Brasil: comunicação pública e democracia representativa

 Brasil: comunicação pública e democracia representativa

No início deste mês, fevereiro, o Partido Liberal divulgou o resultado de uma pesquisa que indica a percepção dos brasileiros sobre o Governo Federal, comandado pelo presidente Jair Bolsonaro. Segundo apuração do site Universo Online, entre os dados, os entrevistados afirmam “não saber o que o governo fez” nos últimos anos, um dado preocupante.

 

Aliados do partido ouvidos pela reportagem destacam possíveis pontos para o desconhecimento da população sobre as ações do governo. Entre eles estão, o posicionamento dos principais nomes do governo sobre temas polêmicos que se sobrepõe a entregas e realizações, a aversão de membros do governo aos meios de comunicação tradicionais e o discurso ideológico do presidente que fica preso nas bolhas das redes sociais.

A pesquisa do partido tem finalidade eleitoral, uma vez que Bolsonaro pretende disputar a reeleição em outubro deste ano pela sigla. Mas, quando lançamos um olhar a partir da comunicação pública, a informação obtida pelos liberais acende um alerta, pois demonstra um possível retrocesso no processo comunicacional de interesse público realizado pela instituição.
O desconhecimento dos entrevistados sobre as realizações do Governo Federal brasileiro vai na contramão do que é esperado da instituição na comunicação pública. Meio pelo qual ocorre a expressão, a interpretação e o diálogo entre diferentes atores sociais sobre o que faz, o porquê faz, como faz e o que a instituição fará para organizar a vida em uma sociedade.

A pesquisadora Heloiza Matos (2011), em seus estudos, reforça que a comunicação pública é um canal de trocas comunicativas entre os órgãos públicos e a sociedade, não se restringindo apenas ao que a instituição faz, mas também sua abertura para receber respostas sobre os serviços públicos em andamento.

No mesmo sentido, Ronaldo (2011) pontua que a comunicação pública pode “estabelecer pontes relacionais, gerar serviço baseado na escuta e na transferência de conhecimento”. Ação de mediação capaz de sanar dúvidas sobre os serviços, obter feedback direto do usuário, rever ações, entre outras possibilidades que podem melhorar os serviços públicos.

O apontamento dos pesquisadores demonstra que essa prática de comunicação é um caminho importante para a participação da sociedade e de seus segmentos, não apenas como receptores da comunicação do governo, mas como produtores ativos no processo comunicacional.
Método de participação que desde a redemocratização vem sendo aprimorado no país, e com registros nos governos Sarney (1985 – 1990), Fernando Collor (1990 – 1992), Itamar Franco (1992-1995), Fernando Henrique Cardoso (1995 – 2002), Lula (2003 – 2011), Dilma Rousseff (2012 – 2016), Michel Temer (2016 – 2019), quando pautaram temas como: direitos de cidadania; desenvolvimento do estado; áreas sociais; recuperar a autoestima do cidadão e a melhoria da qualidade de vida; desenvolvimento econômico e social; audiências e conselhos participativos para promover o debate público.

A partir do desconhecimento dos entrevistados sobre as ações do atual governo, é possível supor que exista uma falha na comunicação no atual Governo Federal. Falha que pode comprometer um processo comunicacional iniciado na instituição há mais de três décadas, além de colocar em risco a democracia participativa que tem na comunicação pública um importante pilar.

Quando um governo falha em se comunicar com a sociedade, ele se afasta do conceito rousseauniano de povo, o povo ícone, o povo do contrato social, no qual a democracia é compreendida como o regime que possibilita a participação.

E, em uma democracia participativa, a comunicação pública é um mecanismo que possibilita o cidadão ter acesso à informação, atuar junto com os seus representantes na busca por melhorias nos serviços públicos e no fortalecimento da democracia.

Dessa forma, se a falha na comunicação do governo for reconhecida pelo órgão, deve ser reparada para evitar um retrocesso na jovem democracia brasileira.

 

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