Semana de caos em SP: ventania histórica derruba energia, afeta aeroportos e
G1
A capital paulista e sua região metropolitana enfrentaram uma semana de caos em SP sem precedentes, desencadeada por uma ventania histórica que atingiu o estado. Com rajadas de vento que superaram os 98 km/h, o fenômeno deixou mais de 2 milhões de residências sem energia elétrica, impactou gravemente as operações aéreas e gerou um prejuízo econômico bilionário para o comércio e o setor de serviços. Este relatório detalha os transtornos que se estenderam por vários dias, desde a mobilidade urbana e o fornecimento de energia até os aeroportos e a rotina dos cidadãos, evidenciando a vulnerabilidade da infraestrutura paulistana diante de eventos climáticos extremos. A crise expôs fragilidades no planejamento de contingência e na resposta das concessionárias de serviços essenciais, provocando apelos por intervenção e responsabilização.
A fúria dos ventos: uma quarta-feira de destruição em São Paulo
A quarta-feira, dia 10 de dezembro de 2025, marcou o início de uma série de transtornos para os paulistanos, com ventos intensos que começaram pela manhã e persistiram até a noite. Desde as 9h, rajadas de vento ultrapassaram 75 km/h em diversas áreas, com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrando 80 km/h no Mirante de Santana, na Zona Norte. O pico da intensidade foi atingido na Lapa, Zona Oeste, onde o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) aferiu uma rajada impressionante de 98,1 km/h.
Rajadas sem precedentes e suas consequências imediatas
A Defesa Civil confirmou que a intensidade dos ventos era um efeito do ciclone extratropical que se formou no Sul do Brasil, estendendo seus impactos até a capital e a região metropolitana de São Paulo. O que mais surpreendeu meteorologistas e especialistas foi a longa duração do vendaval e o fato de ocorrer sem a presença de temporais. Em outras ocasiões de ventos igualmente fortes, como em setembro, o Campo de Marte havia registrado 98,2 km/h, mas sempre acompanhado de chuvas intensas. Desta vez, o céu permaneceu claro, com sol entre nuvens, caracterizando o evento como o de maior velocidade de rajada sem chuva desde o início das medições do Inmet em 1963.
O rastro de destruição foi visível em toda a capital e Grande São Paulo. Mais de 2 milhões de imóveis ficaram sem luz no auge do fenômeno, e a cidade registrou a queda de 151 árvores. Em pontos estratégicos, os estragos foram dramáticos: na Marginal Pinheiros, uma placa de sinalização ameaçou cair sobre veículos, exigindo a interdição de quatro faixas para reparo. Em Guarulhos, na Vila Galvão, a marquise de uma loja desabou sobre carros estacionados, felizmente sem feridos. Prédios e decorações natalinas também sofreram: a fachada do Colégio Guarapiranga entortou, placas de energia solar quase foram arrancadas, telhas voaram de um Centro de Educação Infantil na Vila Clementino e em Parelheiros, uma telha enorme bloqueou o trânsito. Até mesmo vidros de duas torres de um condomínio no Portal do Morumbi não resistiram, e decorações de Natal, incluindo um Papai Noel na Avenida Paulista e enfeites em Santana de Parnaíba, foram derrubadas. Em São Bernardo do Campo, a cobertura de um posto de gasolina cedeu.
O transporte público também sentiu os efeitos. A Linha 10–Turquesa da CPTM operou com intervalos maiores devido a uma avaria na rede aérea, causada pela queda de um cabo. A falha obrigou passageiros a rotas alternativas, com trens não parando na Estação Capuava. Para a segurança da população, parques como Ibirapuera, Eucaliptos, Jacintho Alberto, Jardim Felicidade, Tenente Faria Lima e Lajeado foram fechados temporariamente, assim como 12 parques estaduais da capital e região metropolitana. Tragicamente, Claudineia Perri Castiglioni, de 54 anos, faleceu em Sapopemba após ser atingida por um muro que desabou. Em resposta à crise, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) enviou um ofício à Enel, exigindo explicações sobre o desempenho da concessionária na recomposição da energia elétrica.
