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Fiocruz Homenageia Cientistas Vítimas do AI-5: Um Resgate Histórico da Ciência e Democracia
© Divulgação/ Acervo Fiocruz
Em um ato carregado de simbolismo e justiça, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) concedeu, nesta quarta-feira (5), o título de pesquisador emérito a nove cientistas que sofreram a cassação de seus direitos políticos e profissionais em 1970, durante a ditadura militar. Conhecido como o trágico “Massacre de Manguinhos”, este episódio marcou um dos períodos mais sombrios da história da instituição e da ciência brasileira. A homenagem, realizada no Dia Nacional da Saúde e no aniversário do patrono Oswaldo Cruz, reafirma a inquebrantável ligação entre a liberdade de pensamento científico e os pilares da democracia.
O Resgate da Memória e a Reafirmação de Valores
A cerimônia ocorreu nas emblemáticas escadarias do Castelo Mourisco, sede da Fiocruz no Rio de Janeiro, o mesmo local onde, há quatro décadas, sob a gestão de Sérgio Arouca, esses e outros profissionais foram reincorporados à instituição, sinalizando o início do processo de redemocratização do país. O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, destacou a importância deste reencontro com o passado, lembrando que os pesquisadores foram brutalmente afastados de suas funções pelo Ato Institucional Número 5 (AI-5) e, ainda mais restritivamente, proibidos de ocupar qualquer cargo público pelo AI-10.
Moreira salientou o caráter político e profundo da reintegração de 1986, um gesto que então buscava afastar os riscos de regimes autocráticos. Hoje, o momento é igualmente oportuno para a Fiocruz fortalecer a defesa da ciência e da democracia. Em um cenário contemporâneo de negacionismo e proliferação de desinformação, a Fundação reafirma a pesquisa científica como um alicerce fundamental para a construção de uma nação mais justa e igualitária, ecoando o legado e a luta dos que foram silenciados.
Legado Científico e Pedagógico dos Homenageados
Os cientistas ora homenageados não foram apenas vítimas de uma repressão política; eles foram figuras centrais no desenvolvimento da ciência brasileira, produzindo conhecimento essencial para os grandes desafios da saúde de sua época. Além de pesquisadores, muitos atuaram como professores e mentores de pós-graduação, moldando gerações de novos cientistas. O presidente da Fiocruz fez questão de frisar que a excelência da instituição, consolidada ao longo do tempo, é um testemunho direto da dedicação e do trabalho inovador desenvolvido por esses profissionais, que, mesmo sob perseguição, contribuíram imensamente para o avanço da saúde pública no Brasil.
A solenidade também estendeu seu reconhecimento a outras personalidades. Walter Oswaldo Cruz, filho do patrono da fundação e um dos fundadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), recebeu igualmente o título de pesquisador emérito, reforçando a linhagem de compromisso com a ciência. Houve ainda uma homenagem especial à chanceler da Universidade Santa Úrsula, madre Maria de Fátima. Seu apoio inestimável permitiu que vários cientistas cassados, como Herman Lent, Domingos Arthur Machado Filho e Hugo de Souza Lopes, encontrassem refúgio acadêmico e pudessem continuar lecionando, preservando o saber em tempos de escuridão.
Os Rostos da Resistência: Exemplos de Uma Luta Contínua
Os nove pesquisadores que receberam o título emérito são: Augusto Cid de Mello Perissé, Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, Haity Moussatché, Fernando Braga Ubatuba, Moacyr Vaz de Andrade, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Sebastião José de Oliveira e Domingos Arthur Machado Filho. Adicionalmente, foi realizada a entrega simbólica do título aos herdeiros de Herman Lent, uma figura que também sofreu a cassação em 1970 e já havia sido agraciado com a honraria em 2004.
A história de Augusto Périssé (1917–2008), por exemplo, ilustra o profundo impacto da repressão. Nascido em Barbacena (MG), farmacêutico pela Universidade do Brasil e Doutor em Ciências pela USP, Périssé ingressou no Instituto Oswaldo Cruz em 1943. Sua atuação foi vital na organização do Laboratório de Química Orgânica. Apesar de aprovado em concurso para a cátedra da USP em Ribeirão Preto, o AI-5 impediu sua posse. Suas pesquisas pioneiras sobre o veneno de diplópodes brasileiros, visando o desenvolvimento de anestésicos inovadores, foram abruptamente interrompidas. No exílio, recusou uma diretoria de pesquisa no INSERM, em Paris, por exigir naturalização francesa, um testemunho de sua inabalável identidade brasileira. Sua trajetória é um entre muitos exemplos da capacidade de resiliência e da perda irreparável que a ditadura impôs à intelectualidade do país.
Conclusão: Um Compromisso com o Futuro
A homenagem da Fiocruz transcende o reconhecimento individual desses notáveis cientistas; ela representa um compromisso institucional com a memória, a verdade e a defesa intransigente dos valores democráticos. Ao revisitar o “Massacre de Manguinhos”, a Fundação não apenas presta justiça a uma geração de intelectuais injustiçados, mas também envia uma mensagem poderosa para o presente e o futuro: a ciência, em sua essência, é um ato de liberdade, e sua integridade é indissociável da saúde de uma nação. A história dos pesquisadores cassados é um lembrete vívido de que a vigilância democrática é perene e que o conhecimento deve sempre florescer em um ambiente de liberdade e respeito.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br