseguiu sair do Mapa da Fome, conforme relatório da FAO, um marco significativo que demonstra a eficácia de políticas públicas direcionadas. O Diretor-Geral da organização, Qu Dongyu, elogiou os avanços não apenas no Brasil, mas também em outros países da América Latina, atribuindo esses sucessos a políticas que ele descreveu como “extraordinárias”. Esses progressos regionais oferecem um modelo e inspiração para outras nações que lutam contra a insegurança alimentar.

O retorno do Brasil ao mapa da fome e as perspectivas futuras

Apesar dos notáveis progressos e do reconhecimento internacional, o Diretor-Geral da FAO alertou que desafios importantes persistem. Qu Dongyu mencionou especificamente os altos preços dos alimentos, que impactam diretamente a capacidade de compra das famílias mais vulneráveis, os riscos climáticos, que ameaçam a produção agrícola e a sustentabilidade ambiental, e a redução no financiamento para a produção alimentícia, que pode comprometer os avanços já conquistados.

A complexidade da questão da fome exige uma abordagem multifacetada e o compromisso contínuo de governos, organizações internacionais e da sociedade civil. A trajetória do Brasil, que saiu e retornou ao mapa da fome em diferentes períodos, ilustra a fragilidade e a necessidade de políticas persistentes e bem estruturadas para garantir a segurança alimentar de forma duradoura. O apelo do presidente Lula e as discussões na Conferência da FAO sublinham que a erradicação da fome é, em última instância, uma escolha política e um desafio moral para a humanidade.

Conclusão

A erradicação da fome global, que afeta mais de 600 milhões de pessoas, é apresentada como uma questão de decisão política e bom senso dos governantes. A crítica do presidente Lula à inação do Conselho de Segurança da ONU e seu apelo para que se priorize a paz e a distribuição de renda sobre conflitos armados ressaltam a urgência de uma mudança de paradigma. A defesa veemente do financiamento e apoio à agricultura familiar, como uma solução essencial para a segurança alimentar, reforça a ideia de que investimentos direcionados e políticas públicas robustas são fundamentais. Embora avanços significativos, como a saída do Brasil do Mapa da Fome, demonstrem a eficácia de tais medidas, os desafios persistentes, como preços elevados de alimentos e riscos climáticos, exigem vigilância contínua e cooperação internacional para garantir que a fome seja, de fato, eliminada do planeta.

FAQ

Qual é a principal crítica do presidente Lula em relação à fome global?
O presidente Lula critica a falta de “bom senso dos governantes” mundiais e a inação do Conselho de Segurança da ONU, argumentando que o dinheiro gasto em conflitos poderia resolver o problema da fome se fosse redirecionado para a produção e distribuição de alimentos, e o aumento da renda.
Como a agricultura familiar pode contribuir para o combate à fome, segundo os debatedores?
De acordo com Lula e o ministro Paulo Teixeira, a agricultura familiar é essencial na solução para a fome, a pobreza e as crises ambientais. Eles defendem o aumento do financiamento público, acesso à terra, crédito, assistência técnica e compras governamentais para fortalecer esse setor e promover a autonomia econômica de comunidades vulneráveis.
Quais são os principais desafios para a segurança alimentar na América Latina, apesar dos avanços?
Apesar dos progressos regionais, o Diretor-Geral da FAO, Qu Dongyu, destacou que desafios importantes persistem, incluindo os altos preços dos alimentos, os riscos climáticos que afetam a produção e a redução no financiamento para a produção alimentícia.
O que o Brasil alcançou recentemente no combate à fome, de acordo com a FAO?
Em julho do ano passado, o Brasil conseguiu, mais uma vez, sair do Mapa da Fome da FAO, um reconhecimento de suas políticas e esforços para reduzir a insegurança alimentar, classificadas como “extraordinárias” pelo Diretor-Geral da organização.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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