Saída dos Estados Unidos da Convenção do Clima é gol contra, diz

 Saída dos Estados Unidos da Convenção do Clima é gol contra, diz

© Ralf Vetterle/Pixabay

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A retirada dos Estados Unidos de importantes acordos climáticos e fundos multilaterais foi classificada como um “gol contra colossal” pelo secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), Simon Stiell. A decisão do governo de Donald Trump de abandonar a UNFCCC, o Fundo Verde do Clima (GCF) e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) gerou preocupação mundial. Especialistas alertam que o movimento pode não apenas prejudicar a cooperação internacional na luta contra as mudanças climáticas, mas também trazer severas consequências econômicas e sociais para os próprios norte-americanos, que foram cruciais na formação desses mecanismos globais. O afastamento dos EUA de 66 organizações internacionais sinaliza um período de incerteza na governança ambiental global e na busca por soluções urgentes para a crise climática.

O impacto global da retirada americana

A decisão dos Estados Unidos de se retirar de dezenas de organismos multilaterais, com destaque para a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) e o Fundo Verde do Clima (GCF), o principal mecanismo internacional de financiamento para ações climáticas, repercute globalmente. No entanto, o impacto mais significativo e prejudicial recairá sobre os próprios norte-americanos, de acordo com Simon Stiell. Ele descreveu a medida como um “gol contra colossal”, argumentando que ela enfraquece a posição dos EUA e seus interesses nacionais no cenário global.

A UNFCCC, uma entidade fundamental da Organização das Nações Unidas (ONU), é responsável por organizar anualmente a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP), como a COP30, realizada em Belém. A saída dos EUA não apenas desarticula a cooperação em um momento crítico da crise climática, mas também retira um ator historicamente central na formulação e implementação de políticas ambientais internacionais. A nação foi essencial na criação da Convenção-Quadro e do Acordo de Paris, ambos considerados no seu interesse nacional, segundo Stiell. Enquanto outras nações avançam em direção à sustentabilidade e à mitigação dos impactos climáticos, o retrocesso dos EUA na liderança global, na cooperação e na ciência climática pode comprometer sua economia, gerar perda de empregos e deteriorar o padrão de vida de sua população. Eventos extremos como incêndios florestais, enchentes, megatempestades e secas se intensificam rapidamente, e o isolamento dos EUA nesse contexto torna-os menos seguros e menos prósperos.

Repercussões para a governança climática

A retirada dos Estados Unidos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), outro organismo da ONU que reúne cientistas climáticos de renome para publicar relatórios sobre o aquecimento global, é um golpe adicional à credibilidade da ciência e à formulação de políticas baseadas em evidências. A ausência de uma das maiores economias e maiores emissores históricos de gases de efeito estufa no diálogo multilateral fragiliza a capacidade coletiva de enfrentar uma crise que exige ação coordenada. O Instituto Talanoa, uma organização não governamental brasileira dedicada ao debate climático, observa que a decisão americana representa um novo capítulo de choque político em meio à crise climática global. Embora enfraqueça a credibilidade americana, a medida não determina sozinha o rumo da governança climática global. Contudo, se outros países seguirem o exemplo ou se as demais nações não assumirem a responsabilidade de liderar, o sistema pode entrar em um período de baixa, com custos reais em coordenação, ambição e financiamento. A expectativa é que novas lideranças surjam para evitar um colapso, mas a reação coletiva precisa ser rápida e decisiva para que o regime multilateral continue funcionando eficazmente.

As implicações econômicas para os EUA

Além das repercussões geopolíticas, as consequências econômicas da decisão norte-americana são severas e tangíveis para famílias e empresas. Simon Stiell alertou que a saída dos EUA dos acordos climáticos resultará em um aumento nos preços de energia, alimentos, transporte e seguros no país. Isso ocorre em um cenário onde as energias renováveis se tornam progressivamente mais baratas do que os combustíveis fósseis. Desastres impulsionados pelo clima, como secas e inundações, atingem com crescente intensidade as lavouras, empresas e infraestrutura americanas a cada ano. A volatilidade do petróleo, carvão e gás também gera mais conflitos, instabilidade regional e migração forçada, fatores que contribuem para a elevação dos custos e a insegurança econômica. A falta de engajamento em mecanismos internacionais de financiamento climático, como o GCF, também pode limitar o acesso dos EUA a tecnologias e estratégias de adaptação e mitigação que se tornam cada vez mais essenciais. A presidente do Instituto Talanoa, Natalie Unterstell, enfatizou que, embora o regime multilateral continue operando, o financiamento climático internacional deve sofrer uma queda imediata, impactando diretamente os esforços globais e os próprios investimentos que poderiam beneficiar os Estados Unidos a longo prazo.

O papel das instituições climáticas e o futuro da cooperação

As instituições das quais os Estados Unidos se retiraram desempenham papéis cruciais na arquitetura global de resposta às mudanças climáticas. A UNFCCC é o pilar político e diplomático, o IPCC é a autoridade científica incontestável, e o GCF é o motor financeiro das ações climáticas. A saída de um membro tão influente de cada uma dessas esferas cria um vácuo significativo e exige uma reavaliação da dinâmica de cooperação e responsabilidade.

