Calor eleva risco de acidente vascular cerebral, alerta neurocirurgião
© Tomaz Silva/Agência Brasil
O aumento das temperaturas, especialmente durante o verão, acende um alerta significativo para a saúde cardiovascular e cerebral da população. Especialistas indicam que o período de calor intenso pode ser um fator de risco para o desenvolvimento de Acidente Vascular Cerebral (AVC), uma condição grave que representa uma das principais causas de morte e incapacidade em todo o mundo. A desidratação, alterações na pressão arterial e hábitos típicos da estação contribuem para a maior predisposição ao AVC isquêmico, o tipo mais comum, caracterizado pela formação de coágulos que obstruem vasos cerebrais. A compreensão desses riscos e a adoção de medidas preventivas são cruciais para a proteção da saúde nesse período.
Fatores de risco relacionados ao calor
A relação entre o calor e o aumento dos casos de AVC é multifacetada e envolve diversos mecanismos fisiológicos. O corpo humano reage ao aumento da temperatura de maneiras que, paradoxalmente, podem elevar a vulnerabilidade a eventos vasculares cerebrais.
Desidratação e espessamento do sangue
Um dos fatores primordiais é a desidratação. No verão, a perda de líquidos através da transpiração é intensificada, o que, se não for adequadamente reposto, leva à diminuição do volume de água no organismo. Essa carência hídrica natural das células resulta em um sangue mais espesso e concentrado. De acordo com o neurocirurgião e neurorradiologista intervencionista Orlando Maia, essa maior densidade sanguínea favorece significativamente a formação de coágulos. O AVC isquêmico, responsável pela vasta maioria dos casos (cerca de 80%), é diretamente causado pela obstrução de um vaso cerebral por um desses coágulos, impedindo o fluxo sanguíneo e a oxigenação de parte do cérebro.
Alterações na pressão arterial e arritmia cardíaca
Além da desidratação, o calor exerce influência direta sobre a pressão arterial. Para compensar as altas temperaturas, os vasos sanguíneos do corpo se dilatam, um processo conhecido como vasodilatação. Essa dilatação tende a causar uma diminuição da pressão arterial, o que, por sua vez, pode favorecer a formação de coágulos. Em paralelo, a desidratação e o estresse térmico também podem desencadear ou agravar condições cardíacas como a arritmia, um batimento cardíaco irregular. Quando o coração bate fora do ritmo, há uma maior propensão à formação de coágulos dentro das câmaras cardíacas. Esses coágulos podem se desprender e viajar pela corrente sanguínea, apresentando alta probabilidade de atingir o cérebro, dado que cerca de 30% de todo o sangue bombeado pelo coração se direciona para esse órgão vital.
Outros hábitos e condições de risco
O cenário de férias e relaxamento típico do verão, embora desejável, pode inadvertidamente contribuir para hábitos que aumentam a exposição ao risco de AVC, somando-se aos fatores climáticos.
Consumo de álcool e negligência
O período de férias frequentemente associa-se a um aumento no consumo de bebidas alcoólicas. O álcool é um diurético, o que significa que ele intensifica a perda de líquidos e, consequentemente, agrava a desidratação do organismo. Além disso, o consumo de álcool pode aumentar a possibilidade de arritmias cardíacas, como já mencionado. A negligência, outro aspecto preocupante das férias, pode levar à interrupção ou esquecimento da medicação contínua, essencial para o controle de doenças crônicas como hipertensão e diabetes, que são fatores de risco conhecidos para o AVC. A falta de adesão ao tratamento medicamentoso eleva drasticamente a vulnerabilidade.
Doenças típicas de verão e estilo de vida moderno
As doenças comuns do verão, como gastroenterite (que causa diarreia), insolação e o excesso de esforço físico, também contribuem para o risco de AVC. Todas essas condições podem levar à desidratação, desequilíbrio eletrolítico e um estresse adicional ao sistema cardiovascular, culminando em uma maior tendência ao AVC. Adicionalmente, o estilo de vida contemporâneo, marcado por sedentarismo, má alimentação e estresse, quando aliado ao tabagismo e doenças crônicas não controladas, tem provocado um alarmante aumento nos casos de AVC em indivíduos com menos de 45 anos. Hospitais, como o Quali Ipanema no Rio de Janeiro, relatam um atendimento mensal de cerca de 30 pacientes com AVC no verão, o dobro em comparação com outras épocas do ano, evidenciando a gravidade da situação.
O perigo do tabagismo
O tabagismo emerge como uma das mais significativas causas externas de AVC. O fumo contribui para a formação de doenças cerebrovasculares, incluindo aneurismas, intimamente ligados à nicotina. A nicotina bloqueia a elastina, uma proteína essencial para a elasticidade dos vasos sanguíneos, diminuindo sua flexibilidade e favorecendo o AVC hemorrágico, causado pelo rompimento de um vaso. Além disso, o tabaco provoca um processo inflamatório nos vasos, facilitando a aderência de placas de colesterol a longo prazo e o entupimento das artérias, o que predispõe ao AVC isquêmico. Portanto, o tabaco é um fator diretamente proporcional ao risco de ambos os tipos de AVC.
