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Lucros e alinhamento: a Suíça e a ditadura militar no brasil
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Em meio ao cenário político conturbado da ditadura militar brasileira, que se estendeu por 21 anos a partir de 1964, a Suíça emergiu como um parceiro econômico notável, com suas empresas colhendo benefícios significativos. A estabilidade proporcionada pelo regime, obtida através da repressão a sindicatos e da supressão de direitos trabalhistas, criou um ambiente propício para o capital suíço prosperar. Declarações de empresários da época e pesquisas recentes revelam uma intrínseca ligação entre o crescimento do investimento suíço e a política de achatamento salarial e a “paz social” imposta pelo regime. Este alinhamento estratégico permitiu que multinacionais suíças obtivessem lucros expressivos, consolidando a Suíça como um dos maiores investidores no Brasil durante esse período obscuro da história nacional.
A visão empresarial e o lucro da repressão
Em 1970, Anton Von Salis, então presidente da Câmara de Comércio Suíço-Brasileira (Swisscam), expressou abertamente uma perspectiva que resumia a atratividade do Brasil sob a ditadura militar para o empresariado estrangeiro. De acordo com Von Salis, os trabalhadores brasileiros podiam receber salários significativamente menores do que seus pares europeus devido a “necessidades totalmente diferentes”, mencionando a ausência de frio e a simplicidade das moradias locais. Para ele, o golpe de 1964 não só garantiu a estabilidade política desejada, mas também uma mão de obra abundante e barata, abrindo caminho para o lucro do capital suíço no país.
Salários achatados e benefícios fiscais
Uma análise aprofundada, conduzida por Gabriella Lima, pesquisadora da Universidade de Lausanne, na Suíça, lançou luz sobre o quão lucrativo foi o regime militar para as multinacionais suíças. Comparando os salários pagos pelas 14 maiores empresas suíças no Brasil em 1971 com os da Suíça, o estudo revelou uma disparidade alarmante. Trabalhadores sem qualificação no Brasil recebiam apenas um quinto do que um operário suíço ganhava na mesma função. Para a mão de obra profissionalizada, a diferença diminuía, mas ainda era substancial, com salários que representavam pouco mais da metade (57%) dos vencimentos suíços.
A pesquisa de Lima, que resultou no livro “Don’t Miss The Bus”, demonstra que o capital suíço, de fato, soube aproveitar as vantagens oferecidas pela ditadura. Além da mão de obra barata, as empresas se beneficiavam de isenções fiscais nos dez primeiros anos de instalação e da ausência de impostos sobre a remessa de lucros. A “paz social”, caracterizada pelo enfraquecimento dos movimentos operários, a criminalização de sindicatos e a repressão a qualquer forma de oposição, criava um clima de confiança e segurança para os investidores estrangeiros. O professor Marco Antônio Rocha, do Instituto de Economia da Unicamp, ressalta que a política de valorização do salário mínimo foi um dos estopins do golpe de 64. Uma das primeiras medidas dos militares foi alterar a política de reajuste, o que levou a uma rápida defasagem do poder de compra do salário mínimo, que chegou a perder cerca de 50% de seu valor em apenas um ou dois anos. Gabriella Lima estimou que o achatamento salarial resultou em um faturamento de 80 milhões de francos suíços em 1971, apenas para as 14 maiores multinacionais suíças no Brasil.
A suíça como investidor estratégico na ditadura
A política de achatamento de salários, aliada à “estabilidade” gerada pela opressão, encorajou o capital suíço a investir pesadamente no Brasil. Entre 1964 e o final da década de 1970, a Suíça se destacou entre os quatro países que mais investiram no Brasil, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha, e alternando o terceiro lugar com o Japão.
O peso dos investimentos suíços
Proporcionalmente, contudo, a Suíça foi o maior investidor per capita durante todo o período, com uma média de US$ 187,8 por habitante. Esse montante era oito vezes maior do que o investimento per capita da Alemanha, o segundo maior parceiro comercial do Brasil na época. Considerando a população suíça de cerca de 7 milhões de habitantes nos anos 1970, o investimento suíço não foi apenas o primeiro, mas superou a soma dos nove outros maiores investidores quando dividido pelo número de habitantes. Em 1973, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) suíço no Brasil alcançou 1,1 bilhão de francos suíços, quase três vezes o PIB brasileiro daquele período. Quatro anos depois, em 1977, esse valor mais que dobrou, atingindo 2,3 bilhões de francos suíços. As empresas suíças atuavam em diversos setores, incluindo alimentação, metalurgia, petroquímica, laboratórios farmacêuticos e o sistema financeiro, representado pelos famosos bancos suíços. Questionado sobre as denúncias de prisões arbitrárias e torturas que garantiam a “estabilidade”, Von Salis minimizou as violações, afirmando que “isso você tem em todos os países”.
