Eleições 2026: o Brasil fora da urna

 Eleições 2026: o Brasil fora da urna

Créditos: TRE

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Por Edgar de Souza

O Brasil se prepara para mais uma eleição. Em outubro, milhões de brasileiros irão às urnas escolher presidente, governadores, senadores e deputados. Mas existe um Brasil imenso que parece estar ficando fora da urna: o Brasil da vida real.

É o Brasil de quem acorda cedo e trabalha para fazer o salário chegar ao fim do mês. De quem espera meses por uma consulta ou um exame no SUS. Das famílias preocupadas com a qualidade da escola dos filhos, com a violência, o emprego, os juros, as dívidas e o custo de vida.

Enquanto esse Brasil pede respostas, parte importante do debate político continua aprisionada a uma polarização cada vez mais radicalizada entre bolsonarismo e lulopetismo.

Transformamos a política brasileira em um interminável Fla-Flu. E, nesse campeonato, muitas vezes pouco importa discutir propostas. Em vez de apresentar razões para acreditar em um projeto, trabalha-se para convencer a sociedade de que o outro lado não presta.

O adversário político, figura indispensável à democracia, passou a ser tratado como inimigo. E inimigos não são ouvidos. Suas ideias não podem ser aproveitadas. Precisam ser derrotados, desmoralizados e eliminados politicamente.

Quando a política deixa de ser uma disputa de ideias e se transforma numa disputa de ódios, quem perde é a sociedade. E quem ganha nem sempre aparece no centro do palco.

Enquanto milhões de brasileiros são convocados diariamente para essa guerra, interesses muito mais concretos avançam nos bastidores. Maus políticos, estruturas de corrupção, interesses obscuros e até a infiltração do crime organizado no poder público encontram terreno fértil quando a fiscalização da sociedade é substituída pela paixão de torcida.

Porque a lógica do “nós contra eles” produz um efeito perigoso: passamos a tolerar no nosso lado aquilo que consideraríamos imperdoável se fosse praticado pelo adversário.

A indignação também passa a ter lado.

Se a corrupção é do adversário, revolta. Se acontece no nosso campo, relativiza-se ou muda-se de assunto. Critérios morais e republicanos acabam substituídos pela conveniência política.

É preciso dizer o óbvio: corrupção não tem ideologia. Escândalos já atingiram esquerda, direita e centro. Da mesma forma, existem homens e mulheres públicos íntegros na esquerda, na direita e no centro. Honestidade não é patrimônio de partido.

Por isso, deveríamos perguntar quem ganha mantendo o Brasil permanentemente dividido.

Uma sociedade ocupada em odiar metade de si mesma tem menos tempo para fiscalizar contratos, acompanhar gastos públicos, cobrar resultados e avaliar políticas públicas. A polarização extrema transforma-se, assim, numa enorme cortina de fumaça. Enquanto brasileiros brigam entre si, projetos de poder avançam e grupos políticos passam a se preocupar mais com sua própria perpetuação do que com a transformação da realidade.

O poder deixa de ser instrumento e passa a ser finalidade.

E essa guerra ultrapassou a política e entrou em nossas casas. Famílias se dividiram. Amizades antigas foram abaladas. Grupos de WhatsApp viraram trincheiras. Relações construídas durante décadas passaram a ser julgadas por uma pergunta: “de que lado você está?”

Talvez seja justamente essa a pergunta que precisamos substituir em 2026.

Em vez de perguntar de que lado alguém está, deveríamos perguntar: “Que solução você apresenta?”

Como melhorar a educação pública? Como reduzir as filas da saúde? Como enfrentar a violência e o crime organizado? Como gerar empregos melhores? Como reduzir desigualdades e aumentar a produtividade? Como equilibrar as contas públicas sem abandonar quem mais precisa do Estado?

Essas perguntas não são de esquerda nem de direita. São brasileiras.

Nenhuma corrente política possui sozinha todas as respostas. Uma democracia madura precisa ser capaz de colocar pessoas diferentes ao redor da mesma mesa. Uma boa ideia não deixa de ser boa porque nasceu na esquerda, no centro ou na direita. Uma política pública que funciona não deveria ser destruída simplesmente porque foi criada pelo governo anterior.

Isso não significa eliminar diferenças ou abandonar convicções. Ao contrário. Democracia precisa de divergência. O que ela não precisa é de ódio.

O Brasil precisa reaprender a discordar. A combater ideias com ideias, argumentos com argumentos e propostas com propostas.

Em 2026, precisamos abrir os olhos e perguntar: quem ganha quando o Brasil se divide? Quem se beneficia quando deixamos de discutir saúde, educação, segurança, emprego e desenvolvimento para passar nossos dias atacando uns aos outros?

Certamente não é o brasileiro que acorda cedo para trabalhar.

A eleição deveria ser o momento de escolher caminhos para o futuro, e não apenas de ajustar contas com o passado.

Que em 2026 o Brasil volte para a urna.

E que, acima de tudo, a política volte a servir ao Brasil — e não o Brasil à política.

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