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Aluna da USP Ribeirão denuncia racismo por colega: ‘Eu era a cota
G1
Uma grave denúncia de racismo abala a comunidade universitária da Universidade de São Paulo (USP), campus Ribeirão Preto. A estudante Priscila Motta da Rocha Antônio, de 21 anos, caloura do curso de Nutrição, acusou uma colega de classe de perseguição e ofensas racistas, culminando em um ambiente acadêmico hostil. Segundo Priscila, a agressora, com quem inicialmente estabeleceu uma relação de proximidade, passou a se referir a ela de forma depreciativa, utilizando a expressão “a cota do grupo”, entre outras ofensas. O caso de racismo revela os desafios enfrentados por estudantes cotistas e a necessidade urgente de combater a discriminação em todas as suas formas dentro das instituições de ensino superior, garantindo um ambiente de aprendizado seguro e inclusivo para todos os alunos. A repercussão da denúncia mobilizou a universidade e reacendeu o debate sobre a importância da inclusão e do respeito.
O início da convivência e a escalada das agressões
A aproximação e os primeiros sinais de desrespeito
Priscila Motta da Rocha Antônio ingressou no curso de Nutrição na USP Ribeirão Preto sentindo-se, como muitos calouros, um pouco isolada nos primeiros dias de aula. Essa sensação de solidão a levou a buscar companhia, e foi nesse contexto que ela se aproximou da colega que, posteriormente, se tornaria sua agressora. Inicialmente, a relação parecia promissora, um laço de amizade que poderia oferecer apoio no novo ambiente universitário. Contudo, essa dinâmica rapidamente se deteriorou. Priscila descreve um cenário de constante apreensão, onde precisava “pisar em ovos”, sempre incerta sobre qual seria a reação ou o tratamento que receberia da colega.
A primeira manifestação explícita de preconceito ocorreu durante uma conversa trivial com uma terceira pessoa. Priscila comentava sobre outro curso no qual havia tentado ingressar, tecnicamente mais acessível que Nutrição. Uma colega perguntou: “Você conseguiu passar em Nutrição, mas não conseguiu passar nesse curso?”. Antes que Priscila pudesse responder, a estudante acusada de racismo interveio de forma desmerecedora, afirmando: “Amiga, é porque ela é cota”. Este episódio marcou o início de uma série de incidentes, onde a condição de cotista de Priscila era constantemente usada para diminuir sua capacidade e inteligência. A partir desse momento, a estudante percebeu que a forma como era tratada diferia significativamente do tratamento dado aos outros colegas.
Incidentes recorrentes e o impacto psicológico
Após o primeiro ataque, os episódios de assédio e racismo tornaram-se alarmantemente frequentes. Priscila relata que, em diversas ocasiões, sentia-se desvalorizada e minimizada sempre que tentava interagir com a colega. A agressão não se limitava apenas a palavras; houve um incidente físico quando, durante um estudo na biblioteca, a colega a atingiu no braço com uma chave, causando-lhe um machucado. Mesmo após reclamar da dor, Priscila teve que insistir para que um pedido de desculpas fosse feito, e quando este veio, foi proferido de maneira debochada e sem sinceridade.
Outro caso emblemático de racismo ocorreu quando a colega fez um comentário depreciativo sobre a vida amorosa de Priscila, insinuando que ela “ia casar com um artista famoso preto, porque ele também era cotista”. Tais comentários não apenas reforçavam estereótipos, mas também expunham a Priscila a um constrangimento público e a uma sensação de invalidação constante. Priscila confessa que, apesar de todas as agressões, demorou a identificar a natureza racista dos atos. Ela percebia que era a única a ser tratada de tal forma, sentindo-se constantemente desmerecida e consumida pela situação, mas inicialmente não fazia a conexão direta com o racismo. A dificuldade em reconhecer e nomear o racismo como a raiz do problema adicionou uma camada de sofrimento à sua já fragilizada saúde mental, intensificando uma depressão preexistente.
As consequências acadêmicas e a busca por justiça
Abandono da faculdade e a luta pela recuperação
A sequência de agressões e o ambiente tóxico criado pela colega tiveram um impacto devastador na vida acadêmica e pessoal de Priscila. O ponto de ruptura foi um incidente durante a preparação para uma prova. Priscila pediu para fazer dupla com a agressora, que respondeu de forma categórica e cruel: “Não vou te carregar, não vou te carregar”. Essa recusa, carregada de menosprezo e a insinuação de sua incompetência, foi a gota d’água. Após esse episódio, Priscila não conseguiu mais frequentar a universidade. Ela tentou retomar os estudos no segundo semestre, comparecendo por alguns dias, mas a dor e o desgaste emocional a impediram de continuar.
