Dono de academia teria alertado manobrista Após morte de aluna em SP

 Dono de academia teria alertado manobrista Após morte de aluna em SP

G1

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A morte de uma aluna e a intoxicação de outras cinco pessoas em uma academia de São Paulo, após uma aula de natação, revelam uma série de eventos preocupantes, agora sob investigação policial. O caso, que ganhou destaque, envolve a manipulação de produtos químicos na piscina e o depoimento crucial de um funcionário. Severino José da Silva, o manobrista responsável pela manutenção da piscina, revelou à polícia detalhes que apontam para uma comunicação inusitada com o proprietário do estabelecimento após o incidente. As autoridades buscam esclarecer as responsabilidades e a sequência dos fatos que culminaram na tragédia e na posterior tentativa de alertar o funcionário sobre a presença policial, buscando desvendar o que realmente aconteceu no ambiente da academia.

As revelações do manobrista e o alerta do proprietário

Severino José da Silva, de 43 anos, funcionário da academia, prestou depoimento detalhado à polícia, expondo uma série de acontecimentos que antecederam e sucederam a morte de Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, e a intoxicação de outros alunos. Segundo Silva, que atua como manobrista, mas também era encarregado da manutenção da piscina, o proprietário do local, identificado como Celso, entrou em contato com ele no domingo, dia 8, dois dias após o incidente, para alertá sobre a investigação policial em andamento. “Vai, sai de casa que a polícia está batendo na porta de todo mundo”, teria dito o proprietário, conforme o relato do manobrista.

No sábado, dia 7, Juliana faleceu após uma aula de natação. Além dela, outros cinco alunos, incluindo o marido da vítima e um adolescente, apresentaram sinais de intoxicação, com dificuldades respiratórias e irritação. Severino, que também se sentiu mal, disse à polícia que, ao perceber que as pessoas estavam passando mal, tentou contatar o proprietário Celso, mas não obteve resposta imediata. O retorno só ocorreu por volta das 14h11, quando a academia já havia sido esvaziada. Ao relatar o ocorrido, Celso teria respondido com um simples “Paciência”, o que levanta questionamentos sobre a percepção da gravidade da situação por parte da administração. A ligação com o alerta sobre a polícia teria ocorrido na manhã seguinte, às 10h30. A principal linha de investigação das autoridades aponta para a manipulação inadequada de produtos químicos próximo à área de aulas, em um espaço fechado e com pouca ventilação, como causa provável da intoxicação.

Após seu depoimento no 42º Distrito Policial do Parque São Lucas, Severino falou rapidamente com a imprensa, acompanhado de sua advogada, reiterando sua posição de funcionário que segue ordens e informando que seu celular foi apreendido para averiguações. “Tenho a declarar que sou funcionário da empresa, sigo ordens, e meu celular foi apreendido para averiguações. É isso que tenho para falar no momento”, afirmou. Os proprietários da academia também são aguardados pelas autoridades para prestar esclarecimentos sobre o incidente e as práticas de manutenção do local.

Acúmulo de funções e a perigosa falta de preparo

O depoimento do manobrista trouxe à tona uma realidade preocupante sobre as condições de trabalho e a segurança na academia. Severino José da Silva, apesar de registrado em carteira como manobrista há cerca de três anos, acumulava diversas funções, incluindo a de abrir a unidade e realizar a manutenção das piscinas. Essa sobrecarga de responsabilidades, segundo ele, era determinada pelo proprietário Celso, que orientava o uso de produtos químicos à distância, por meio de mensagens de texto e fotos enviadas dos testes de água.

Um dos pontos mais críticos do depoimento de Severino é a ausência total de treinamento, habilitação técnica ou equipamentos de proteção individual (EPIs) para o manuseio de produtos químicos, essenciais para a segurança de quem executa tal tarefa. Ele afirmou que nunca recebeu tal preparo, apesar de ser o responsável pela manutenção rotineira da piscina. Essa falta de capacitação, segundo o funcionário, era de conhecimento do proprietário. Severino relatou que aprendeu os procedimentos de manutenção com o antigo manobrista da academia, que também desempenhava a mesma função sem o devido preparo técnico. A rotina consistia em medir os níveis da água da piscina, fotografar o resultado e enviar a imagem a Celso, que então indicava quais produtos deveriam ser aplicados e em qual quantidade. Essa prática levanta sérias dúvidas sobre a gestão da segurança e saúde ocupacional no estabelecimento.

A aplicação dos produtos químicos no dia do incidente

A cronologia dos eventos que culminaram na tragédia começou na quinta-feira anterior ao incidente, quando Severino percebeu que a água da piscina estava turva e comunicou o fato ao proprietário. Na sexta-feira, após a última aula de natação, ele recebeu ordens para aplicar apenas cloro na piscina maior. No sábado, dia do incidente, a água da piscina ainda apresentava uma aparência turva. Mesmo com alunos já presentes e utilizando a piscina, Celso teria solicitado uma nova testagem e, em seguida, orientado a aplicação de seis a oito medidas do produto HIDROALL Hiperclor 60.

