Frente Fria Avança: Brasil Prepara-se para Tempestades e Queda Abrupta de Temperaturas
A Cor do Som: Estudo Revela Padrões de Racismo na Indústria Sonora Brasileira
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
A indústria do som no Brasil, um pilar fundamental da produção audiovisual, esconde em suas engrenagens profundos padrões de racismo estrutural. É o que aponta o recém-lançado dossiê “A Cor do Som”, um estudo abrangente que escancara desigualdades no mercado de trabalho e práticas veladas de “higienização” do produto final, impactando diretamente a voz e a presença de profissionais negros no setor. A pesquisa desafia a noção de neutralidade, revelando como timbres e linguagens são classificados e como as carreiras são desvalorizadas pela lente da discriminação racial.
O Dossiê e Suas Origens
O levantamento “A Cor do Som” foi concebido e elaborado por duas instituições privadas com atuação dedicada ao combate ao racismo: a Semiótica Antirracista, focada na oferta de cursos sobre diversidade racial, e o Estúdio Nina, que estabelece conexões entre marcas e o público negro. Lançado estrategicamente no início do Novembro Negro, mês dedicado à Consciência Negra, o estudo recebeu ainda o apoio da empresa Audiolivros. Para fundamentar suas conclusões, os pesquisadores empreenderam uma abordagem qualitativa, entrevistando 24 indivíduos. Deste grupo, 18 eram profissionais negros atuantes nas esferas técnica e criativa, quatro eram acadêmicos e duas personalidades engajadas no debate racial, cujas identidades foram preservadas. A metodologia buscou capturar percepções e vivências, sem recorrer a dados quantitativos, para traçar um panorama fiel das complexidades do racismo na área.
A 'Higienização' Sonora e a Colonialidade do Áudio
Um dos achados mais marcantes do dossiê reside na análise das questões técnicas da produção sonora. O estudo aponta que a indústria brasileira segue um paradigma de áudio de raízes europeias, colonialista e elitista. Essa abordagem se manifesta na busca incessante por uma “higienização do som”, que visa eliminar “ruídos e interferências da rua, da praça, do povo”. Operadores de som, segundo o dossiê, recebem diretrizes que pautam um produto final o mais “limpo” possível, um processo que, na prática, culmina no descarte de elementos sonoros periféricos e de marcas culturais afro-brasileiras. A pesquisa argumenta veementemente pela necessidade de “desconstruir o mito da neutralidade técnica” nessas produções, evidenciando como a suposta objetividade esconde escolhas que reforçam preconceitos raciais.
A Linguagem e a Hierarquia dos Modos de Falar
Além das técnicas de áudio, a pesquisa também se debruça sobre a dimensão da linguagem no produto final. O estudo constata a prevalência de uma norma padrão que cria hierarquias entre diferentes modos de expressão, marginalizando a pluralidade linguística e classificando-a como “erro” ou indignidade. Para ilustrar essa questão, o dossiê resgata o conceito de “Pretuguês”, formulado pela intelectual e ativista Lélia Gonzalez. O “Pretuguês” refere-se a um modo de falar português enriquecido por elementos fonéticos e sintáticos de línguas africanas, frequentemente alvo de escárnio na sociedade brasileira – como a troca do 'L' pelo 'R' em certas palavras ('probrema') ou a substituição do 'LH' por 'I' ('faia'). A desvalorização dessas formas de expressão representa mais uma faceta do racismo presente na indústria, que reprime a autenticidade cultural em nome de uma artificial neutralidade.
Desigualdades no Mercado de Trabalho: O Impacto nos Profissionais Negros
O dossiê “A Cor do Som” dedicou uma parte significativa de suas entrevistas a expor as condições do mercado de trabalho para profissionais negros em produtoras, estúdios e agências de publicidade. As queixas são alarmantes e revelam um sistema de disparidades sistêmicas. É comum que profissionais negros recebam remunerações inferiores em comparação a colegas brancos que exercem funções equivalentes, ou que sejam contratados justamente por aceitarem salários menores. A dificuldade de cobrar valores condizentes com a própria qualificação é uma constante, exigindo que trabalhem em dobro para provar sua competência e, mesmo assim, enfrentem a falta de reconhecimento, ainda que sejam os responsáveis pelo desenvolvimento de projetos cruciais.
Essas dinâmicas se manifestam em relatos pungentes, como o de um profissional da área criativa que, após desempenhar múltiplas funções – de produção de palco à captação e edição –, foi demitido por e-mail ao reivindicar um salário justo, sendo substituído por uma 'influencer branca'. Outro entrevistado descreveu a frustração de ser 'a pessoa que mais trabalhava', a mente por trás do projeto, mas 'a pessoa menos ouvida', precisando lutar intensamente para que suas ideias fossem consideradas. Além disso, a pesquisa destaca que, no setor audiovisual, profissionais negros são frequentemente relegados a “trabalhos braçais” ou técnicos, enquanto os espaços de decisão, criação e liderança permanecem majoritariamente brancos. Um profissional do cinema questionou: 'Por que eu não podia ser produtor?', evidenciando a barreira imposta à ascensão e à oportunidade de contar suas próprias histórias.
Conclusão: Um Chamado à Desconstrução do Racismo Sonoro
O dossiê “A Cor do Som” não apenas diagnostica a presença do racismo na indústria sonora brasileira, mas também lança um imperativo para sua desconstrução. Ao expor a “higienização” do som, que silencia as marcas culturais afro-brasileiras, e a hierarquização das linguagens, que desvaloriza o “Pretuguês”, o estudo revela como o preconceito racial se manifesta em níveis técnicos e artísticos. As desigualdades salariais, a falta de reconhecimento e a restrição a funções subalternas no mercado de trabalho completam um quadro desolador para profissionais negros. O levantamento serve como um alerta crucial de que a neutralidade é um mito, e que a inclusão e a equidade exigem um esforço consciente para desmantelar as estruturas coloniais e elitistas que ainda ecoam no panorama audiovisual brasileiro, promovendo um ambiente onde a diversidade de vozes e talentos possa verdadeiramente ressoar.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br