Lula critica invasões dos EUA e inação da ONU Na Celac
© Paulo Pinto/Agência Brasil
Em um discurso contundente proferido no fórum Celac-África, em Bogotá, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou neste sábado (25) suas críticas às intervenções militares dos Estados Unidos e à percebida inatividade do Conselho de Segurança das Nações Unidas diante de conflitos globais. As declarações do presidente Lula, feitas durante o encontro que reúne líderes latino-americanos e africanos, ressoaram a preocupação com a soberania nacional e a igualdade entre as nações. Ele alertou para o perigo de um cenário onde “grandes potências querem ser as ‘donas do mundo'”, instigando um debate profundo sobre as dinâmicas de poder no cenário internacional e a necessidade urgente de reforma das instituições multilaterais.
Soberania e críticas a intervenções externas
O presidente Lula utilizou a plataforma do fórum Celac-África para defender veementemente a soberania dos países em desenvolvimento, uma questão central para as nações latino-americanas e africanas. Em seu discurso, ele enfatizou que as nações presentes no encontro não são mais “países colonizados”, tendo conquistado sua independência e, com ela, a plena soberania. A mensagem foi clara e direta: “Nós não podemos permitir que alguém possa se intrometer e ferir a integridade territorial de cada país”, declarou, traçando uma linha vermelha contra qualquer forma de ingerência externa.
O fantasma da colonização e a integridade territorial
A crítica de Lula foi direcionada especificamente às ações militares dos Estados Unidos, que, segundo ele, têm histórico de invasões sob pretextos questionáveis. O presidente rememorou casos como a invasão do Iraque, citando a inexistência das supostas armas químicas de Saddam Hussein, e as alegações contra o Irã sobre o desenvolvimento de bombas nucleares. “Cadê as armas químicas do Saddam Hussein? Onde elas estão? Quem as achou?”, questionou, expondo a base de desinformação que, em sua visão, muitas vezes precede intervenções armadas. Ele lamentou a construção de “inimigos” e “imagens negativas” para justificar a destruição, chamando a atenção para um “mundo de mentiras” que mina a paz e a estabilidade.
O presidente brasileiro também abordou a situação política em países como Venezuela e Cuba, condenando o que considerou tentativas de interferência em seus assuntos internos. Ele desafiou a legalidade de tais ações, questionando em que “parágrafo, em que artigo da carta da ONU tá dito que um presidente de um país pode invadir o outro?”. Para Lula, não há base legal ou moral para justificar a utilização da força e do poder para recolonizar ou subjugar nações. Sua fala sublinha uma preocupação latente em muitas partes do Sul Global sobre a persistência de mentalidades e práticas que remetem a períodos de dominação colonial.
O questionamento do papel do Conselho de Segurança da ONU
Um dos pontos mais incisivos do discurso do presidente Lula foi sua condenação à atuação do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ele expressou profunda frustração com a passividade da ONU diante de múltiplos conflitos internacionais, questionando a eficácia e a própria finalidade da organização. “O que nós estamos assistindo no mundo é a falta total e absoluta de funcionamento das Nações Unidas”, afirmou. A crítica é particularmente direcionada aos membros permanentes do Conselho de Segurança, que detêm o poder de veto.
Grandes potências e a manutenção da paz global
Lula ressaltou que o Conselho de Segurança e seus membros permanentes foram originalmente criados com o propósito de “tentar manter a paz”. Contudo, em uma inversão irônica e preocupante, ele argumenta que “são eles que estão fazendo as guerras”. Essa acusação levanta sérias questões sobre a legitimidade e a representatividade de uma estrutura de segurança global que, em sua forma atual, parece não conseguir conter ou prevenir conflitos, e até mesmo ser cúmplice deles.
O presidente instou a comunidade internacional a “tomar uma atitude para não permitir… que os países mais poderosos se achem donos dos países mais frágeis”. Essa exortação aponta para a necessidade urgente de uma reforma nas Nações Unidas, um tema recorrente na agenda externa do Brasil, visando uma governança global mais democrática, equitativa e eficaz. A visão de Lula é de que o sistema atual perpetua desigualdades de poder e falha em proteger os interesses e a soberania das nações em desenvolvimento, as mesmas que hoje se reúnem na Celac-África para buscar soluções conjuntas.
A nova corrida por minerais críticos e a geopolítica
Além das críticas à geopolítica de intervenção, o presidente Lula também alertou para uma nova forma de “colonização” que, em sua avaliação, está em curso: a busca desenfreada de países ricos por minerais críticos e terras raras. Esses recursos são considerados estratégicos para a economia global moderna, essenciais na produção de tecnologias de ponta, energias renováveis e eletrônicos.
O temor da “recolonização” através dos recursos naturais
Lula expressou a preocupação de que, após séculos de exploração de recursos naturais, agora as potências globais voltassem a cobiçar os bens preciosos do Sul Global. “Depois de levarem tudo o que a gente tinha, agora eles querem ser donos dos minerais críticos e das terras raras que nós temos”, disse o presidente. Ele vê nessa busca uma ameaça direta à autonomia das nações que possuem esses recursos, interpretando-a como uma tentativa de “recolonizar” esses países.
O presidente traçou um paralelo com a história de lutas por independência e democracia, que, apesar de terem sido conquistadas e perdidas ao longo do tempo, agora enfrentam o risco de um novo ciclo de dominação. A descoberta desses minerais e terras raras, ao invés de ser uma bênção, pode se tornar uma maldição se não for gerenciada com soberania e em benefício dos povos locais. A retórica de Lula enfatiza que o Sul Global deve estar vigilante e unido para garantir que o controle e os benefícios desses recursos permaneçam em suas mãos, e que não se tornem o novo vetor de subserviência e exploração.
FAQ
O que é o fórum Celac-África?
O fórum Celac-África é um encontro que reúne líderes e representantes da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e de países africanos. Seu objetivo principal é fortalecer os laços de cooperação, discutir desafios comuns e buscar soluções conjuntas em áreas como desenvolvimento econômico sustentável, combate à fome e à pobreza, mudanças climáticas, segurança alimentar e energia.
Quais foram as principais críticas do presidente Lula em seu discurso na Celac-África?
O presidente Lula criticou as intervenções militares dos Estados Unidos, a ineficácia do Conselho de Segurança das Nações Unidas em manter a paz, e a “passividade” da ONU diante de conflitos. Ele também alertou para uma nova forma de “colonização” baseada na busca por minerais críticos e terras raras por parte de países ricos.
Por que os minerais críticos e terras raras são tão importantes na atualidade?
Minerais críticos e terras raras são elementos estratégicos essenciais para a fabricação de tecnologias avançadas, como baterias de veículos elétricos, componentes de celulares, equipamentos de energia renovável (eólica e solar), eletrônicos e armamentos. Sua demanda crescente na economia global os torna ativos geopolíticos de grande valor.
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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br