Quinta-feira sob o impacto do apagão prolongado
Mesmo mais de 24 horas após o início da ventania, a situação permanecia crítica na quinta-feira, dia 11. Quase 1,4 milhão de imóveis na região metropolitana ainda estavam sem energia elétrica, sendo que quase 1 milhão apenas na capital paulista. A lentidão no restabelecimento do serviço gerou frustração e questionamentos sobre a capacidade de resposta da concessionária. Pátios lotados de veículos de manutenção da Enel foram flagrados em diferentes pontos da cidade, com a empresa justificando que se tratavam de equipes de diferentes turnos. No entanto, a Enel admitiu não ter prazo para restabelecer a energia em milhares de imóveis.
Serviços essenciais comprometidos e prejuízos bilionários
A prolongada falta de energia elétrica desencadeou um efeito cascata, afetando diretamente o abastecimento de água em diversas regiões da capital e da Grande São Paulo. Sem eletricidade, as bombas de água não operam adequadamente, impedindo que o recurso chegasse às residências. A Sabesp listou bairros como Americanópolis, Cangaíba, Parelheiros, Parque do Carmo, Parque Savoy, Sacomã, Vila Clara, Vila Formosa e Vila Romana na cidade de São Paulo entre os afetados, além de municípios da Grande São Paulo como Itapecerica da Serra, Guarulhos, Cajamar, Mauá e Santa Isabel.
O trânsito também sofreu com a paralisação de quase 300 semáforos devido à falta de energia, a maioria no Centro da capital, com 260 apagados completamente e alguns em amarelo piscante, o que aumentou o risco de acidentes e intensificou os congestionamentos. A cidade registrava pelo menos 231 quedas de árvores desde quarta-feira, com 182 atendimentos já finalizados pela prefeitura até a noite de quinta. Uma segunda tragédia foi confirmada na tarde de quinta, quando um homem de 52 anos morreu na Rua Piauí, região central, após cair enquanto ajudava na remoção de um galho de árvore que bloqueava a calçada.
Nos aeroportos, o cenário era de caos. O Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, e o Aeroporto de Congonhas, na capital, acumularam 417 voos cancelados entre quarta e a noite de quinta, com mais de 100 cancelamentos apenas na quinta-feira. Em Guarulhos, foram pelo menos 15 partidas e 39 chegadas canceladas, enquanto Congonhas registrou 67 chegadas e 52 partidas suspensas até as 22h30. Companhias aéreas, como a Gol, chegaram a suspender temporariamente a venda de passagens. Passageiros enfrentaram filas intermináveis e muitos tiveram que dormir nos terminais, sem previsão de voo. Os reflexos da crise aérea se estenderam até aeroportos do Rio de Janeiro e de Brasília.
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) estimou um prejuízo de, no mínimo, R$ 1,54 bilhão em faturamento para o comércio e serviços da capital entre quarta e quinta-feira. O setor de serviços foi o mais atingido, com perdas superiores a R$ 1 bilhão, enquanto o comércio registrou um déficit de R$ 511 milhões. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, criticou publicamente a lentidão da Enel no restabelecimento da energia, questionando a eficácia dos planos de contingência da empresa e os investimentos em automação. Em um episódio revoltante, um funcionário de uma empresa parceira da Enel foi detido após admitir ter cobrado R$ 2,5 mil para religar a energia de um endereço na Vila Mariana, sendo preso em flagrante por corrupção passiva.
O terceiro dia de escuridão: apelos, revolta e cobranças
A sexta-feira, dia 12, amanheceu com a persistência do problema: quase 50 horas após o vendaval, mais de 700 mil pessoas na região metropolitana continuavam sem energia. As histórias de moradores e comerciantes à beira do desespero se multiplicavam.
Moradores e comerciantes à beira do desespero
Renato Rino, comerciante da Vila Invernada, Zona Leste, viu parte de seu bairro ter a energia restabelecida, mas sua casa, onde mora com os pais idosos, permanecia às escuras desde as 4h de quarta-feira. Ele expressou sua frustração com a falta de lógica na distribuição do serviço e a ausência de perspectivas. Laila Santos, sócia do restaurante africano Manden Baobá na Zona Sul, fez um apelo emocionado nas redes sociais após perder mercadorias e clientes devido a mais de 24 horas sem luz. Ela relatou a perda de uma grande reserva para uma confraternização de ONG, a impossibilidade de abrir o restaurante e a ineficácia de oito chamados à Enel.
