Casos de feminicídio superam registros oficiais em quase 40%, revela estudo

 Casos de feminicídio superam registros oficiais em quase 40%, revela estudo

© Tânia Rêgo/Agência Brasil

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O Brasil testemunhou um alarmante crescimento nos casos de feminicídio, com um levantamento especializado revelando números que superam significativamente as estatísticas oficiais. Em 2025, o país registrou 6.904 vítimas de feminicídio, entre casos consumados e tentados, representando um aumento de 34% em comparação com o ano anterior, quando 5.150 mulheres foram vitimadas. Este cenário, que equivale a quase seis mulheres mortas por dia, expõe a gravidade de uma violência enraizada e a persistente subnotificação de crimes. A disparidade entre os dados especializados e os registros públicos acende um alerta para a necessidade de abordagens mais eficazes na identificação, prevenção e combate a esses crimes hediondos, que continuam a ceifar vidas e desestruturar famílias.

O cenário alarmante da violência contra a mulher no Brasil

Os dados mais recentes sobre a violência de gênero no Brasil são profundamente preocupantes. Em 2025, foram contabilizadas 6.904 vítimas de feminicídio, abrangendo tanto as tentativas (4.755) quanto os assassinatos consumados (2.149). Esse volume representa uma média de 5,89 mulheres vitimadas diariamente, evidenciando uma escalada da violência em comparação com 2024, quando 5.150 casos foram registrados – um aumento de 34%.

No entanto, a verdadeira extensão do problema pode ser ainda maior. Um estudo detalhado sobre o tema aponta que o número de vítimas supera em 38,8% – ou seja, em mais de 600 casos – os dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), por meio do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Enquanto o levantamento especializado aponta para quase 7 mil vítimas, as informações oficiais mais recentes indicam 1.548 mulheres mortas por feminicídio em 2025.

A subnotificação e os desafios na identificação dos casos

A expressiva diferença entre os números de diferentes fontes reside principalmente na subnotificação dos casos de violência contra a mulher. Especialistas explicam que a ausência de denúncias por parte das vítimas e a falta de tipificação adequada dos crimes no momento do registro contribuem significativamente para essa distorção. Muitos casos de feminicídio podem ser registrados inicialmente como homicídios comuns, obscurecendo a motivação de gênero e a real dimensão do problema.

Para superar essa lacuna, a metodologia de estudos especializados inclui o monitoramento diário de fontes não estatais, como sites de notícias, que muitas vezes reportam os detalhes de mortes violentas intencionais de mulheres. Essa abordagem permite uma análise mais aprofundada, com pesquisadores capazes de identificar com maior precisão quando um caso configura tentativa ou feminicídio consumado. Em contraste, nem todos os municípios e estados possuem investimento em formação específica para que os profissionais da segurança pública identifiquem corretamente esse tipo de crime, perpetuando a subnotificação nos registros oficiais. Mesmo com essa metodologia aprimorada, os pesquisadores acreditam que os dados ainda podem ser inferiores à realidade, dada a invisibilidade de muitos crimes que não chegam sequer à imprensa.

Radiografia da violência: perfis de vítimas e agressores

A análise aprofundada dos quase 7 mil casos de feminicídio revela padrões alarmantes sobre o perfil das vítimas e dos agressores, bem como as circunstâncias em que esses crimes ocorrem.

O perfil das vítimas e o contexto da agressão

A violência de gênero atinge mulheres em diversos contextos, mas predomina no âmbito íntimo. Cerca de 75% dos casos consumados e tentados de feminicídio envolvem agressores que fazem ou fizeram parte do círculo de intimidade da vítima, como companheiros, ex-companheiros ou pais de seus filhos. Esse dado ressalta a periculosidade das relações de proximidade e a dificuldade de escapar do ciclo de violência doméstica.

A residência da vítima ou do casal é o palco principal desses crimes, com 38% das mulheres sendo mortas ou agredidas na própria casa e 21% na residência compartilhada. Em relação à faixa etária, a maioria das vítimas (30%) tinha entre 25 e 34 anos, com uma idade mediana de 33 anos. Um dado perturbador é que ao menos 22% das mulheres haviam realizado denúncias contra seus agressores anteriormente ao feminicídio, o que indica falhas na proteção e na efetividade das medidas preventivas. O impacto familiar é devastador: 69% das vítimas com dados conhecidos tinham filhos ou dependentes. Além disso, 101 vítimas estavam grávidas no momento da violência, e chocantes 1.653 crianças foram deixadas órfãs pela ação dos criminosos.

Quem são os agressores e quais os meios utilizados?

