Rostos paralisados e inchaço: denúncias contra dentista por procedimentos estéticos
G1
Centenas de mulheres relatam complicações graves após procedimentos estéticos realizados por uma dentista em Ribeirão Preto, São Paulo. As denúncias, que ganharam notoriedade em setembro do ano passado, descrevem um cenário alarmante de dores intensas, sangramento, inchaço persistente, risco de necrose e até paralisia facial. As queixas se acumulam contra a profissional, que é investigada após uma série de relatos de pacientes que buscaram intervenções para aprimorar a estética facial e corporal, mas se depararam com resultados devastadores. As autoridades de segurança e os conselhos de odontologia acompanham os casos, enquanto a clínica da dentista já se encontra interditada devido a irregularidades. A situação levanta sérias questões sobre a regulamentação e os limites da atuação de profissionais na área da harmonização orofacial e procedimentos estéticos.
Relatos de um pesadelo: a jornada das pacientes
Da paralisia facial a cicatrizes permanentes
A série de denúncias contra uma dentista de Ribeirão Preto revela experiências traumáticas de pacientes que buscaram procedimentos estéticos e enfrentaram graves complicações. Uma das vítimas, que preferiu não ter sua identidade revelada, procurou a profissional inicialmente para tratar bruxismo. No entanto, foi persuadida a realizar uma aplicação de botox no maxilar. Segundo seu relato, três dias após o procedimento, seu rosto ficou completamente paralisado, impossibilitando até mesmo a ingestão de água. Ao contatar a dentista, foi-lhe dito que estaria sofrendo um acidente vascular cerebral (AVC), negando qualquer ligação com a aplicação. A paciente expressou seu desespero diante da situação inesperada e grave.
Outras mulheres também compartilharam suas histórias de complicações. Uma paciente que se submeteu a uma bichectomia – cirurgia para remover bolsas de gordura das bochechas – em 2020 narrou que quase sofreu consequências ainda piores. Outra se queixou de um procedimento de endolaser, que visa dissolver gordura localizada e estimular colágeno. Ela afirmou que o procedimento não apenas falhou em entregar os resultados esperados, mas também deixou sua barriga marcada e em pior estado. Em um caso ainda mais grave, uma paciente relatou meses de tratamento para uma infecção que “poderia ter ido para a corrente sanguínea e levado à morte”, resultando em deformidade no lado esquerdo do rosto e um quadro de depressão. As queixas se estendem por uma variedade de procedimentos, incluindo outras aplicações de botox, bichectomias e o próprio endolaser, com o denominador comum de insatisfação e graves problemas de saúde pós-intervenção.
Investigações e irregularidades: a lupa sobre a profissional
Procedimentos vedados e uma clínica interditada
As complicações sofridas por pacientes como a professora aposentada Leslie Calandra Silveira, de 67 anos, de Passos (MG), e a secretária Silvia Maria Cândido, de 63, de Ribeirão Preto (SP), lançaram luz sobre a conduta da dentista e a legalidade de alguns dos procedimentos que ela realizava. Leslie, buscando um presente de aniversário, investiu R$ 13 mil em um pacote para rejuvenescimento facial e do pescoço (lifting facial e cervicoplastia) em janeiro deste ano, mas o resultado foi frustração e arrependimento. O caso de Silvia, ocorrido em setembro do ano passado, foi ainda mais dramático: menos de 24 horas após o lifting facial e a cervicoplastia, ela acordou com sangramento excessivo no pescoço, necessitando de uma cirurgia de emergência e passando dez dias internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em coma induzido. Os médicos alertaram que um atraso mínimo poderia ter sido fatal, dada a situação de inchaço do pescoço.
Além dos relatos diretos, as investigações revelam sérias inconsistências. O Conselho Regional de Odontologia, através de sua presidente Karina Ferrão, esclareceu que alguns procedimentos estéticos oferecidos pela dentista, como o lifting facial, são vedados a cirurgiões-dentistas. A resolução 198 do Conselho autoriza a harmonização orofacial como especialidade odontológica, permitindo bichectomia, lip lifting e lipo cirúrgica de papada. No entanto, a resolução 230 lista expressamente o lifting facial como um procedimento proibido para dentistas.
