Vozes Invisibilizadas: O Cinema Indígena Feminino Rompe Barreiras no Festival de Brasília

 Vozes Invisibilizadas: O Cinema Indígena Feminino Rompe Barreiras no Festival de Brasília

© Rede Katahirine/Divulgação

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O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em sua 59ª edição, abriu espaço para um debate crucial e um marco histórico para a sétima arte nacional: o protagonismo das mulheres indígenas no audiovisual. Uma programação especial, que contou com a presença da cineasta Larissa Tukano, celebrou não apenas a produção fílmica desses povos, mas também o lançamento de duas publicações fundamentais: "Ler o Vento, Filmar o Mundo" e "Diretrizes para um Audiovisual Ético com Povos Indígenas". Este movimento reflete uma crescente demanda por visibilidade, equidade e representatividade que busca redefinir o panorama cinematográfico brasileiro.

O Protagonismo Feminino Indígena na Grande Tela

Larissa Tukano, representando um coletivo de 92 mulheres indígenas ligadas ao cinema, destacou a importância da união e da troca de experiências. No festival, quatro dessas cineastas – Bárbara, Moara, Larissa e Mari Corrêa – levaram as vozes de 40 etnias, abrangendo todos os biomas brasileiros. O esforço conjunto resultou em um livro que, segundo Larissa, é um "resultado coletivo, vivo e em construção", um verdadeiro compêndio de "palavras vivas" que traduzem suas realidades e perspectivas únicas.

A metáfora "ler o vento" transcende a observação climática; ela simboliza uma conexão profunda com os ciclos da natureza, a constelação e o ritmo da vida comunitária e pessoal. É uma habilidade intrínseca à mulher indígena, seja no cuidado familiar, na organização social, na luta por seus territórios ou na preservação de suas culturas. Embora frequentemente invisibilizadas, essas mulheres atuam ativamente ao lado dos homens, e agora, por meio do cinema, trazem um novo ângulo, um ponto de vista essencial para a compreensão de suas lutas e existências.

Barreiras e Desigualdades Estruturais no Audiovisual

A publicação "Ler o Vento, Filmar o Mundo" revela dados inéditos que expõem uma realidade de profunda desigualdade, marcada por preconceito e discriminação que impõem barreiras quase intransponíveis. Mari Corrêa, cineasta, fundadora do Instituto Katūtu Aldeia em Cena e coordenadora da Rede Audiovisual das Mulheres Indígenas Katahirine, sublinha que o mapeamento é claro: a participação feminina, tanto indígena quanto não-indígena, é significativamente menor do que a masculina em todas as etapas do processo audiovisual, desde a formação até o acesso a políticas públicas.

Em sua maioria, os espaços de decisão – como roteiro e direção – são ocupados por homens. Para as mulheres indígenas, o acesso é ainda mais restrito. A dificuldade começa na formação, com menos convites e propostas de oficinas ou trabalhos, dentro e fora dos territórios. A cadeia completa do audiovisual se torna um desafio maior, agravado por questões como o cuidado com filhos pequenos, que muitas vezes impede a participação em produções ou a ida a festivais. A ausência de suporte adequado para essas necessidades específicas perpetua uma desigualdade generalizada no setor e, de forma ainda mais acentuada, no universo indígena, onde as mulheres dispõem de menos recursos e oportunidades.

Os Desafios do Financiamento e Acesso a Recursos

Um dos achados mais contundentes da pesquisa diz respeito à disparidade no acesso a financiamentos e recursos. As mulheres indígenas enfrentam dificuldades severas para submeter projetos a editais, não por falta de capacidade, mas devido à complexa burocracia, à exigência de documentação intrincada e à linguagem especializada que caracteriza as chamadas públicas atuais. Essas questões, inerentes ao formato vigente dos editais, criam obstáculos significativos à participação feminina, resultando em uma sub-representação nos projetos aprovados e financiados.

Conclusão: O Caminho para uma Narrativa Inclusiva

O movimento das mulheres indígenas no cinema, simbolizado pelas publicações lançadas no Festival de Brasília, é um ato de resistência e um chamado à transformação. Ao "filmar o mundo", elas não apenas contam suas histórias, mas redefinem a narrativa dominante, questionando a invisibilidade e as barreiras que historicamente as afastaram dos holofotes. O desafio é complexo e exige não apenas reconhecimento, mas a criação de políticas públicas e estruturas de apoio que considerem suas realidades, combatam o preconceito e garantam que a rica diversidade cultural e a perspectiva feminina indígena ocupem, finalmente, o lugar de destaque que lhes é devido no panorama audiovisual brasileiro.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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