Europa se alinha com EUA e Israel contra o Irã, Espanha diverge

 Europa se alinha com EUA e Israel contra o Irã, Espanha diverge

© Aleksandr Grechanyuk/Divulgação

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A postura da Europa diante do crescente conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã revela uma divisão notável, com a maioria dos principais países europeus oferecendo apoio político e até mesmo de defesa às ações contra Teerã. Essa dinâmica complexa, que tem no Irã seu principal alvo para uma alegada “mudança de regime”, levanta questões significativas sobre o direito internacional e a coesão do bloco europeu. Enquanto nações como Reino Unido, França e Alemanha se alinham com Washington e Tel Aviv, justificando as operações e exigindo condições do país persa, a Espanha adota uma posição veementemente contrária. A Europa e o conflito no Irã se tornam um ponto focal de tensões geopolíticas, onde a diplomacia e a legalidade internacional são postas à prova, influenciando o futuro do Oriente Médio e as relações globais. Este cenário reflete pressões e interesses diversos dentro do continente.

Europa e o apoio às ações contra o Irã

A postura das potências: Reino Unido, França e Alemanha
As principais potências europeias – Reino Unido, França e Alemanha – têm demonstrado um alinhamento estratégico com os Estados Unidos e Israel no contexto das tensões com o Irã. Apesar dos ataques contra Teerã serem vistos por muitos como violações do direito internacional, esses países evitaram condená-los abertamente. Em vez disso, buscaram justificar as ações militares, atribuindo ao Irã a responsabilidade pela escalada do conflito. Além disso, as potências europeias têm imposto exigências para que o governo iraniano aceite as condições estabelecidas por Washington e Tel Aviv.

O Reino Unido, por exemplo, não apenas se absteve de condenar os ataques, mas também manifestou repúdio às retaliações iranianas contra bases norte-americanas na região. Paralelamente, Londres tem fornecido suporte logístico crucial para as operações de Washington, utilizando suas bases militares no Oriente Médio. A França, por sua vez, enquanto anuncia planos para expandir seu próprio arsenal de ogivas nucleares, critica veementemente o programa nuclear iraniano, alegando que este não teria fins pacíficos, mesmo diante de declarações do Irã em contrário. O presidente francês, Emmanuel Macron, chegou a enviar dois navios de guerra para o Oriente Médio, com o objetivo declarado de participar de “operações defensivas” europeias na região.

A Alemanha também se posicionou de forma alinhada, afirmando que não era o momento para “dar lições” aos parceiros envolvidos na agressão contra o Irã. Berlim declarou compartilhar dos objetivos dos EUA e de Israel de promover uma “mudança de regime” em Teerã, chegando a se oferecer para contribuir com a “recuperação econômica” do país persa após o conflito. Em uma declaração conjunta, Alemanha, França e Reino Unido exigiram o fim dos “ataques imprudentes” do Irã e anunciaram a intenção de tomar as ações “defensivas” necessárias para “destruir a capacidade do Irã de lançar mísseis e drones em sua origem”.

Outros apoios na Europa: Portugal e Itália
Portugal e Itália também têm desempenhado papéis relevantes no suporte à estratégia anti-iraniana. O governo português concedeu autorização para que os Estados Unidos utilizem suas bases militares nos Açores. Embora Lisboa tenha enfatizado que não está diretamente envolvida nos ataques e exija o fim do programa nuclear iraniano, a concessão da base representa um apoio logístico significativo. O primeiro-ministro português, Luís Montenegro, confirmou que a autorização foi dada de forma condicionada, mas efetiva.

A Itália, por sua vez, não condenou a agressão inicial contra o Irã, mas focou suas críticas nas retaliações de Teerã que atingiram bases norte-americanas no Oriente Médio. Roma tem trabalhado para fortalecer o apoio de defesa aos países do Golfo e expressou solidariedade à “população civil” iraniana, criticando a “repressão violenta e injustificável” que esta sofre ao exigir seus direitos.

A análise da posição europeia

Unidade europeia em questão e o direito internacional
A posição assumida pela maioria dos países europeus neste conflito tem sido objeto de análise crítica por especialistas em relações internacionais. Segundo o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, a Europa, com a notável exceção da Espanha, tomou um lado claro em favor dos Estados Unidos e de Israel. Ele destaca que, ao denominar o governo e o Estado iranianos como criminosos em meio a um cenário de guerra, a Europa efetivamente se posiciona, independentemente do grau de sua participação militar direta.

Teixeira da Silva também aponta uma preocupante omissão: em nenhum momento, França, Alemanha e Reino Unido – membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) – convocaram uma reunião para discutir a situação. Para o historiador, essa inação atende à posição americana de evitar que o debate seja levado às Nações Unidas, resultando na ausência de uma condenação ética da guerra, mesmo diante das violações do direito internacional. A fragilidade do direito e da legalidade internacionais é acentuada, especialmente porque os ataques contra o Irã ocorreram em meio a negociações com os Estados Unidos, tornando a ideia de negociar com o adversário desprovida de sentido. Em resposta a este apoio europeu, a Guarda Revolucionária do Irã emitiu um alerta, afirmando que navios dos EUA, Israel e países europeus não deveriam cruzar o Estreito de Ormuz, uma rota vital para o comércio mundial de petróleo.