Severino afirmou em depoimento que não despejou o produto diretamente na piscina. Segundo seu relato, ele preparou a solução em um balde, utilizando água da própria piscina, adicionou seis medidas de cloro e deixou o recipiente próximo à área da piscina, a cerca de dois metros da borda, antes de retornar às suas funções como manobrista. Não há informações concretas sobre se alguém chegou a jogar o produto na piscina após a preparação de Severino. Cerca de dez minutos depois da aplicação e do preparo do balde, o funcionário percebeu uma movimentação incomum na academia e sentiu um forte cheiro de cloro no ar. Ele relatou ter visto uma mulher sentada na recepção, amparada pelo marido, e um pai socorrendo o filho adolescente, ambos apresentando sinais de mal-estar. Os professores foram imediatamente avisados e prontamente retiraram todos os alunos da piscina. O próprio Severino disse ter apresentado dificuldades respiratórias e irritação na garganta e nos olhos devido à inalação do produto.

Socorro e evacuação

Uma viatura da Guarda Civil Metropolitana (GCM) que passava pela rua foi acionada para prestar socorro inicial. A recepcionista da academia também realizou ligações para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e para o Corpo de Bombeiros, mas, conforme o depoimento de Severino, nenhuma viatura compareceu ao local. As vítimas foram, portanto, socorridas por meios próprios e por pessoas presentes. Após o atendimento emergencial, o funcionário removeu o balde com o produto químico da área da piscina e o levou para a área externa da academia, que foi evacuada e fechada logo em seguida.

Severino reforçou em seu depoimento que o único produto aplicado por ele naquele dia foi o HIDROALL Hiperclor 60, uma substância que, segundo ele, havia sido adotada recentemente por decisão do proprietário, que estaria testando um “novo tipo de cloro”. Anteriormente, outro produto era utilizado para a manutenção da piscina. O manobrista também mencionou que, há cerca de um ano, quando a piscina apresentou um problema, um técnico especializado realizou o serviço para regularizar a qualidade da água. Esse profissional teria oferecido seus serviços de forma permanente, mas o proprietário optou por manter toda a responsabilidade da manutenção sob os cuidados de Severino, sem o devido preparo ou treinamento.

A investigação e as respostas da academia

As autoridades, por meio do 42º Distrito Policial, continuam a investigar minuciosamente o caso, com foco na manipulação dos produtos químicos e nas condições de segurança oferecidas pela academia. A principal suspeita recai sobre a inadequada aplicação e manuseio de substâncias em um ambiente com pouca ventilação, o que pode ter gerado gases tóxicos e causado a intoxicação dos presentes. Há também a informação de que o delegado responsável pelo caso investiga a possibilidade de que o proprietário da academia tenha apagado mensagens que continham as orientações para o funcionário sobre o uso de químicos na piscina, o que, se comprovado, configuraria uma tentativa de obstrução da justiça.

Os advogados que representavam a academia, identificada como C4 Gym, renunciaram ao caso, e até o momento, nenhum outro representante legal da empresa foi encontrado para se manifestar sobre os fatos. Nas redes sociais, a direção da academia divulgou um comunicado em que “lamenta profundamente o ocorrido em sua unidade no último sábado (07/02) e informa que prestou imediato atendimento a todos os envolvidos e que mantém contato direto com alunos e familiares para oferecer todo o suporte necessário”. A empresa afirmou estar “colaborando integralmente com as autoridades competentes, contribuindo com todas as etapas da investigação em andamento”.

Sobre a permissão de funcionamento, a C4 Gym informou possuir Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), regularidade junto ao Conselho Regional de Educação Física (CREF) e alvará da Vigilância Sanitária válido desde 2023. No entanto, a Prefeitura de São Paulo já iniciou um processo de cassação da licença de funcionamento da academia, demonstrando a seriedade com que o incidente está sendo tratado pelos órgãos públicos. Este caso lança um alerta sobre a necessidade de fiscalização rigorosa e a importância de que estabelecimentos que lidam com produtos químicos e oferecem serviços de saúde e bem-estar sigam todas as normas de segurança e tenham profissionais devidamente capacitados para suas funções. A investigação segue para determinar todas as responsabilidades e garantir que situações como esta não se repitam.

Perguntas frequentes

Quem é a vítima fatal do incidente na academia?
A vítima fatal do incidente é Juliana Faustino Bassetto, uma professora de 27 anos, que faleceu após uma aula de natação na academia.

Qual a principal suspeita da polícia sobre a causa da intoxicação?
A principal suspeita da polícia é que a manipulação e aplicação inadequada de produtos químicos próximo à área da piscina, em um ambiente fechado e com pouca ventilação, causou a intoxicação dos alunos e o óbito da vítima.

O que o manobrista afirmou em seu depoimento?
Severino José da Silva, o manobrista, afirmou que não tinha treinamento ou EPIs para manusear produtos químicos, seguia ordens do proprietário por mensagens e foi alertado por ele a “sair de casa” por causa da polícia após o incidente. Ele também detalhou a aplicação do produto no dia da intoxicação.

Quais as consequências para a academia após o ocorrido?
Além da investigação policial em andamento, os advogados da academia renunciaram ao caso, e a Prefeitura de São Paulo iniciou um processo de cassação da licença de funcionamento do estabelecimento.

Acompanhe as atualizações deste caso e garanta a segurança em ambientes com piscinas, informando-se sobre as normas de manutenção e uso de produtos químicos.

Fonte: https://g1.globo.com

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