Na Zona Norte, Camila Guimarães, analista do Jardim Elisa Maria, enviou um vídeo mostrando sua rua no terceiro dia consecutivo sem energia. Ela registrou alimentos estragando na geladeira e a completa escuridão na via, mesmo sem danos visíveis à rede. Camila compartilhou a difícil situação de sua avó idosa, que sofreu uma queda no escuro, e criticou o “descaso sem tamanho” da Enel, que sequer transferia as ligações para atendentes devido aos protocolos já abertos. “É revoltante o que nós estamos vivendo. A empresa simplesmente não atende o telefone, não dá uma previsão. Na nossa rua tem muitas famílias com gente acamada”, desabafou.
Diante do cenário de colapso, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, defendeu publicamente a intervenção federal na Enel. Em entrevista à rádio CBN, Nunes cobrou que o governo federal iniciasse o processo de caducidade da concessão e buscasse uma empresa capaz de atender às demandas da cidade. Mais tarde, em coletiva de imprensa, o prefeito acusou a Enel de “mentir” ao afirmar que tinha 1.500 equipes trabalhando na normalização do serviço. Ele categoricamente negou a informação, apontando que 48 árvores ainda aguardavam desligamento de energia pela concessionária para que a prefeitura pudesse realizar a remoção. Nunes alertou que a continuidade da Enel significaria a repetição dos problemas em anos futuros, reforçando a urgência de uma substituição da empresa. “Não é aceitável que a gente passe por isso, que tenha as pessoas sofrendo. E sabemos que não vai melhorar”, concluiu, em um forte apelo por uma solução definitiva.
Perguntas frequentes sobre o caos em São Paulo
Qual foi a causa da ventania histórica em São Paulo?
A forte ventania foi um efeito do ciclone extratropical que se formou no Sul do Brasil, estendendo seus impactos até a capital paulista e sua região metropolitana, com rajadas que chegaram a 98,1 km/h.
Qual o prejuízo econômico estimado pela falta de energia?
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) estimou um prejuízo de, no mínimo, R$ 1,54 bilhão para o comércio e o setor de serviços da capital devido à falta de eletricidade.
Quais foram as principais consequências para a população e os serviços?
Mais de 2 milhões de imóveis ficaram sem energia, afetando o abastecimento de água, causando o desligamento de quase 300 semáforos, o cancelamento de 417 voos em aeroportos e a queda de 231 árvores. Duas mortes foram registradas em decorrência dos eventos.
Houve alguma resposta das autoridades sobre a situação da Enel?
Sim, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) enviou um ofício à Enel exigindo explicações. O governador Tarcísio de Freitas criticou a lentidão da concessionária, e o prefeito Ricardo Nunes defendeu a intervenção federal na Enel e a caducidade de seu contrato, acusando a empresa de falhas graves na gestão da crise.
O balanço de uma crise e a busca por soluções
A semana de dezembro de 2025 ficará marcada na história de São Paulo como um período de adversidade e resiliência, onde a força da natureza expôs as vulnerabilidades de uma metrópole em relação à sua infraestrutura e à prontidão de seus serviços essenciais. A ventania inédita, sem precedentes em décadas pela sua intensidade sem a companhia de chuvas, desencadeou um efeito dominó que paralisou a mobilidade, comprometeu o fornecimento de energia e água, e impôs perdas bilionárias à economia local. Para além dos números, as histórias de moradores e comerciantes sem luz por dias a fio, com prejuízos materiais e impactos na saúde, ressaltam a dimensão humana da crise. A reação das autoridades, com cobranças públicas e pedidos de intervenção, sublinha a urgência de uma revisão nos contratos de concessão e nos planos de contingência das empresas de serviço. É imperativo que este evento sirva como catalisador para investimentos robustos em infraestrutura e em sistemas de resposta a emergências mais eficientes, garantindo que os paulistanos não precisem enfrentar tamanha provação novamente. A busca por responsabilidade e soluções duradouras é fundamental para reconstruir a confiança e preparar a cidade para os desafios futuros.
Para se manter atualizado sobre as análises pós-crise e as medidas tomadas para prevenir futuros colapsos, acompanhe nossas próximas reportagens.
Fonte: https://g1.globo.com