A clínica onde a dentista atendia, localizada no Alto da Boa Vista, está interditada administrativamente desde 24 de setembro do ano passado, data em que o caso de Silvia Maria Cândido veio à tona. A Secretaria de Saúde de Ribeirão Preto informou que a fiscalização identificou infrações graves, incluindo o funcionamento sem licença sanitária para atividades de estética e para a policlínica odontológica, além do descumprimento das normas de controle de infecção. A dentista também mantinha um perfil com mais de 113 mil seguidores em uma rede social, onde se apresentava como membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Buco Maxilo Facial (SOBRACIBU), informação que foi negada pela própria entidade. A sociedade afirmou que ela sequer concluiu o processo de filiação, tendo permanecido apenas na fase inicial de cadastro, sem aprovação ou validação. Atualmente, cinco vítimas já procuraram a Polícia Civil para formalizar denúncias, e o Conselho Federal de Odontologia (CFO) mantém em sigilo o processo que investiga a conduta da profissional.
Consequências e o caminho para a justiça
Natali Bonarelli, outra paciente, de Guaíra (SP), também enfrentou graves complicações após procedimentos no pescoço, com inchaços, dores intensas e secreções inesperadas nos pontos cirúrgicos. Ao questionar a profissional, foi-lhe dito que as reações eram esperadas e recebeu orientação para tomar um antibiótico, sem indicação para procurar um médico. Esses relatos, somados à evidência de procedimentos não autorizados e à interdição da clínica, fortalecem as acusações contra a dentista.
A advogada da dentista, por sua vez, defende que as pacientes não foram submetidas a exames clínicos ou periciais que comprovem as acusações, sugerindo que elas estariam se aproveitando da situação para tentar reaver os valores pagos pelos procedimentos devido a insatisfação. A defesa argumenta que as conclusões sobre culpa e responsabilidade são premeditadas e que somente uma perícia técnica poderia atestar as complicações decorrentes das intervenções estéticas.
Contudo, especialistas em direito médico, como a advogada Ana Paula Teodoro, explicam que pacientes que se sentiram lesados podem buscar seus direitos na Justiça, pleiteando indenizações por danos morais, pelo sofrimento causado, e por danos estéticos, em casos de sequelas permanentes. A irregularidade na realização de procedimentos vedados a dentistas, como o lifting facial, pode fortalecer significativamente o argumento das vítimas em uma ação judicial, tornando o ganho de causa mais provável. A Polícia Civil continua as diligências para apurar os fatos e garantir que a justiça seja feita para as inúmeras mulheres afetadas por estas complicações.
FAQ
Quais são as principais denúncias contra a dentista de Ribeirão Preto?
As denúncias incluem complicações graves como paralisia facial, sangramento excessivo, inchaço persistente, risco de necrose, infecções severas e cicatrizes permanentes, resultantes de procedimentos estéticos como aplicação de botox, bichectomia, endolaser, lifting facial e cervicoplastia.
Quais procedimentos estéticos são vedados a cirurgiões-dentistas?
De acordo com o Conselho Regional de Odontologia, procedimentos como o lifting facial são expressamente vedados a cirurgiões-dentistas. As resoluções permitem a harmonização orofacial que inclui bichectomia, lip lifting e lipo cirúrgica de papada, mas impõem limites claros.
O que as vítimas de complicações em procedimentos estéticos podem fazer?
As vítimas podem procurar a Polícia Civil para formalizar denúncias e buscar seus direitos na Justiça. É possível pleitear indenizações por danos morais (pelo sofrimento) e por danos estéticos (por sequelas permanentes), sendo que a realização de procedimentos vedados por lei pode fortalecer significativamente a causa das pacientes.
A clínica da dentista investigada está em funcionamento?
Não. A clínica onde a profissional atendia, localizada em Ribeirão Preto, foi interditada administrativamente desde setembro do ano passado. A Secretaria de Saúde local constatou graves irregularidades sanitárias, incluindo o funcionamento sem licença e o descumprimento de normas de controle de infecção.
Mantenha-se informado sobre este e outros casos acompanhando as atualizações das autoridades e conselhos profissionais para entender seus direitos e deveres em procedimentos estéticos.
Fonte: https://g1.globo.com