A interrupção dos estudos resultou em um período de profunda vulnerabilidade para Priscila. Ela relatou ter passado um mês acamada, com sua depressão, que já existia, sendo severamente intensificada pelos eventos. A experiência de racismo na universidade não apenas a afastou da sala de aula, mas também comprometeu seu bem-estar físico e mental. Priscila, no entanto, demonstra resiliência e determinação ao afirmar que pretende retomar os estudos no próximo ano, assim que o caso for devidamente resolvido e as medidas cabíveis forem tomadas. Sua esperança é que, com a resolução da denúncia, ela possa retornar a um ambiente acadêmico mais seguro e acolhedor.
A mobilização e a resposta institucional
A busca de Priscila por justiça começou bem antes de o caso ganhar repercussão pública. Ela procurou a Comissão de Direitos Humanos (CDH) da USP, que ofereceu mediação de conflitos, e também a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP), ambas instâncias importantes para lidar com questões de discriminação e inclusão. No entanto, o processo ganhou uma nova dimensão quando, em uma segunda-feira, a cientista social Jéssica Machado publicou o relato de Priscila nas redes sociais. A partir daí, a história viralizou, e o caso alcançou um público muito maior, gerando apoio e indignação.
Foi somente após a ampla repercussão nas redes sociais que a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP) da USP abriu um processo administrativo para investigar formalmente as denúncias. A universidade, por sua vez, informou que, com base no relato formalizado de Priscila, o caso foi encaminhado para as comissões de Direitos Humanos e de Inclusão e Pertencimento, responsáveis por conduzir a apuração. A instituição garantiu que “eventuais responsáveis serão submetidos às medidas administrativas e legais cabíveis, conforme a legislação vigente e as normas da Universidade de São Paulo”. Além disso, uma reunião foi agendada entre a USP e Priscila para discutir o andamento do caso e as próximas etapas. A mobilização social foi crucial para que a denúncia de Priscila ganhasse a atenção e a celeridade necessárias por parte das autoridades universitárias.
Perspectivas e o caminho à frente
O caso de Priscila Motta da Rocha Antônio na USP Ribeirão Preto transcende a experiência individual, tornando-se um símbolo da persistência do racismo em ambientes acadêmicos que deveriam ser espaços de inclusão e igualdade. A coragem de Priscila em denunciar as agressões, apesar do profundo sofrimento e do impacto em sua saúde e trajetória universitária, ressalta a urgência de combater o racismo estrutural. A reação da universidade, embora tardia em alguns aspectos, demonstra a necessidade de as instituições agirem proativamente e com rigor diante de tais denúncias, garantindo que os responsáveis sejam devidamente punidos e que as vítimas recebam o apoio necessário. A determinação de Priscila em retomar seus estudos e a pressão social para que o caso seja resolvido de forma justa são passos essenciais na construção de um ambiente universitário verdadeiramente acolhedor e livre de preconceitos, onde a diversidade seja celebrada e protegida.
Perguntas frequentes
Quem é a estudante que denunciou o racismo na USP Ribeirão?
A estudante é Priscila Motta da Rocha Antônio, de 21 anos, aluna do primeiro ano do curso de Nutrição da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto.
Quais foram as principais agressões relatadas por Priscila?
Priscila relatou ter sido chamada de “a cota do grupo” de forma depreciativa, ter sua capacidade intelectual desmerecida em diversas ocasiões, sofrer uma agressão física leve com uma chave no braço e receber comentários racistas sobre sua vida pessoal e amorosa, além de ser recusada para um trabalho em dupla com a agressora.
Como a USP e outras instituições reagiram à denúncia?
Inicialmente, Priscila procurou a Comissão de Direitos Humanos (CDH) e a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP). Após a repercussão da denúncia nas redes sociais, a PRIP abriu um processo administrativo para investigar o caso. A USP, por meio de nota, afirmou que o caso foi encaminhado às instâncias responsáveis pela apuração e que os responsáveis serão submetidos às medidas administrativas e legais cabíveis. Uma reunião foi agendada com Priscila para discutir o andamento do processo.
Denúncias de racismo são fundamentais para a construção de um ambiente universitário mais justo e inclusivo. Se você testemunhou ou sofreu alguma forma de discriminação, procure os canais de apoio disponíveis em sua instituição.
Fonte: https://g1.globo.com