Entendendo a UNFCCC, GCF e IPCC

A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) é um tratado internacional estabelecido em 1992 para estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera a um nível que impeça interferências antropogênicas perigosas no sistema climático. É sob seu guarda-chuva que o Acordo de Paris foi negociado e que as COPs são realizadas, reunindo chefes de estado e negociadores para definir metas e estratégias climáticas globais. A retirada dos EUA da UNFCCC mina a sua capacidade de influenciar as decisões e as ambições desses encontros cruciais.

O Fundo Verde do Clima (GCF) é o maior fundo climático do mundo, criado para apoiar países em desenvolvimento na implementação de projetos de adaptação e mitigação das mudanças climáticas. Ele mobiliza recursos financeiros de países desenvolvidos, buscando uma contribuição equilibrada entre mitigação e adaptação. A decisão do Tesouro dos EUA de retirar-se do GCF, conforme justificado pelo secretário Scott Bessent, foi baseada na visão de que o fundo era uma “organização radical” cujos objetivos contrariavam a necessidade de energia acessível e confiável para o crescimento econômico e a redução da pobreza. Bessent argumentou que a participação contínua no GCF era incompatível com as prioridades do governo Trump, que priorizava o avanço de todas as fontes de energia, sem distinção clara entre fósseis e renováveis, em vez de focar exclusivamente em energias limpas.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é o principal corpo internacional para avaliar a ciência das mudanças climáticas. Ele fornece aos governos relatórios científicos regulares que servem como base para o desenvolvimento de políticas climáticas. Composto por milhares de cientistas voluntários de todo o mundo, o IPCC não realiza pesquisas originais, mas sim sintetiza e avalia a literatura científica existente. A saída dos EUA do IPCC pode ser interpretada como um distanciamento da ciência consensual sobre o aquecimento global, potencialmente minando a confiança pública e política na urgência das ações climáticas.

Desafios e respostas da comunidade internacional

Diante da retirada americana, a comunidade internacional enfrenta o desafio de manter a ambição e a coordenação necessárias para cumprir as metas do Acordo de Paris. A ausência de um contribuinte financeiro e diplomático tão significativo certamente impacta a capacidade de mobilização de recursos e a legitimidade das decisões globais. No entanto, a história da governança climática tem mostrado que a cooperação pode persistir mesmo diante de reveses. Outras potências e blocos regionais, como a União Europeia, China e países em desenvolvimento, podem ser chamados a preencher o vácuo de liderança. O fortalecimento de alianças entre estados subnacionais, empresas e sociedade civil dentro dos próprios EUA também pode compensar, em parte, a postura federal. A resiliência do regime multilateral dependerá da capacidade coletiva de reagir rapidamente, de encontrar novas fontes de financiamento e de reforçar o compromisso com a ciência e a ação climática, garantindo que o progresso não seja irreversivelmente comprometido por decisões de um único país.

Conclusão

A retirada dos Estados Unidos de múltiplos organismos e fundos multilaterais relacionados ao clima, sob a gestão de Donald Trump, representa um ponto de inflexão na governança climática global. Embora a decisão seja criticada como um “gol contra” com sérias implicações domésticas e internacionais, ela também serve como um catalisador para a reavaliação do papel de outras nações e da resiliência do sistema multilateral. O impacto nos custos econômicos, na credibilidade científica e no financiamento climático é inegável. O futuro da ação climática dependerá da resposta coletiva da comunidade internacional para preencher as lacunas deixadas e manter a trajetória rumo à sustentabilidade, independentemente da postura de uma das maiores economias mundiais.

FAQ

O que é a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC)?
A UNFCCC é um tratado internacional que estabelece uma estrutura para a cooperação intergovernamental para lidar com as mudanças climáticas. Ela é o palco onde são realizadas as Conferências das Partes (COPs) e onde o Acordo de Paris foi negociado, visando a estabilização das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera.

Por que a saída dos EUA da convenção do clima é considerada um “gol contra”?
A saída é vista como um “gol contra” porque os Estados Unidos foram fundamentais na criação da UNFCCC e do Acordo de Paris. Ao se retirar, o país não só enfraquece a cooperação global, mas também se expõe a maiores impactos econômicos e sociais internos de eventos climáticos extremos, perdendo a oportunidade de se beneficiar do avanço de energias renováveis e de participar ativamente na busca por soluções que são de seu próprio interesse nacional.

Quais as consequências econômicas diretas para os Estados Unidos com essa retirada?
As consequências incluem o encarecimento de preços de energia, alimentos, transporte e seguros para famílias e empresas, à medida que os desastres climáticos se tornam mais frequentes e severos. Além disso, a volatilidade dos combustíveis fósseis gera instabilidade, enquanto o país se isola da transição global para energias renováveis, que se mostram cada vez mais competitivas e mais baratas.

Para mais informações sobre as implicações globais e locais das políticas climáticas, explore nossos artigos e análises sobre o tema.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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