Juros Altos: Principal Barreira ao Crédito para a Indústria Brasileira, Aponta CNI

 Juros Altos: Principal Barreira ao Crédito para a Indústria Brasileira, Aponta CNI

© FÁBRICA WEG EM ITAJAÍ/DIVULGAÇÃO

Compatilhe essa matéria

O acesso a financiamentos continua sendo um desafio significativo para a indústria brasileira, com as taxas de juros elevadas figurando como o principal entrave. É o que revela uma pesquisa recente divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que ouviu 1.701 empresas em todo o país entre 3 e 12 de agosto, analisando as condições enfrentadas de fevereiro a julho. O levantamento, intitulado “Sondagem Especial 107 – Condições de Acesso ao Crédito em 2026”, sublinha a persistência de dificuldades no ambiente creditício, impactando desde grandes corporações a pequenas e médias empresas.

Juros Elevados: O Entrave Dominante ao Financiamento

A pesquisa da CNI destaca que a grande maioria das empresas que enfrentaram dificuldades para obter crédito apontou os juros altos como o maior obstáculo. Para operações de curto e médio prazo, 76% dos entrevistados citaram as taxas elevadas. No caso do financiamento de longo prazo, com vencimento superior a cinco anos, a proporção foi de 69% dos empresários. Embora esses números ainda representem a barreira mais proeminente, houve uma leve diminuição em comparação com o ano anterior. Em 2025, os juros eram apontados por 80% das empresas para crédito de curto e médio prazo e por 71% para o de longo prazo, indicando que, apesar das reduções na taxa básica, o custo final para o setor produtivo ainda é percebido como excessivo. Maria Virgínia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI, ressalta que a queda da Selic leva tempo para se traduzir efetivamente em um custo de crédito mais acessível para as empresas.

Outros Obstáculos: Garantias, Burocracia e Prazos Insuficientes

Além do custo do dinheiro, a indústria se depara com uma série de outros desafios para garantir o crédito necessário. As exigências de garantias reais despontam como o segundo principal entrave. Esse fator foi mencionado por 33,4% das empresas nas operações de curto e médio prazo e por 31,5% nas de longo prazo. A burocracia também impõe dificuldades significativas, sendo citada por 13,6% dos empresários que buscaram financiamento de menor duração. Para o crédito de longo prazo, a insuficiência do prazo de carência emergiu como a segunda maior dificuldade, impactando 18,9% das empresas que buscaram essa modalidade.

Baixa Busca e Alta Frustração no Mercado Creditício

A percepção de um ambiente creditício adverso levou uma parcela considerável das empresas a nem mesmo tentar buscar financiamento. Quase metade da indústria (49,9%) não buscou ou renovou crédito de curto ou médio prazo no período avaliado. Apenas 22,9% conseguiram efetivar a contratação ou renovação, enquanto 7,5% tentaram sem sucesso. No segmento de longo prazo, o cenário é similar, com 54% das empresas não buscando financiamento. Dentre as que buscaram, 15,5% obtiveram sucesso e 9,2% não conseguiram os recursos. Ao focar apenas nas empresas que ativamente procuraram crédito, a taxa de frustração demonstra um aumento preocupante em relação a 2025: 24,7% para o curto e médio prazo (contra 20% no ano anterior) e 37,2% para o longo prazo (frente a 33% em 2025). As pequenas empresas são as mais afetadas, apresentando os maiores índices de insucesso, especialmente no longo prazo, onde 48,2% delas, assim como 48,1% das médias, não conseguiram o crédito desejado, em contraste com 29,9% das grandes empresas.

Desvio de Finalidade: Longo Prazo para Capital de Giro

Um aspecto notável da pesquisa é a utilização de linhas de crédito de longo prazo para finalidades atípicas. Embora essas modalidades sejam tradicionalmente destinadas a investimentos de maior fôlego, como a aquisição de máquinas e equipamentos (23,6%) ou a construção/instalação (11,6%), 28,7% das empresas que buscaram ou contrataram esse tipo de financiamento o fizeram para custear capital de giro, ou seja, despesas cotidianas. Essa prática levanta preocupações na CNI, pois indica que as empresas podem estar recorrendo a alternativas menos adequadas para cobrir necessidades operacionais básicas, que geralmente seriam atendidas por linhas de curto e médio prazo. Para estas últimas, o capital de giro continua sendo a principal finalidade, apontada por quase 60% dos entrevistados.

Propostas da Indústria: Menos Custos e Mais Acesso

Diante das dificuldades, as empresas industriais apontam caminhos claros para facilitar o acesso ao crédito. A principal medida sugerida é a redução dos custos tributários e administrativos, escolhida por 38,4% dos entrevistados para operações de curto e médio prazo e por 31,2% para as de longo prazo. Outras sugestões relevantes incluem a ampliação das linhas de crédito públicas, defendida por 22,8% das empresas para o curto e médio prazo e por 26,3% para o longo prazo, e a simplificação das exigências bancárias, apontada por 21,1% e 22,1%, respectivamente. Essas propostas refletem a necessidade de um ambiente mais favorável e menos oneroso para que a indústria possa investir e crescer.

A pesquisa da CNI desenha um panorama desafiador para a indústria brasileira, onde o custo do crédito permanece como o principal entrave, agravado por exigências burocráticas e a dificuldade em obter garantias. A alta taxa de frustração na busca por financiamento e o desvio de finalidade de linhas de longo prazo para capital de giro evidenciam a urgência de reformas estruturais. Para reverter esse quadro, as sugestões da própria indústria, focadas na redução de custos e na simplificação do acesso, tornam-se essenciais para que o setor produtivo possa, de fato, contribuir plenamente para o desenvolvimento econômico do país.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Relacionados