O contexto dos sequestros diplomáticos
A entrevista de Von Salis ocorreu em um momento de grande atenção da opinião pública suíça sobre o que se passava no Brasil, devido ao sequestro do embaixador suíço, Giovanni Enrico Bucher. O diplomata foi sequestrado em 7 de dezembro de 1970, por uma ação liderada pelo ex-capitão do exército Carlos Lamarca, figura central da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), um movimento de guerrilha urbana que se opunha ao regime militar. Bucher foi libertado 40 dias depois, em troca da liberdade de 70 presos políticos que seguiram para o exílio no Chile. A captura de diplomatas era uma estratégia comum dos movimentos de esquerda na América Latina, onde diversos países enfrentavam golpes militares e governos ditatoriais alinhados aos EUA durante a Guerra Fria. No Brasil, além de Bucher, outros três diplomatas — o embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick; o embaixador da Alemanha, Ehrenfried von Holleben; e o cônsul do Japão em São Paulo, Nobuo Okuchi — também foram sequestrados. Curiosamente, esses diplomatas representavam os maiores parceiros comerciais do Brasil na época.
As repercussões e a busca por respostas
A análise das relações econômicas entre a Suíça e o Brasil durante a ditadura militar revela uma complexa teia de interesses onde a busca por lucros se sobrepôs a considerações éticas e sociais. A “estabilidade” alardeada pelo regime foi, na verdade, mantida pela repressão violenta, da qual o capital suíço soube se beneficiar plenamente, através de salários ínfimos, vantagens fiscais e a supressão de qualquer oposição. A vasta pesquisa de Gabriella Lima quantifica e contextualiza como empresas suíças aproveitaram o ambiente criado pela ditadura para obter um retorno financeiro sem precedentes, posicionando a Suíça como um ator econômico desproporcionalmente grande no cenário brasileiro da época.
Diante dessas revelações históricas, o governo suíço, por meio de sua embaixada no Brasil, expressou a dificuldade de fornecer uma “resposta detalhada” sem a realização de “pesquisas históricas aprofundadas”, mas manifestou apoio a estudos independentes que contribuam para a compreensão do passado e o fomento do debate. A Swisscam, por sua vez, após uma inicial abertura para consulta de arquivos, recusou-se a conceder acesso e a responder a perguntas específicas sobre o período. Essas reações sublinham a importância contínua de investigar e divulgar esses capítulos da história para promover uma reflexão crítica sobre as intersecções entre economia, política e direitos humanos.
Perguntas frequentes
Qual foi o principal benefício para as empresas suíças durante a ditadura militar brasileira?
O principal benefício foi o acesso a uma mão de obra extremamente barata, devido ao achatamento salarial imposto pelo regime, e a um ambiente de “paz social” garantido pela repressão a sindicatos e movimentos trabalhistas. As empresas também se beneficiaram de isenções fiscais e da ausência de impostos sobre a remessa de lucros.
Como os salários dos trabalhadores brasileiros se comparavam aos suíços na época?
Em 1971, trabalhadores sem qualificação no Brasil recebiam apenas um quinto do salário de um operário suíço na mesma função. Para a mão de obra profissionalizada, os salários brasileiros representavam pouco mais da metade (57%) dos vencimentos suíços.
A Suíça foi um investidor significativo no Brasil durante o regime militar?
Sim, a Suíça esteve entre os quatro países que mais investiram no Brasil entre 1964 e o final da década de 1970. Proporcionalmente, considerando o tamanho de sua população, foi o maior investidor per capita no período, com seu IED atingindo bilhões de francos suíços.
A história do apoio econômico à ditadura militar brasileira sublinha a importância de revisitar o passado. Compreender essas dinâmicas é essencial para fortalecer a democracia e defender os direitos sociais no presente e no futuro.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br