Quanto ao perfil do agressor, a idade média registrada é de 36 anos. A esmagadora maioria agiu individualmente, com 94% dos feminicídios sendo cometidos por uma única pessoa, em contraste com 5% praticados por múltiplas. O meio utilizado na execução dos crimes é igualmente relevante: quase metade (48%) dos casos foi perpetrada com arma branca, como faca, foice ou canivete, evidenciando a crueldade e a proximidade física na maioria dos ataques.

Após o feminicídio, em 7,91% dos casos com dados conhecidos, registrou-se a morte do suspeito, sendo a maioria decorrente de suicídio. Em contrapartida, a prisão do agressor foi confirmada em ao menos 67% das ocorrências

A violência negligenciada e o ciclo do feminicídio

O feminicídio não é um evento isolado ou inesperado; é, na maioria das vezes, o desfecho trágico de um ciclo de violências de múltiplos tipos que se desenvolvem em relações familiares e íntimas. A negligência social em identificar e intervir nesses ciclos é um fator crucial para a perpetuação desses crimes.

Machismo, misoginia e uma sociedade profundamente arraigada em valores masculinos contribuem para que os sinais de violência que precedem os feminicídios sejam ignorados ou minimizados. Exemplos recentes na imprensa mostram que, mesmo mulheres com medidas protetivas contra seus agressores, muitas vezes não recebem a proteção efetiva do Estado e acabam assassinadas. A masculinidade tóxica é um elemento central nesse cenário. Estudos apontam que redes sociais e grupos online, que fortalecem ideais machistas e misóginos, têm influenciado inclusive jovens e crianças, alimentando uma cultura de violência e desrespeito às mulheres. O combate ao feminicídio exige, portanto, uma mudança cultural profunda e a desconstrução de valores que naturalizam a violência de gênero.

Perspectivas e o caminho para a mudança

Os dados alarmantes sobre o aumento e a subnotificação do feminicídio no Brasil exigem uma resposta urgente e multifacetada da sociedade e do Estado. A disparidade entre os levantamentos especializados e os registros oficiais sublinha a necessidade de aprimorar os sistemas de coleta e análise de dados, garantindo que a real dimensão do problema seja conhecida para embasar políticas públicas eficazes. É fundamental investir na capacitação de todos os profissionais envolvidos, desde a linha de frente da segurança pública até os responsáveis por acolher as vítimas, para que saibam identificar e tipificar corretamente os crimes de gênero.

Além das ações repressivas, é imperativo fortalecer as medidas preventivas. Isso inclui campanhas de conscientização que combatam o machismo e a misoginia, promovam a igualdade de gênero e desconstruam a masculinidade tóxica desde a infância. A efetividade das medidas protetivas deve ser rigorosamente avaliada e aprimorada, assegurando que as mulheres que buscam ajuda encontrem acolhimento e segurança. Somente com um esforço coordenado e contínuo, que abranja a educação, a proteção e a justiça, será possível quebrar o ciclo da violência e reduzir as trágicas estatísticas do feminicídio no país.

Perguntas frequentes sobre feminicídio no Brasil

O que é feminicídio e como ele se diferencia de outros assassinatos de mulheres?
Feminicídio é o assassinato de uma mulher cometido “por razões da condição de sexo feminino”, ou seja, motivado pela misoginia, pelo ódio à mulher, pelo desprezo ou discriminação contra o gênero feminino. Diferentemente de outros homicídios, a Lei 13.104/2015 qualificou o homicídio como feminicídio quando envolve violência doméstica e familiar, menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

Por que os números de feminicídio divulgados por diferentes fontes variam tanto?
As variações ocorrem principalmente devido à subnotificação e às diferentes metodologias de coleta de dados. Enquanto os dados oficiais podem depender da correta tipificação do crime no registro policial e da denúncia da vítima, estudos especializados frequentemente monitoram múltiplas fontes, incluindo notícias, para identificar casos que podem ter sido registrados incorretamente ou não chegaram aos canais formais. A falta de capacitação de profissionais e a ausência de denúncias também contribuem para essa disparidade.

Quais são os principais fatores que contribuem para a ocorrência de feminicídios?
O feminicídio é o ponto final de um ciclo de violência, muitas vezes impulsionado por machismo, misoginia e uma cultura patriarcal. Fatores como a masculinidade tóxica, a impunidade, a falha do Estado em garantir a proteção de mulheres (mesmo com medidas protetivas) e a desvalorização social da mulher contribuem significativamente para a ocorrência desses crimes. A ausência de apoio para as vítimas e a negligência dos sinais de alerta também são elementos críticos.

Se você ou alguém que conhece precisa de ajuda, procure os canais de denúncia e apoio disponíveis. Ligue 180 ou busque a delegacia mais próxima para garantir a segurança e a justiça necessárias.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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