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Caso de Itumbiara acende alerta para violência vicária: entenda a gravidade
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
A tragédia ocorrida em Itumbiara, Goiás, que chocou o país, trouxe à luz uma forma de agressão frequentemente invisibilizada e pouco debatida: a violência vicária. Este tipo de violência, embora sistemático e com impactos devastadores, permanece submerso nas discussões cotidianas sobre violência contra a mulher. No caso em questão, um homem ceifou a vida de seus dois filhos e, posteriormente, a sua própria, em um ato extremo que especialistas identificam como uma tática cruel de punir e atingir psicologicamente a mãe das crianças. A gravidade deste evento não apenas acende um alerta urgente para a sociedade, mas também impõe a necessidade de um entendimento aprofundado sobre suas características, manifestações e as formas de combatê-la.
A natureza devastadora da violência vicária
Definição e manifestações do agressor
A violência vicária é caracterizada pela ação de um agressor que busca infligir dor e sofrimento a uma mulher, utilizando como instrumentos pessoas ou até mesmo animais de estimação com os quais ela mantém um vínculo afetivo. O objetivo primordial é atingi-la psicologicamente, causando um dano irreparável. Na vasta maioria dos casos, os alvos são os filhos da vítima, dada a intensidade do laço afetivo. O lamentável episódio de Itumbiara exemplifica esta cruel dinâmica, quando o secretário de Governo da prefeitura local, Thales Machado, atirou contra seus dois filhos, de 12 e 8 anos, que infelizmente não resistiram, antes de tirar a própria vida.
Nesse cenário, o agressor frequentemente constrói uma narrativa meticulosa para se colocar como vítima, buscando responsabilizar a mulher pelo ocorrido. Antes de sua ação fatal, Thales Machado publicou uma carta em redes sociais, alegando uma suposta traição da esposa e uma crise conjugal. Essa manipulação é um traço marcante da violência vicária, onde o perpetrador, antes mesmo de cometer o ato, tenta transferir a culpa, expondo e difamando a imagem da mulher. Segundo especialistas, a vítima, além de sofrer a perda inestimável dos filhos, tem sua reputação e história expostas, sendo frequentemente responsabilizada pela tragédia por uma narrativa social e machista. A escolha de cometer o crime, no entanto, é sempre do agressor, e a mulher não deve ser culpabilizada por uma decisão que não foi dela.
Contexto e invisibilidade no Brasil
Apesar de sua prevalência, a violência vicária é um fenômeno pouco discutido no Brasil. Especialistas apontam que ela se manifesta de forma sistemática no dia a dia, abrangendo desde situações sutis de manipulação até atos explícitos de extrema violência, como o assassinato dos próprios filhos. Um outro caso recente, envolvendo um servidor público que agrediu o filho e a ex-companheira, evidencia a persistência dessa dinâmica, onde o ataque à criança frequentemente precede a agressão à mulher. A agressão ou o maltrato a filhos, mães e até animais domésticos é uma ocorrência cotidiana em contextos de violência doméstica.
A raiz dessa violência reside em uma cultura machista profundamente arraigada no Brasil e em muitas partes do mundo. A assimetria de gênero, manifestada em diversas esferas como a política e a economia, onde mulheres frequentemente recebem salários inferiores apesar de qualificações equivalentes ou superiores, encontra na violência sua expressão mais brutal. É um instrumento de manutenção da mulher em um lugar de subalternidade e medo, cerceando sua liberdade e autonomia.
O combate à violência vicária e a proteção das vítimas
Reconhecimento e atuação da sociedade civil
Organizações da sociedade civil, como o Instituto Maria da Penha, têm desempenhado um papel crucial na conscientização e no enfrentamento à violência vicária. A entidade reitera que essa é uma forma de violência de gênero que vitimiza mulheres através de crianças e adolescentes, que são usados como instrumentos de controle, punição ou chantagem. É imperativo compreender que não se trata de um “conflito familiar”, mas sim de uma grave violação de direitos humanos. Por muito tempo, essa prática foi normalizada, invisibilizada ou tratada como uma disputa privada, resultando no sofrimento silencioso de mulheres e em impactos profundos no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes.
Avançar no debate e no reconhecimento é fundamental. O Brasil, por meio de uma resolução conjunta do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), oficialmente reconheceu a violência vicária como violência de gênero. Essa medida estabeleceu diretrizes para a atuação do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente, reforçando a necessidade de prevenção, proteção e resposta interinstitucional. Nomear essa violência é o primeiro passo para enfrentá-la, e a informação de qualidade é uma forma vital de proteção. As manifestações da violência vicária incluem ameaças envolvendo os filhos, afastamento forçado da convivência, manipulação emocional, falsas acusações, e até mesmo sequestro ou retenção ilegal de crianças.
A culpabilização da vítima e a responsabilidade do agressor
Instituições como a Defensoria Pública Estadual de Goiás (DPE-GO) têm se posicionado firmemente contra a culpabilização da mulher em casos de violência vicária. Em notas públicas, a DPE-GO enfatiza que atos de abuso, violência e feminicídio são crimes, e que a prática de ferir os filhos para atingir a mãe possui um nome específico: violência vicária. A mensagem é clara e enfática: “Ela não tem culpa. Ponto final.”
A DPE-GO tem promovido campanhas, como a “Ela Não tem Culpa”, visando refletir sobre a constante culpabilização e julgamento das mulheres, mesmo quando são vítimas. A instituição reforça que a responsabilidade pela violência é sempre de quem a comete, independentemente do comportamento, da roupa ou da voz da vítima. Expor uma mulher vítima de violência pode, inclusive, configurar crime. Refletir sobre a culpabilização da mulher é um passo essencial para romper com as desigualdades de gênero que perpetuam os ciclos de violência, garantindo que a responsabilidade recaia sobre quem realmente a tem: o agressor.
Perguntas frequentes sobre violência vicária
O que é violência vicária?
É uma forma de violência de gênero onde o agressor busca causar dor e sofrimento a uma mulher, atingindo-a psicologicamente por meio de pessoas ou animais de estimação com os quais ela tem um forte vínculo afetivo, especialmente os filhos.
Como a violência vicária pode se manifestar?
Ela pode se manifestar de diversas formas, incluindo ameaças envolvendo os filhos, o afastamento forçado da convivência deles, manipulação emocional, falsas acusações contra a mulher, e até mesmo o sequestro ou a retenção ilegal de crianças.
Quem é responsabilizado em casos de violência vicária?
A responsabilidade é sempre de quem comete a violência. Em casos de violência vicária, o agressor é o único culpado pelas ações e pelos danos causados, e a mulher vítima não deve ser responsabilizada pelos crimes cometidos por ele.
Se você ou alguém que conhece está vivenciando situações de violência vicária, procure ajuda imediatamente. Denuncie e busque apoio em órgãos especializados e serviços de proteção à mulher.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br