Áudios inéditos revelam calma nas comunicações de pilotos antes da queda em

 Áudios inéditos revelam calma nas comunicações de pilotos antes da queda em

G1

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A tragédia aérea ocorrida em Vinhedo, interior de São Paulo, em agosto de 2024, ganhou novos e intrigantes detalhes com a revelação de áudios inéditos. As gravações, tornadas públicas um ano após o acidente, capturam as últimas comunicações entre os pilotos da aeronave e o controle de tráfego aéreo minutos antes da queda fatal. O conteúdo desses áudios choca ao revelar um diálogo rotineiro e tranquilo, sem qualquer indicação de pane ou emergência, contrastando drasticamente com os eventos catastróficos que se desenrolavam simultaneamente a bordo. Especialistas e o relatório preliminar da investigação apontam que, apesar da aparente normalidade externa, a aeronave enfrentava sérios problemas internos, especialmente relacionados à formação de gelo, o que comprometeu severamente seu desempenho.

Áudios inéditos e a ausência de alertas na comunicação externa

As conversas entre a tripulação e o controle de tráfego aéreo, obtidas a partir de diferentes frequências de comunicação, oferecem um panorama dos momentos finais antes do impacto. O surpreendente é a ausência total de qualquer sinal de pânico ou anormalidade nas vozes dos pilotos. A comunicação seguiu um padrão protocolar, típico de uma aproximação para pouso, sem que nenhuma falha fosse reportada aos controladores.

Os diálogos minuto a minuto com o controle de tráfego aéreo

A sequência de interações teve início às 13h14min21s, com uma instrução para mudança de frequência.
13h14min21s Controle: “Passaredo 2283, por gentileza, chame o controle de São Paulo na frequência 135,75 MHz”. Piloto: “135,75, vai chamar Passaredo 2283. Obrigado”.
13h14min36s (já na nova frequência) Piloto: “São Paulo, Passaredo 2283, informação Sierra” (referindo-se às informações meteorológicas).
13h14min40s Controle: “Passaredo 2283, confirme como recebe o controle”. Piloto: “Com eco, senhora”.
13h14min49s Controle: “Ok, Passaredo 2283, por gentileza retorne à frequência 120,925 MHz”. Piloto: “120,925 vai retornar”.
13h14min59s (de volta à frequência anterior) Piloto: “São Paulo, Passaredo 2283”. Controle: “Passaredo 2283, grata pela gentileza. Mantenha nível 170 ”. Piloto: “170 vai manter. Não por isso, senhora”.

Pouco depois, às 13h18min21s, o piloto informou estar no ponto ideal de descida, mas recebeu instrução para manter a altitude. O último áudio disponível, às 13h18min53s, registrava a instrução do controle para nova mudança de frequência, com a resposta habitual do piloto. Nesse exato momento, o painel da aeronave já indicava, pela primeira vez, um alerta de perda de velocidade, sem que isso fosse comunicado externamente.

O que as gravações não revelam imediatamente

É crucial notar que nem todas as comunicações da aeronave estão contidas nos áudios revelados. Os primeiros contatos com o Controle de Aproximação de São Paulo (APP-SP), por volta das 13h05, e as mensagens finais, a partir das 13h19min07s, quando os pilotos mudaram para uma terceira frequência, não foram divulgados nas gravações. No entanto, descrições dessas últimas mensagens, presentes no relatório preliminar do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), também não apontam para qualquer indicação de emergência.

Alertas internos na cabine e o compromisso da aeronave

Enquanto a comunicação externa transcorria de forma tranquila, as informações recuperadas das caixas-pretas da aeronave, um ATR 72-500, contavam uma história bem diferente dentro da cabine. O relatório preliminar do Cenipa revelou que o acúmulo de gelo já vinha comprometendo o desempenho do avião, ativando uma série de alertas luminosos e sonoros que indicavam detecção de gelo e queda na velocidade.

Relatório preliminar do Cenipa e a detecção de gelo

O Cenipa, responsável pela investigação, tem focado na análise dos sistemas de degelo da aeronave e no desempenho técnico da tripulação. A formação de gelo é considerada um fator crítico, embora os investigadores ressaltem que acidentes aéreos raramente têm uma única causa. A linha de investigação sugere que o gelo, ao se acumular nas asas e outras superfícies, alterou a aerodinâmica e o peso da aeronave, dificultando seu controle.

A cronologia dos eventos: cabine versus torre de controle

O cruzamento das informações das caixas-pretas com os áudios externos revelou um descompasso alarmante entre o que era percebido dentro da cabine e o que era comunicado:
13h17min20s: O detector de gelo, que estava aceso, apagou-se. Simultaneamente, o copiloto solicitava informações à comissária para repassar ao despachante operacional.
13h17min32s: O aviso do detector de gelo reapareceu no painel. O comandante, neste momento, informava os passageiros sobre as condições e o horário previsto para o pouso.
13h18min41s: A aeronave desacelerou para 353 km/h, ativando o alerta “CRUISE SPEED LOW” com um tom sonoro, indicando que o gelo impedia a manutenção da velocidade programada. O copiloto terminava de repassar informações ao despacho operacional.
13h18min55s: Um alarme único soou na cabine. O comandante falava com o controle de tráfego aéreo.
13h19min28s: A velocidade caiu para 340 km/h, disparando o alerta “DEGRADED PERFORMANCE”, sinalizando desempenho comprometido devido à formação de gelo. Este alarme coincidiu com a troca de mensagens entre o controle e a tripulação.
13h20min00s: O copiloto comentou: “bastante gelo”. Cinco segundos depois, o sistema de degelo foi ligado.