Impacto e prevenção
O Acidente Vascular Cerebral não é apenas uma doença individual, mas uma condição que afeta profundamente o núcleo familiar e social do paciente.
Consequências devastadoras
O AVC figura entre as principais causas de morte e incapacidade permanente no mundo. Suas sequelas são variadas e podem incluir dificuldades de locomoção, fala, visão ou alimentação autônoma, dependendo da área do cérebro afetada. O neurocirurgião Orlando Maia descreve o AVC como uma “doença da família”, pois demanda a dedicação de pelo menos duas pessoas para o cuidado do paciente. A abrangência das sequelas destaca a natureza crítica do AVC, transformando profundamente a vida daqueles que sobrevivem e de seus cuidadores. A doença é tão comum que uma em cada seis pessoas terá um AVC ao longo da vida, e casos familiares não são incomuns, reforçando a importância de estar atento aos históricos de saúde.
A importância da prevenção
A boa notícia é que o AVC é uma doença prevenível e tratável. A prevenção baseia-se primordialmente em hábitos de vida saudáveis: prática regular de exercícios físicos (pelo menos três vezes por semana), alimentação balanceada, controle rigoroso da pressão arterial, adesão correta à medicação prescrita e, crucialmente, o abandono do tabagismo. Essas medidas simples, mas eficazes, podem reduzir drasticamente o risco de desenvolver a doença.
Avanços no tratamento
Enquanto no passado as opções de tratamento para o AVC eram limitadas, os avanços na medicina transformaram o prognóstico para muitos pacientes.
Tratamento emergencial e métodos de intervenção
Atualmente, existem duas formas principais de tratamento emergencial para o AVC isquêmico, e a rapidez no atendimento é um fator crítico para o sucesso. O primeiro é a infusão de um medicamento intravenoso que dissolve o coágulo, restaurando o fluxo sanguíneo. No entanto, este tratamento só é eficaz se administrado dentro de quatro horas e meia após o início dos sintomas. Em casos onde a medicação não é suficiente ou em situações mais selecionadas, é possível realizar uma intervenção por cateter. Um cateter é inserido na virilha do paciente e guiado até o vaso cerebral obstruído para aspirar ou remover fisicamente o coágulo. Este método, a trombectomia mecânica, pode ser realizado em até 24 horas a partir do início dos sintomas em determinados pacientes. Quanto antes o paciente chegar ao hospital, maior a chance de um resultado positivo e de uma recuperação sem sequelas graves.
Reconhecendo os sintomas
É fundamental reconhecer os sintomas de um AVC para agir rapidamente. Os sinais de alerta são frequentemente súbitos e incluem: paralisia ou fraqueza repentina em um membro ou em um lado do corpo, dificuldade para falar (fala enrolada ou incapacidade de se comunicar), perda súbita da visão em um olho ou parte do campo visual, tontura extrema ou perda súbita de consciência. Ao observar qualquer um desses sintomas, é imperativo procurar atendimento médico de emergência imediatamente. Não se deve esperar, pois cada minuto é crucial para salvar o cérebro e minimizar as sequelas.
Perguntas frequentes
O que é AVC e quais são seus tipos principais?
O AVC (Acidente Vascular Cerebral) ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma parte do cérebro é interrompido. Existem dois tipos principais: o AVC isquêmico, que representa cerca de 80% dos casos e é causado por um coágulo que bloqueia um vaso sanguíneo, e o AVC hemorrágico, que corresponde a aproximadamente 20% dos casos e resulta do rompimento de um vaso cerebral.
Por que o calor aumenta o risco de AVC?
O calor intenso pode aumentar o risco de AVC principalmente por causar desidratação, que espessa o sangue e favorece a formação de coágulos. Além disso, as altas temperaturas podem levar à vasodilatação, diminuindo a pressão arterial e, em alguns casos, desencadeando arritmias cardíacas, que também elevam o risco de coágulos.
Quais são os sintomas de um AVC e o que fazer ao identificá-los?
Os sintomas de um AVC geralmente surgem de forma súbita e podem incluir: fraqueza ou paralisia de um lado do corpo, dificuldade na fala ou compreensão, perda de visão súbita, tontura intensa ou perda de consciência. Ao identificar qualquer um desses sinais, é crucial procurar atendimento médico de emergência imediatamente, pois o tempo é essencial para o tratamento e a redução das sequelas.
Para proteger sua saúde e minimizar os riscos de Acidente Vascular Cerebral, especialmente em períodos de calor intenso, adote um estilo de vida saudável, mantenha-se hidratado e consulte seu médico regularmente para monitorar sua saúde.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br