A barganha com os EUA e o papel da Alemanha
A postura europeia pode ser interpretada, em parte, como uma tentativa de barganhar uma posição favorável junto a Washington. O professor Chico Teixeira sugere que os países da União Europeia buscam mostrar-se como aliados valiosos, apoiando Israel, em troca de serem “deixados em paz” pelos EUA, evitando, por exemplo, ameaças como a de um hipotético desmonte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ou a retórica de Donald Trump sobre a anexação da Groenlândia.

Contudo, o especialista observa que essa “velha política tradicional da Europa” parece ter um impacto limitado, pois os Estados Unidos, atualmente, veem a Europa como “dispensável”. A Alemanha, em particular, é vista como a nação com a posição mais pró-EUA. A visita do premier Friedrich Merz à Casa Branca em meio ao conflito foi citada como um exemplo da “subserviência” alemã, especialmente considerando que Merz criticou o governo iraniano como “assassino e bárbaro”, mas não proferiu palavras semelhantes sobre os massacres ocorridos em Gaza.

A exceção espanhola: um “não à guerra”

Madri contra a corrente europeia
Em contraste com a maioria de seus parceiros europeus, o governo espanhol de Pedro Sánchez adotou uma posição de forte divergência, expressando duras críticas à guerra movida pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã. Sánchez enfatizou que a questão fundamental não era apoiar o regime dos aiatolás, mas sim defender o direito internacional e a paz. Ele recordou os fracassos da Guerra do Iraque, liderada pelos EUA, como um exemplo das consequências negativas de intervenções militares desautorizadas.

O primeiro-ministro espanhol alertou que a Guerra do Iraque resultou em um aumento dramático do terrorismo jihadista, uma grave crise migratória no Mediterrâneo Oriental e uma subida generalizada dos preços da energia, impactando diretamente o custo de vida. A firmeza da posição de Sánchez foi reconhecida internacionalmente, com o jornal britânico The Financial Times destacando que o líder espanhol “ousou dizer ao presidente Trump o que nenhum outro líder europeu se atreve a dizer”.

A postura de Madri, no entanto, provocou a irritação do então presidente dos EUA, Donald Trump, que chegou a ameaçar cortar relações comerciais com a Espanha. Posteriormente, o governo norte-americano recuou, informando que a Espanha teria concordado em cooperar com a guerra. Contudo, o governo espanhol negou categoricamente qualquer mudança em sua posição em relação ao conflito, reafirmando seu compromisso com o direito internacional e a solução pacífica de disputas.

Implicações e o futuro da região
A divisão no cenário europeu em relação ao conflito no Irã sublinha a complexidade das relações internacionais contemporâneas e a tensão entre interesses nacionais e a observância do direito internacional. Enquanto a maioria dos países da Europa prioriza o alinhamento com os Estados Unidos e Israel, a voz dissidente da Espanha ressoa como um alerta para as potenciais consequências de uma escalada militar na região. A fragilidade das normas internacionais, a ausência de um consenso no Conselho de Segurança da ONU e as motivações geopolíticas subjacentes moldam um cenário onde a paz e a estabilidade no Oriente Médio permanecem precárias. O futuro das relações com o Irã e a própria unidade europeia dependerão, em grande medida, da capacidade de equilibrar alianças estratégicas com o respeito aos princípios de soberania e não intervenção. A crise atual pode redefinir o papel da Europa no tabuleiro global, exigindo uma reavaliação de suas prioridades e da eficácia de suas políticas externas.

Perguntas frequentes (FAQ)

Qual a posição da maioria dos países europeus em relação ao conflito entre EUA/Israel e Irã?
A maioria dos principais países europeus, incluindo Reino Unido, França e Alemanha, tem oferecido apoio político e logístico aos esforços dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, justificando as ações e exigindo que Teerã aceite suas condições.

Por que a Espanha se diferencia dos demais países europeus neste conflito?
O governo espanhol, liderado por Pedro Sánchez, defende o direito internacional e a paz, criticando a guerra e alertando para as consequências negativas de intervenções militares, como a Guerra do Iraque. Madri nega qualquer apoio às ações militares contra o Irã.

Como Portugal e Itália têm contribuído para as ações contra o Irã?
Portugal concedeu aos EUA o uso de suas bases militares nos Açores para suporte logístico. A Itália tem fortalecido o apoio de defesa aos países do Golfo e criticado as retaliações iranianas, sem condenar a agressão inicial contra o Irã.

Qual a crítica de especialistas sobre a postura europeia?
Especialistas apontam que a Europa assumiu um lado no conflito, negligenciando o direito internacional ao não levar a discussão ao Conselho de Segurança da ONU. Também sugerem que a postura europeia pode ser uma tentativa de barganhar com os EUA, buscando reconhecimento como aliados valiosos.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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