Apesar da crescente severidade dos alertas internos, a comunicação externa permaneceu inabalável em sua rotina.

Contexto pré-acidente: avisos e condições climáticas

A situação de risco devido à formação de gelo não era um evento isolado. Outros pilotos já haviam reportado condições semelhantes na região, e até mesmo o copiloto do voo 2283 havia enfrentado turbulência e gelo em um voo anterior no mesmo dia.

Relatos de gelo de outros voos na região

Pelo menos três outras aeronaves alertaram o controle de tráfego aéreo de São Paulo sobre formação de gelo em horários próximos ao acidente:
13h15min (cerca de sete minutos antes da queda): A aeronave TAM 3361 reportou “Gelo moderado nível 190 próximo ao GR249”.
13h26min (quatro minutos após o acidente): O voo 2325 relatou “449 está pegando gelo desde EVRAL”.
13h27min (cinco minutos após o acidente): O controle avisou o Gol 7481 sobre gelo, que o piloto confirmou como “gelo leve”.

Esses relatos indicam que as condições para formação de gelo eram conhecidas e presentes na área de operação.

A experiência do copiloto em voo anterior

Horas antes do voo fatídico, o copiloto Humberto Alencar enviou um áudio à esposa relatando as condições do voo de ida para Cascavel. Na gravação, ele descreveu uma viagem com “90% turbulência, gelo. 90% do voo foi com o cinto atado, sinal luminoso de cintos atados”. A menção reitera o conhecimento da tripulação sobre as condições climáticas adversas e a presença de gelo.

A tragédia de Vinhedo e as investigações em curso

O acidente, que envolveu 58 passageiros e quatro tripulantes, culminou com a queda da aeronave em um condomínio residencial em Vinhedo. Milagrosamente, nenhum morador em solo ficou ferido, embora o impacto tenha atingido o quintal de uma residência.

Os últimos momentos da aeronave

O avião decolou às 11h58 e manteve um voo estável até cerca das 12h20, atingindo 5 mil metros de altitude às 12h23. Ele permaneceu nessa altitude até as 13h21, quando começou a perder altitude rapidamente, realizando uma curva brusca. Às 13h22, um minuto após o último registro de altitude estável, a aeronave estava a 1.250 metros, uma queda de 4 mil metros em apenas um minuto, a uma velocidade de 440 km/h, culminando na colisão com o solo às 13h22min30s.

A resposta da Voepass e o apoio às vítimas

A Voepass, companhia aérea responsável pelo voo 2283, expressou que a queda foi “o episódio mais difícil” de sua história. Em nota, a empresa manifestou solidariedade às famílias das vítimas, assegurando que mantém “suporte psicológico ativo” e apoia as homenagens realizadas. A Voepass reiterou seu compromisso com a segurança e a transparência nas investigações, destacando mais de 30 anos de operações sem acidentes prévios e o cumprimento rigoroso de padrões de segurança internacionais, incluindo a certificação IOSA e acompanhamento da ANAC. A companhia informou estar empenhada na resolução das questões indenizatórias e colaborando ativamente com as autoridades na apuração dos fatos.

Conclusão da análise

A análise dos áudios inéditos e dos dados da caixa-preta revela uma complexa dicotomia nos instantes que antecederam a queda do avião em Vinhedo. Enquanto a comunicação externa dos pilotos transmitia uma imagem de total normalidade e controle, os sistemas internos da aeronave sinalizavam insistentemente sobre o comprometimento do voo, especialmente pela formação de gelo. Essa discrepância levanta questões cruciais sobre a tomada de decisão da tripulação e a eficácia dos procedimentos em situações de risco silencioso. As investigações do Cenipa, que buscam compreender a interação entre os fatores meteorológicos, o desempenho da aeronave e as ações humanas, são fundamentais para desvendar as causas exatas dessa tragédia e aprimorar a segurança aérea. A comunidade aeronáutica e as famílias das vítimas aguardam o relatório final para obter respostas definitivas sobre o que realmente aconteceu naquele voo fatídico.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. O que os áudios inéditos revelaram sobre a queda do avião em Vinhedo?
Os áudios revelaram que as comunicações entre os pilotos e o controle de tráfego aéreo, nos minutos que antecederam a queda, foram rotineiras e não indicaram qualquer tipo de emergência ou problema na aeronave. Os diálogos eram calmos e seguiam o protocolo padrão de comunicação aérea.

2. Havia alertas de emergência na cabine do avião antes da queda?
Sim, o relatório preliminar do Cenipa, baseado nas caixas-pretas, mostrou que a cabine emitia alertas luminosos e sonoros relacionados à detecção de gelo e à perda de velocidade, mesmo enquanto os pilotos mantinham comunicações externas tranquilas e protocolares.

3. Qual a causa provável do acidente, segundo as investigações preliminares?
Embora o relatório final ainda não tenha sido divulgado, as investigações preliminares do Cenipa indicam que a formação de gelo na aeronave foi um fator que comprometeu severamente o desempenho do avião. No entanto, os investigadores evitam apontar uma única causa, analisando também os sistemas de degelo e o desempenho da tripulação.

4. A Voepass se manifestou sobre o acidente?
Sim, a Voepass emitiu notas lamentando a tragédia, a qual descreveu como o episódio mais difícil de sua história. A companhia expressou solidariedade às famílias das vítimas, destacou o apoio psicológico e logístico oferecido, e reafirmou seu compromisso com a segurança, a transparência na investigação e o cumprimento dos padrões regulatórios internacionais.

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Fonte: https://g1.globo.com

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